Gracinda tem 78 anos, agita os braços, as mãos num ritmado vai e vem ao céu, vestida na fantasia de um telúrico pássaro, alegoria criada e costurada por ela especialmente para o desfile no sábado de Carnaval, já no dia 10 de fevereiro. O ensaio dá-se em praça pública, com melodia de uma antiga marchinha brasileira a ecoar pelo Largo Mendonça e Costa, na Penha de França.

“Se você fosse sincera, ôôôô, Aurora…”, canta Gracinda. Canta e sorri. A lisboeta é a tradução de vitalidade e alegria de viver, uma das 82 integrantes de um grupo de mulheres do coletivo A Avó Veio Trabalhar, um hub criativo que há dez anos tem transformado a terceira, a quarta idade, numa fase de vida produtiva, de convívio e realização de sonhos.

Vídeo: Líbia Florentino / Edição: Inês Leote

E também de integração com outros setores da sociedade, independentemente da faixa etária. Como a parceria que agora se consuma: com um bloco de Carnaval brasileiro imigrado em Lisboa, a Colombina Clandestina. Um grupo que faz da folia ativismo – e vice-versa – e consolidou-se nos últimos carnavais como o maior bloco de Lisboa, arrastando dezenas de milhares de foliões no sábado de carnaval pelas ruas da Penha de França, desde o Mercado dos Sapadores, com apoteose no Largo da Graça.

Uma pequena multidão que no desfile do dia 10 de fevereiro deste ano ganhará quatro novas foliãs já com 70 e tantos carnavais no currículo. Mulheres com o sorriso estampado no rosto e energia e disposição de fazer inveja a boa parte dos jovens que estarão no desfile.

“Acompanhamos o desfile da Colombina Clandestina e ficamos maravilhadas. Na hora, dissemos umas às outras que no próximo estaríamos presentes. E lá iremos”, conta Susana, umas das criadoras do projeto destas avós.

Um convite para avós mostrarem o seu talento

Como na famosa fábula, porém, antes de cigarras, as avós são laboriosas formigas. O sábado anterior ao do desfile é de trabalho intenso na sede do coletivo, em ritmo de oficina, a mesa uma alegre e colorida linha de produção de fantasias e adereços. O papel, o tecido e a linha a matéria-prima dos sonhos que se tornarão realidade.

A Avó Veio Trabalhar nasceu com essa vocação, de valorizar as pessoas seniores e incentivá-las a abraçar novos projetos, a olhar para frente e não apenas para trás”, resume Susana António, 44 anos, enquanto usa um spray para tingir de rosa a tiara que no carnaval adornará a cabeça de uma foliã.

Susana é uma das criadoras do projeto cuja escolha pelo nome foi uma maneira de driblar outros termos considerados pejorativos para designar quem já viveu bastante, como “idoso” ou “velho” – sendo “avó” uma expressão mais simpática e positiva.

O hub nasceu em 2014 no Poço dos Negros, em Âlcantara, mas a sede original logo provou-se pequena para tantos projetos ainda por realizar. Há quatro anos, as avós vieram trabalhar para a Penha de França, agora num espaço com cerca de 280 metros quadrados, equipado com armazém, copa e muita disposição. 

A iniciativa mantém-se sem apoio externo, exclusivamente do talento de mulheres que chegam para dividir a experiência colhida durante uma vida bastante produtiva, e também de muitas outras até menos, mas com muita disposição em aprender. Dessa sinergia e troca de conhecimento florescem mantas, bolsas, tapetes, pegas, almofadas e uma infinidade de acessórios e produtos de lazer e para a casa.

Uma produção disponível para a venda na loja online e em pontos físicos de venda noutras partes de Lisboa, do país, nas ilhas e no exterior – até com direito a uma loja pop up no Japão.

Em breve, as avós também irão trabalhar num café, a ser inaugurado no rooftop do novo prédio do Impact Hub Lisbon, no Areeiro.

Ângelo e uma das tantas novas avó que ganhou: uma experiência familiar com alegrias e algumas “zangas”. Foto: Líbia Florentino.

“O trabalho aqui é sempre intenso, mas feito sem hierarquias, colaborativamente, num verdadeiro espírito de família. É uma alternativa aos tradicionais centros de dia e lares, uma extensão da vida familiar, com a diferença de que nós ganhamos uma dezena de novas avós e elas uns tantos novos netos”, diz Ângelo Campota, 41 anos, outro idealizador do projeto.

