
Dentro da Eurima Solutions, uma empresa da freguesia de Algueirão-Mem Martins, em Sintra, que atua nas áreas de mediação de seguros, da administração de condomínios e da limpeza de edifícios, talvez nunca se tenha ouvido falar de “arquitetura hostil“, uma estratégia para “afastar os indesejáveis” do espaço público.
Floreiras, pilaretes, grades: são estes alguns dos elementos tantas vezes colocados nas ruas para impedir que as pessoas ali se sentem, deitem, descansem – uma tática muitas vezes usada para afastar as pessoas em situação de sem-abrigo. Um dos casos que a Mensagem deu conta foi o das grades que apareceram, recentemente, junto à Igreja dos Anjos, em Lisboa.



Também conhecido como “aporofobia”, o termo foi cunhado em 2017 pela professora de filosofia Adela Cortina e que traduz “a rejeição sistémica da pobreza e das pessoas sem recursos”.
“Tenho assistido a esses fenómenos em Lisboa”, denuncia Américo Nave, diretor-executivo da CRESCER. “As pessoas por vezes colocam floreiras, madeiras, tapam janelas… é uma forma de dificultar a vida de quem está numa situação de vulnerabilidade”.
Sem o saberem, Rita e Márcio Pires, da Eurima Solutions, lutaram contra esta mesma realidade dentro da sua própria freguesia, em Sintra, ao incentivarem o uso de uma passagem aberta em frente a um prédio privado que eles administram.
A carta aberta de um prédio a toda a comunidade
Na esquina entre a Estrada de Mem-Martins e a Rua Domingos Saraiva, onde fica um banco BPI, existem arcadas com bancos e um espaço que serve o prédio. É aí onde muitas vezes se costumam abrigar os transeuntes da chuva, ou até mesmo reunir-se amigos para dois dedos de conversa.

Mas, nos últimos tempos, começaram a surgir queixas por parte dos moradores desse prédio em relação ao lixo que ali era deixado. A solução para o problema, proposta pela Eurima, foi exatamente o contrário daquilo que acontece com a arquitetura hostil: afixaram um papel onde incentivam o uso da passagem… desde que com civismo.
“O prédio é privado, mas aquela passagem é aberta, é pública”, diz Rita Pires. “Os moradores do prédio não se importam que as pessoas lá estejam.”
No papel, pode ler-se:

“A todos os transeuntes
- Precisa de abrigo? Abrigue-se aqui
- Precisa de descansar? Descanse aqui
Temos gosto em poder acolhê-lo, no entanto, este espaço é privado, por esta razão a manutenção do mesmo representa custos para os proprietários do prédio.
Mantenha o espaço limpo.
- Não atire beatas
- Não deixe embalagens
Colabore connosco de forma a manter este espaço limpo e agradável por todos, em vez de sujo e vergonhoso como tem sido hábito.”
Na internet, há quem lhe chame arquitetura “permissiva” ou “inclusiva”. “Nunca ninguém teve o intuito de expulsar”, explica Rita.
Arquitetura hostil em Lisboa
A atitude de Márcio e Rita contraria aquela que tem vindo a ser uma tendência em Lisboa.
Exemplos disso são uma estrutura metálica colocada junto à loja MANGO nos Restauradores ou painéis de madeira à volta do Continente do Martim Moniz.

Mas não é caso único na cidade. No início do ano, a colocação de grades no jardim António Feijó, onde costumavam pernoitar pessoas em situação de sem-abrigo, causou polémica. Meses mais tarde, a retirada de cadeiras na Praça Paiva Couceiro, que suscitou a reflexão sobre a mercantilização do espaço público entre a comunidade do bairro.
Aquilo que se tem verificado é que, muitas vezes, moradores e lojistas colocam estes elementos sem licenciamento. Em 2019 noticiou-se que, na Avenida Dom Rodrigo Cunha, na freguesia de Alvalade, um morador teria instalado um conjunto de pilares, sem licenciamento, à volta do prédio onde vivia, para assim afastar as pessoas em situação de sem-abrigo. Foi depois obrigado a retirar o que ergueu.
Em Mem-Martins, a população aplaudiu o papel que ali foi fixado, conta Rita Pires. E reforça: “As pessoas precisam de se sentar.”
Esta reportagem faz parte do Projeto Narrativas. Saiba mais aqui


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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