O tipo não tinha bom ar, mas àquelas horas da tarde, depois de um dia em que acordo cedo, também não tenho, e isto apesar de usar sapatilhas em vez de chinelos em Janeiro. Não era o caso dele, e o casaco que lhe cobria os braços parecia coisa fina. Lá fora, já se via gente a passear de quispo, e a ameaça de a chuva cair devagar até se transformar em queda forte e feia.
Sentou-se ao meu lado, e do Marquês ao Campo Grande a história foi a mesma. O ar era desolado, de quem tem a vida que não quer. O telemóvel, na mão, parecia não servir para nada. Durante todo o tempo, que contou com trânsito e semáforos, insistiu a ver se lhe atendiam. Nada, nada. Do outro lado, alguém o ouvia ou não ouvia, mas o telemóvel tocava e desligava sozinho. Ele, que não se resignava, ligava outra vez. E a história era sempre a mesma, numa insistência que já tinha sabor de perda. Magro como um espeto, tinha idade de homem novo e olhos de velho triste.
Olhava-o de soslaio mas nem precisava de me esforçar para disfarçar. Colado no próprio abismo, ele nem olhava para mim. Aquilo era pouco homem para tanta rejeição. Os olhos encovados de um amor fugido, de um coração traído, de uma mãe zangada ou eu sei lá. Os olhos encovados, é tudo. Basta tê-los para se parecer ter os pés para a cova. Quase me deu vontade de lhe dizer: “Desculpe, mas conte lá. Que lhe aconteceu, quem o ignora? Porque é que insiste?” É que, se por um lado, insistir não dá em nada, também nunca se chega a nada sem se fazer por isso. Mas quis ir às entranhas daquela coisa bizarra, ali a morar sossegada, discreta, no dia-a-dia. Aquela triste figura dava para tudo, dava para uma literatura inteira. Partindo dali, podiam ser escritas mil histórias, até imaginar uma mãe que já morreu e deixou o telemóvel a carregar junto ao sofá, deixando ao filho a hipótese de fingir que lhe podia telefonar a qualquer hora. Não atender não é o mesmo que levar com o voice mail, de ouvir que “O número para o qual ligou não está atribuído”, a maior história de terror dos condenados que levam com a rejeição de um bloqueio no raio de um aparelho – que levam com uma voz robótica, igual para todos, vinda de um lugar onde antes só se achou intimidade.
Eu até quis consolá-lo, mas sei lá. Não se pode consolar alguém só por estar triste, só porque faz olhos de cãozinho a quem dá vontade de dar osso, só porque alguém se meteu num buraco que dá pena. Se, por um lado, eu só podia ter a versão dele – e, para isso, precisava de meter conversa –, por outro, a realidade costuma ser coisa mais ampla. Eu sabia lá se quem o ignorava era a ex-namorada cujo nariz ele tinha partido numa noite. Sabia lá se a mãe estava, afinal, viva, mas de carteira vazia porque ele lhe tinha ido lá buscar os últimos trocos para a droga, e que agora recebia ameaças da EDP. Ou sabia lá se a coisa era mais simples, se ele tinha contratado um picheleiro que lhe tinha fugido com o dinheiro e que agora o ignorava a ver se as centenas de euros gastas passavam pelos pingos da chuva que molhavam o chão de Lisboa, que, de céu escuro, faziam par amoroso com o ar desgraçado, quase francês, do homem ali sentado.
Era o fim de uma tarde escura de Janeiro e eu tinha-me esquecido do meu livro no café. Cabia-me, como é praxis, inventar a realidade. Meter os olhos num livro implica abrir a janela para o outro; volta e meia, sem o livro, é olhar para o outro, este colado ao lado da janela, que implica vê-lo. Durante o percurso, continuei nas minhas perguntas sem respostas. Claro que não ia ousar abrir a boca. Só olhar para ele, inventar-lhe a intimidade, já era uma invasão a que se presta quem está no espaço público. Mas não havia nada a fazer e ainda havia mais três paragens até ser hora de sair.
Não contei as chamadas. Foram todas as possíveis. Saí do autocarro e o homem lá ficou. Como as sapatilhas eram de pano e a chuva se deixara de ameaças vãs, fiquei com os pés encharcados. Para aquilo, talvez mais valesse ter ido de chinelos.
O povo precipitou-se para dentro do autocarro, agora cheio e abafado, alguns a caminho de Odivelas. E, antes de seguir caminho, ainda olhei lá para dentro. De cabeça encostada à janela, agora cheia de pingos do lado de fora, o homem fechara os olhos, e continuava com a mesma não-resposta colada à orelha e a mesma expressão de desalento. Ao lado, a senhora que se sentara nem olhava para ele. Em vez disso, estava absorta com o polegar a girar para cima o écran do telemóvel.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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