Pronto, o homem tem pouco tempo. Paciência, há que apoiá-lo, cada um tem a sua vida – e há quem tenha mesmo vidas difíceis.

Bem me lembro de o ver, tanto há pouco como há muito, de mochila na Paiva Couceiro. É manga curta no Verão, manga comprida no Inverno, mas o ar é sempre o mesmo: o ar de quem tem muita pressa para ir para qualquer lado. O gajo tem tão pouco tempo que até o banho é um luxo. E deixar secar a roupa é outro a que não se pode dar quem anda sempre à nora, sempre com tanto para fazer, sempre a correr contra o relógio. Coitado. Isto é de tal forma verdade que quando se sente o cheiro a mofo toda a gente pensa: “Cheira a Tó.”

Pá, o Tó é daqueles gajos que não dizem que não a nada. Mesmo quando não tem tempo, arranja uma aberta na agenda para mais uma reunião. Chega a um ponto em que as abertas já estão cheias, claro, mas ele continua disponível para mais isto ou aquilo. E depois diz sempre: “Não tenho tempo para nada.” Queixa-se de não ter vida social, mas passa tanto tempo com tanta gente que, se um apanhasse uma doença infecciosa, morria metade de Lisboa. O Tó é mesmo assim: um porreiraço que conhece meio mundo.

Foi por isso que metade da Penha de França se espantou quando ele anunciou, ufano, que ia ter um filho. Pesadas as coisas, ele mal tinha tempo para ver a namorada com quem vivia à larga num T2, ali com vista para o Tejo, mesmo à patrão, com uma varanda das grandes. Nascida a criança, toda a gente julgava o mesmo: “O Tó que conhecemos vai passar a ser outro Tó. Ninguém que acorde tantas vezes aguenta aquela vidinha corrida.”

O bebé nasceu e a vida do Tó ficou igual. E, mesmo assim, volta e meia lá arranja tempo para mais uma reunião, e nunca diz que não a um café para discutir isto ou aquilo. Caraças, é mesmo preciso gente desta para fazer o país andar para a frente. Pode ser mau pai, mas é um gajo fixe. É que, para aguentar bem os dias, ele não pode fazer nada durante as noites. E se perder tempo a lavar biberões ou a pôr roupa a secar não tem tempo para ir a mais reunião nenhuma. Assim sendo, quem senão ele vai defender a igualdade de oportunidades no acesso ao mercado de trabalho ou as licenças parentais igualitárias e obrigatórias para as mulheres não saírem prejudicadas no meio da selva capitalista? Não há mesmo mais ninguém. Por isso, se o menino chorar, a mãe que cuide dele para o pai estar fresco para outra. Ele – e mais ninguém – tem de garantir que, num futuro breve, mães e pais possam passar o mesmo tempo com os filhos. Pode ter um bebé em casa, mas é daquelas almas puras preocupadas com o mandarim do Eça.

A namorada lá lhe começou a dizer que andava exausta. Que tinha de tomar conta do miúdo, acordar sabe deus quantas vezes por noite, acalmar birras e lavar babygrows, e pelo meio tratar de jantares e afins, e ele não fazia nada – tão ocupado estava, já se sabe, nem banho tomava. Ela também não. E se lhe pedisse para ficar cinco minutos com o miúdo para poder lavar o cabelo com leite vomitado da semana anterior ainda ouvia um “Não posso, querida, tenho de preparar a reunião. Acreditas que houve um gajo que disse que era normal as mulheres receberem menos por engravidarem e, por isso, produzirem menos nas empresas? Não pode ser. Vamos reunir de novo e preparar uma crónica em conjunto para responder ao palhaço. Sacana de gajo, não deve ter nem mãe nem filha.” 

Por isso, a mãe do puto lá teve de levar o bebé para a casa-de-banho, metendo-o na alcofa e esperando por um milagre: talvez daquela vez não chorasse e ela não tivesse de ir, toda escorregadia, a correr para o acudir. Mas paciência, era a vida, que podia fazer? Alguém tinha de cuidar do miúdo e o coitado do pai, já se sabe muito bem, não tinha mesmo tempo.

Convém ainda dizer que a mãe foi despedida quando se soube da gravidez. Vá, despedimento é agressivo: o contrato na Sixt não foi renovado, ainda que, três dias antes do anúncio, lhe tivessem dito que seria. Mas a vida nas empresas é imprevisível, já se sabe, e os recursos humanos mudaram de posição depressa, naquelas 72 horas: afinal, ela não cumpria os requisitos e tinha ficado abaixo de todos os parâmetros nas avaliações. Lá se safou com o subsídio de desemprego, a seguir com licença de parentalidade. Quando a criança tinha cinco meses, ainda antes de entrar para a creche, a mãe foi chamada para uma entrevista de emprego. Se tudo corresse bem, lá iria ela para um escritório algures no Lagoas Park. Houvesse luz ao fundo do túnel.

Lá disse ao Tó: “Ficas-me com o miúdo na terça às quatro e meia?”. Ele pediu muita desculpa, mas de facto não dava. Ia ser chamado a um programa de televisão para, enquanto activista, mostrar a sua posição sobre a conciliação entre parentalidade e trabalho. Agora que era pai, ainda tinha uma perspectiva pessoal a dar. E ainda ia focar na desigualdade de género, na forma como as mulheres saem sempre mais prejudicadas no âmbito laboral, criando-se a partir daí um desequilíbrio financeiro que nunca mais se recupera. Em caso de divórcio, eram sempre as mulheres que ficavam à nora: davam mais pela família e no final levavam com as consequências de só elas terem sacrificado alguma coisa. “É preciso”, dizia o Tó, “lutar contra isto”. E se não houvesse gente como ele, nunca se lutaria.

A mãe – sei lá o nome dela, e que interessa? – não foi à entrevista de emprego. Já passaram outros tantos meses e acho que nunca mais saiu de casa. Quando vê o Tó a chegar de mais uma reunião, quase sempre em cima da hora do jantar, talvez se aperceba das semelhanças que até sabem a clone: igual a um machista de direita, só um de esquerda.

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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2 Comments

  1. Estou muito contente por receber a mensagem de Lisboa e encantada quando há noticias (boas) da Penha de França.
    Muito Obrigada
    Lúcia

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