Não é euforia de vencedor, que não sou, é mais do que isso: é gratidão por uma lição do Sporting. Ganda Sporingué! – como eu diria, para remontar aos tempos em que, miúdo de Luanda, ouvi falar do clube. Já lá vamos a este lado da questão, porque tem tudo a ver, mas antes quero sublinhar a notável e inovadora tática de 3-3-3 do novo campeão nacional, Rúben Amorim.
A história mundial do futebol foi marcada por esquemas táticos vários. O primeiro foi o mais gráfico de todos. Chamaram-lhe WM porque as duas letras, a primeira cavalgando a outra, ilustrava as quatro linhas do campo em que se distribuíam os jogadores da equipa: 3-2-2-3.
Assim,

Vieram depois outros esquemas (4-3-3, 4-2-4, 4-5-1…), variantes de algarismos, indiciando maior ou menor pendor defensivo ou atacante, mas todos a fazer sempre a mesma soma, 10. No futebol de onze só não é preciso dizer onde se deve posicionar um jogador, o porteiro, guardião das redes, posto fixo.
Ora, o esquema deste Sporting moderno, muito mais que tático, foi estratégico. Por isso lhe chamo 3-3-3, até desvalorizando a soma costumeira (3-3-3 só soma nove), porque este esquema não é só números. É uma filosofia de vida, repetida numa litania: “Lembrem-se, somos um triângulo mágico!”, “lembrem-se, somos um triângulo mágico!”…
Por isso, faço uma crónica para falar desta atual maravilha, o Sporting, e não a mostro numa folha de excel. Vou falar de uma coisa com pessoas dentro. De substantivos, sim, mas com alma.
Coisa 1: ali há um chefe.
Rúben Amorim, evidentemente. Um líder, daqueles que precisamos no lugar onde trabalhamos, na sociedade onde vivemos, no país que é a nossa casa. Precisamos de sábios motivadores, que saibam e arrastem vontades com eles, tal como esse Rúben fez com este Sporting. Capazes de, é um exemplo, inspirar quem pegue nos jornais e deles faça o que tão ostensivamente quase não há, pois tanto se falha no informar.
Outro exemplo, falta-nos um Rúben Amorim que saiba de comida e de cidades, e não deixe acabar os bons restaurantes na Baixa lisboeta. Ou uma espécie de Rúben Amorim capaz de ouvir o apelo galvanizante do último 25 de Abril e nos prepare para um dia anual que nos mereça e nós a esse dia.
Rúben Amorim foi responsável na sua função social de treinador de futebol. Eu sei, o futebol é só uma alegria, e até isso só quando o é… Mas ele pode ser mais e exemplar. Por ser tão popular pode iluminar-nos a todos, além do futebol, nas boas práticas no emprego, entre vizinhos, na rua.
De cada vez que Amorim substituiu, sei lá, o Nuno Santos pelo Edwards, explicou por que o fez. De cada vez que a procuradora-geral da república deitou abaixo um governo, declarou: “Eu não tenho nada a ver com isso.”
E, reparem, o Rúben Amorim não punha uma pele de marta ao pescoço, nem ar emproado. Simplesmente explicava. Umas vezes com razão, outras, não; mas sempre com ar de cuidar que eu o entendesse.
Rúben Amorim olha o outro com argumentos e um sorriso (que deve ser um gesto inteligente, não um esgar). É uma tática subtil e boa – mas que raramente se vê nas televisões quando se discutem coisas tão ou mais urgentes que o futebol. Ou na política, com personagens quase nunca convincentes.
Nas vezes em que ouvi Rúben Amorim, só fiquei a ganhar. Aliás, dei-me conta do quanto estava carente de bom senso e inteligência quando me pus a ouvi-lo até quando o assunto eram substituições.
Não sou bom em substituições, confesso. Lembro-me, numa final europeia da seleção, cinco minutos antes da alegria que me possuiu, estava eu a dizer-me: “Que raio está o Éder a fazer aqui!?” Mas, repito, o que me importa neste Sporting foi ter visto um chefe, alguém com poder, tentar convencer-me com um sorriso e argumentos.

