dona marina chelas cigana
Ilustração: Wilson Lopes

No bairro de Chelas, se um botão se descose ou se uma bainha se desfaz, só há uma porta à qual bater: a de Marina Maia, mais conhecida por “Dona Marina”, uma senhora de 61 anos que não só domina a máquina de costura, como é a mestre por detrás dos salgadinhos mais cobiçados do bairro. Porque contamos a história dela? Porque Marina é vista como exemplo por todos, a mulher que voltou a estudar e que se tornou empreendedora em Chelas, o que diz não acontecer com muita frequência a uma cigana, como ela.

Marina nasceu numa barraca na Ajuda, filha de um trabalhador das docas e de uma vendedora de cortinados. “Nunca soube o que era viver mal na companhia dos meus pais.” O pai, por todos conhecido como “o Maia”, parente do músico Nininho Vaz Maia, diz Marina, é descrito por ela com grande orgulho: “O meu pai era muito político a falar, era um homem sábio. Foi o primeiro cigano a fazer parte de uma comissão de bairro!”

Um homem à frente do seu tempo, o mesmo tempo em que a comunidade cigana estava sujeita ao regulamento para o serviço rural da GNR que ordenava “severa vigilância” sobre os ciganos. Foi apenas o 25 de Abril de 1974 a abrir caminho para a mudança, com a Constituição de 1976 a declarar que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”.

A história de Marina já se conta de forma um pouco diferente. “Eu e os meus irmãos tivemos uma educação muito diferente dos outros ciganos. Fui criada num ambiente de muitas misturas. Para mim, todos somos iguais.”

Ao contrário da maioria das pessoas de etnia cigana, o pai de Marina saberia ler, escrever e esteve na Guerra Colonial – uma situação incomum, conforme se vê numa antiga reportagem da RTP de 1974, segundo a qual as gerações mais antigas de ciganos não iam ao registo civil para escaparem ao serviço militar.

Com o fim da ditadura, foram muitos os que acorreram ao Distrito de Recrutamento Militar de Lisboa para regularizar a sua situação.

A mãe, essa, lembra-se, “era uma mulher muito séria”. “Ensinou-me muito, tudo o que eu faço em casa agradeço-lhe a ela.”

Já não os tem por perto. E há anos ficou ainda mais sozinha: está a cumprir o luto do marido. Veste-se de negro da cabeça aos pés e não posa para fotografias, cumprindo a tradição cigana. “Tenho orgulho em ser cigana, cumpro as tradições ciganas” – também por isso decidiu manter o rosto anónimo para esta entrevista.

Cumpre-se em duas grandes paixões: a costura e a culinária, que a tornaram conhecida como uma das empreendedoras de Chelas. Mas também como a mulher que, depois da morte do marido, voltou à escola, onde está a aperfeiçoar a escrita.

Voltar a estudar aos 60

Marina diz que sempre incentivou os filhos a estudar, e a trabalhar. “Hoje o meu filho é um homem que não tem medo do trabalho, acho que isso é importante: a questão do trabalho.” O filho, depois de um curso profissional de restauração e de hotelaria, trabalha a montar ar condicionado. A filha seguiu as pisadas da mãe: é feirante.

Ela está a estudar: agora a completar o 4.º ano, mas o plano é chegar até ao 9.º. Leva, pois, a cabo o ensinamento que transmitiu aos filhos. “Eu não posso estar o dia todo fechada em casa, eu entro em depressão. Com a solidão, começo a chorar.”

“Tenho aprendido muita coisa: as amizades, a lidarmos com as pessoas, a fazermos trabalhos manuais…”. E tem também melhorado a sua escrita. “Agora já não faço tantos erros!”, conta, orgulhosa do progresso.

A mulher que “desarranja” as peças que mais ninguém quer

É de manhã, antes das aulas, que Marina se senta à máquina de costura, a fazer os arranjos que lhe pedem no bairro. “Até as minhas professoras já me pedem!”.

Ela que, nos últimos anos, foi atrás das suas duas paixões: a costura e a culinária, áreas nas quais já fizera uma formação. No Facebook, criou uma página para encomendas dos seus famosos salgadinhos. E está a fundar o projeto “Desarranjos”, a partir do qual recicla roupa que já mais ninguém quer, como transformar calças de ganga em tote bags.

Tem um sonho: organizar workshops de costura para que outros possam transformar as suas próprias roupas também.

Sente que os tempos estão a mudar, e as oportunidades são muitas. No bairro, já todos a conhecem: ela é a costureira e cozinheira de Chelas, e é esse o caminho que quer continuar a trilhar.

“Tenho o sonho de conseguir o que sempre quis: a costura, sempre adorei a costura, e a culinária. Levo as coisas a sério, e, quando meto uma coisa na cabeça, levo até ao fim.”

Foto: Rita Ansone

“A primeira mulher cigana a levar o marido a tribunal”

Há 50 anos, a realidade seria mais complexa. Marina não teve uma educação convencional para a época. “Levei uma vida que muitos ciganos não levaram, já foi uma vida diferente, uma educação diferente.” Mas, mesmo assim, acabou por ir à escola apenas durante “dois, três anos”.

Tal como muitas mulheres de origem cigana da sua geração, Marina acabaria por deixar os estudos na gaveta. “A minha cabeça não dava” – é assim que explica a saída da escola. Foi com o pai que realmente começou a ler. “Como eu conhecia as letras, o meu pai ensinou-me a juntá-las.”

E, como muitas mulheres ciganas, casou cedo: aos 18 anos, com um rapaz que conhecera em casamentos ciganos, o homem do qual hoje faz luto.

Mas foi às mãos do marido que sofreu violência doméstica. Violência que a levaria a fugir da Margem Sul, onde passara a viver, para Lisboa, conta. Consigo levava a filha ainda no ventre. Chegou a dormir nas ruas, na zona da Portela, até que a então vereadora da Habitação Paula Marques lhe entregou as chaves da casa onde hoje vive, em Chelas.

O marido acabaria por regressar, batendo-lhe à porta. “Perdoei-lhe, pensando que ele teria mudado, mas nunca mudou.” Teriam um segundo filho, que seria alvo de uma outra luta. “Levei o meu marido a tribunal, e fui criticada: ‘a primeira mulher cigana a levar o marido a tribunal’, para conseguir que o pai pagasse uma parte da alimentação do filho.”

Uma luta que conta ter ganho.

Em Chelas, Marina continua a quebrar tradições, mesmo que viva orgulhosa das suas raízes.



Wilson Lopes

Wilson Lopes faz arte em Chelas, com o projeto BNC Movement (Bringing New Colours). Foi um dos participantes no projeto Narrativas, da Mensagem.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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