Coisa 2: eficácia ao serviço duma boa causa.
O Viktor Gyökeres foi convidado a emigrar e vir para cá marcar golos. Então, ele pôs a mão a tapar boca e passou o ano a marcar golos. Notável. O tipo nunca se armou em meu interlocutor, “tu sabes, Zé Fernandes…”, poupando-me à vergonha de eu não saber falar com ele, esbarrando logo no vocativo: “Ó Jócras, perdão, Gicras…” Esse foi o terceiro melhor mérito do sueco, depois do segundo, como já eu disse, de marcar golos.
Mas o primeiro dos méritos de Gyökeres, o mais importante, foi ele não se ter enganado na necessária qualidade da causa. É que marcar golos é bonito em qualquer circunstância.
No Benfica-Manchester United, 1966, para a Taça dos Campeões, no primeiro jogo do meu clube que vi ao vivo, aos 11 minutos já o George Best tinha marcado dois golos (acabou 1-5). Até o nosso foi deles, um autogolo inglês. À minha volta, rasgavam-se cartões de sócio e chorava-se. E eu espantado e feliz: até esse dia, Best era um quase desconhecido. Depois desse dia eu tive mais uma maravilha com que me cruzei na vida.
Golos é sempre bom – mas ser bom numa ordinarice é lamentável. Os snipers também acertam muito, já Gyökeres é admirável porque ele foi muito bom numa coisa boa e útil, golos.
Vê-lo vitoriado pela multidão deixou-me encantado. Entre outras coisas porque anda por aí também a encantar, e igualmente multidões, quem fala de palco, deputação e nos microfones que lhe estendem, contra gente pobre, longe da sua terra, carente de tudo, dos seus e de esperança – pessoas atulhadas num quarto. E, agora, sem mesmo a proteção de uma porta, porque esta arromba-se e é só aviar.
Escrevi eu em cima, “porque tem tudo a ver”. Tem. Na minha cidade, eu chamava Sporingué ao Sporting de Luanda, porque a maioria dos filhos da terra dava ao clube um nominho familiar, graças a um orgulho antigo, por lá ter passado outro filho da terra, Peyroteo (nasceu quase ao lado, 500 quilómetros abaixo, na Humpata, sobre o deserto de Moçamedes). Gosto de evocar andanças porque viajar educa, não falo de turismo, mas de ver, não só olhar, os outros.

A meados dos anos 60, no liceu, eu já tinha perdido a ilusão de vir a ser futebolista, o que me libertava da inveja quando assistia ao duelo mais talentoso na cidade. Passava-se no campeonato local de juniores, entre os avançados de centro, do Sporingué e do FC de Luanda. Entre um negro e um branco. E se hesitei entre os dois, por isto e por aquilo, certo é que na equação, estou certíssimo, nunca entrou a cor de qualquer deles.
E porque tudo tem a ver, no inverno de 1970, eu estava em Bordéus, França, sem documentos, mas com fortes convicções. Por trabalhar ocasionalmente como trolha, mas sem onde dormir, fui a uma das casas da Sonacotra, empresa estatal de alojamento que França construía para trabalhadores imigrados. O casal francês da portaria começou por me negar a entrada. Por isto: “Há uma cama vaga, mas só no pavilhão dos argelinos…”
E então?, disse eu, filho do meu bairro de São Paulo, vizinho ao musseque Sambizanga e espectador encantado de duelos multirraciais no estádio dos Coqueiros, Luanda. A bordalesa disse ao companheiro, enquanto eu me dirigia para o pavilhão: “Coitado do rapaz.”
Passei uns poucos meses no alojamento da Sonacotra, num cubículo com cada cama entre tabiques que não chegavam ao chão, nem escondiam a gentileza. Num dia festivo que não era dele, um tipo de túnica norte-africana ofereceu-me uma modesta prenda de Natal. É tudo o que tenho para contar, a não ser a atualidade, no Porto, rua do Bonfim, na semana passada. Dentro da casa onde viviam, 10 argelinos e um venezuelano foram assaltados à bastonada durante meia-hora, num dia da semana em que o Sporting iria garantir ser campeão.
Eu e um venezuelano, separados por quase meio século, que boa conversa poderíamos ter sobre os ínvios caminhos da História.
Como não gostar do futebol quando ele nos leva à…
Coisa 3: a bondade como propaganda.
Paulinho do Sporting foi um dos heróis na festa de domingo, durante consagração sportinguista. Há outro Paulinho no Sporting, ponta-de-lança, com nome e número gravados na camisola – “Paulinho” e “20” – também muito vitoriado no Marquês de Pombal. Mas de quem eu quero agora falar é do primeiro dos Paulinhos.
Paulo Gama também tem relação com camisolas sportinguistas, mas no sentido mais lato. Ele é, diz a sua ficha no Sporting, “técnico principal de equipamentos”. Mas a história dele é toda feita de simplicidade, daí que seja conhecido – e amado – como Paulinho, o roupeiro.
Antes dos jogos ele entra com um saco de bolas e outro de toalhas. E é aplaudido quando se dirige para o banco dos suplentes, ele, que é efetivo no Sporting, com presença de quase todos os dias, há quase 40 anos. No fim de todos jogos, perdidos ou ganhos, lá vai este Paulinho pelo relvado fora, dar palmas nas costas dos jogadores, nas vitórias, ou carícias de mão nas caras desoladas, nas derrotas.
Ele tem 55 anos e passos vacilantes, o que pode levar-nos a supor termos ali um futebolista daqueles em fim de carreira e azares trazidos por meniscos mal operados. Da última vez que vi o Eusébio foi numa fila do aeroporto de Lisboa e cruzei-me com ele por sete vezes, nos meandros que nos levavam aos raios X para a zona de embarque. Nesse dia, foram sete sorrisos que lhe dei e muita mais gratidão ficou por dar. Paulinho, o roupeiro, coxeia como esse meu último Eusébio, mas sem nunca ter calado um estádio como acontecia com a pantera quando marcava um livre a 30 metros da baliza.
Foi a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – não, ela não é só maroscas, agora badaladas, é também funções úteis – que em 1985 juntou Paulinho ao Sporting. A Santa Casa avisou o clube sobre o rapaz que ela guardava e da paixão que o animava. Os tempos provaram que o que aconteceu não foi comiseração por desgraça alheia, foi negócio certo, generosidade que alimentou ambas as partes.
Aliás, beneficiou-nos a todos. Sabermos do Paulinho, o roupeiro, é conhecermos as respostas ao poema de Brecht, Perguntas de um Operário Letrado: “(…) O jovem Alexandre conquistou as Índias/ Sozinho?/ César venceu os gauleses/ Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?/ Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha/ Chorou. E ninguém mais?” Pois, os simples pela borda fora da História.
Quando Rúben Amorim treinou e Gyökeres goleou, o Sporting não descartou Paulinho, o roupeiro, na saga comum para a condição coletiva de campeões. No domingo da glória, foi vê-lo com o seu sorriso torto e bonito e os seus passos de dança. Comoveram-me. Agarrou-se aos microfones e pôs-se a garantir desejos: “Acreditem em mim, o Rúben fica cá…” E: “O Gyökeres também…” Por que razão nada disso me soou a promessas aldrabadas em campanhas eleitorais?
Por causa da tal tática, que não é tática, do 3-3-3.
De cada vez que o homem simples se lembra do triângulo mágico, ele distribui os mesmos protagonistas, digamos, os mesmos jogadores da vida (o treinador, o goleador e o roupeiro), repetidos por cada plano do campo de jogo. Rúben, Gyökeres, Paulinho – Rúben, Gyökeres, Paulinho – Rúben, Gyökeres, Paulinho. No sistema 3-3-3, todos são precisos e todos estão juntos e todos o fazem saber.
O triângulo mágico é sincero e honesto. Concita vontades comuns e, mesmo que falhe, não nos puxa para baixo. Até a mim, que não sou sportinguista, essa experiência representa e interessa.
Ah, acham que isto não é urgente? Então, mais uma viagem. Em 1951, Sebastião Lucas da Fonseca, Matateu como nome de guerra, moçambicano, negro e em vias de se tornar uma lenda chegou a Lisboa. Ele vinha para o Belenenses e ao abrir o campeonato jogou contra o Sporting, então no meio de um longo poder quase só dele. Com exceção de 1950, os leões tinham ganho, seguidos, os quatro campeonatos anteriores e iriam ganhar os quatro seguintes.
A 23 de setembro de 1951, um domingo, Matateu estreou-se em Lisboa. Foi um deslumbre. Finta curta, arranques imparáveis, remates potentes. Dois golos e outro dado a marcar, o Belenenses ganhou, 4-3, ao quase eterno campeão. O velho campo das Salésias enlouqueceu. A censura avisou os jornais sérios: nada de abusos! É que acontecera o inaudito e era preciso não mostrá-lo.

Porém a censura esqueceu-se de A Bola, jornal só desportivo fundado por Cândido de Oliveira, em 1945. Porque isto anda tudo ligado, como já foi dito aqui, A Bola publicou na capa a foto de Matateu vitorioso e sorridente, com adeptos entusiasmados. Mais exatamente: um negro carregado aos ombros por brancos.
Cândido de Oliveira fora preso pela polícia política em 1942 e torturado por atividades antifascistas, dentes partidos e mandado, por dois anos, para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Dez anos depois, jornalista e também treinador bicampeão pelo Sporting, como agora o Rúben Amorim, Cândido de Oliveira era muito homem para, deliberadamente, ter ousado publicar a blasfémia, ou, vá lá, o incómodo. Mas não se garante que assim tenha sido, talvez só aconteceu a publicação porque era uma boa foto.
Certo é que autoridades racistas, há três quartos de século, achavam natural proibir a foto de um negro levado aos ombros por brancos. Por isso, quando cidadãos racistas, 73 anos depois, acham natural invadir uma casa e espancar os locatários, porque estes não são brancos, é altura de se contar com vagar e interesse todas as causas limpas. E elogiar os homens e mulheres que as levam à vitória.
Viva o Sporting que mete golos e se sabe explicar! Assim saiba eu fazer o mesmo na assembleia de condóminos, no meu jornalinho e quando conduzo.

Um artigo delicioso!
Uma delícia. Obrigado por continuares a escrever. Um abraço do Namibe
Obrigado!