“Como toda família, obviamente, há zangas, mas que são logo resolvidas”, continua Ângelo, sob o olhar atento de uma das tantas avós que ocupou o lugar da avó “original” dele, já desaparecida. 

O novo neto, porém, não invoca o estatuto de favorito. “Acho que as avós gostam de mim por ser mais divertido, mas reconhecem a dedicação de Susana”, resume diplomaticamente, sem querer provocar novas zangas na imensa família. 

Talento e alegria não têm idade

Aos 88 anos, Maria do Rosário experimenta a fantasia de um gigante coração que prepara para ser usada pela diretora do Colombina Clandestina, Andréa Freire, no desfile do próximo sábado. Um trabalho feito pouco a pouco, dia a dia, pela experiente bordadora à máquina, nascida em Viseu e que fez de Alfama a sua casa desde os 5 anos. 

Em tantos anos de dedicação à costura, é a primeira vez que Maria do Rosário cria uma fantasia de carnaval. “Foi um bocado mais difícil do que de costume”, reconhece a experiente avó, que não pretende desfilar.

Maria do Rosário experimenta o imenso coração que irá vestir uma das integrantes do bloco no desfile de carnaval. Foto: Líbia Florentino.

Ao contrário do avoante pássaro Gracinda Rebolo, lisboeta que há muito trocou Valença do Minho por Alcântara e, no auge dos seus 76 anos, não perderá a oportunidade de desfilar. “Eu sou assim, não paro. No Dia das Bruxas, fantasio-me de bruxa, nos Santos Populares de varina, no Dia da Poesia, declamo”, elenca a foliã o currículo de uma vida de festa. 

A energia das avós é um dos efeitos colaterais do projeto, com resultados reconhecidos por familiares e especialistas.

“Normalmente, as avós chegam apresentadas pelos netos e pelos filhos ou encaminhadas pelos médicos de família, num sinal de reconhecimento dos resultados dessa convivência afetiva e produtiva. Aqui, elas sentem-se úteis e têm os seus talentos valorizados e são estimuladas a abraçarem novos projetos”, reforça Susana.

Gracinda Rebolo, o sorriso e estima sempre em alta: “Sou linda e maravilhosa por dentro”. Foto: Líbia Florentino.

A alegria de Gracinda é uma prova disso. 

Uma vizinha do Areeiro ao cruzar o passeio solta um “coisa linda!” enquanto a avó é fotografada para esta reportagem. “E sou linda de natureza, mesmo”, reconhece sem falsa modéstia. “Aqui dentro, sou maravilhosa”, continua Gracilda, ajeitando com as mãos as folhas mais rebeldes do vestido-pássaro com o qual voará no desfile.

Desfile pede mais otimismo e união em Lisboa

No retorno ao trabalho, Gracinda troca a antiga marchinha de carnaval pela tradicional marcha dos Santos, o conhecido refrão “Cheira bem, cheira a Lisboa” ecoado entre as avós presentes na linha de produção dos adereços e fantasias (utilizadas pelos integrantes do bloco e vendidas aos participantes do cortejo).

As tesouras e agulhas não têm descanso. Afinal, o dia do desfile aproxima-se. 

Integrante do Colombina Clandestina, Helena Pereira confere o resultado de tanta dedicação e trabalho das avós. A parceria entre os dois coletivos foi uma forma de reforçar a sintonia das comunidades brasileira e portuguesa, em tempos onde se ouve falar numa certa tensão entre os países irmãos e do que consideram ser uma intransigência das autoridades que quase puseram em causa o desfile deste ano.

“As relações parecem andar um bocadinho mais tensas, não só entre alguns portugueses e brasileiros, mas com outras comunidades. Como o bloco é formado por mulheres de dezenas de outras nacionalidades, a parceria foi a oportunidade de propor uma integração e por isso a cor escolhida é o rosa, para reivindicarmos mais otimismo e alegria em Lisboa”, explica Helena.

Helena e os últimos detalhes das fantasias: espalhar o rosa pelas ruas de Lisboa. Foto: Líbia Florentino.

Responsável pela dança e coreografia do bloco, Helena aguarda pela convidadas mais do que especiais. A possível falta de “samba no pé” não será um problema, ressalva Helena, ela mesma uma portuguesa que andou a praticar com as amigas brasileiras de coletivo. “Muitas delas, têm o samba no ADN, mas mesmo assim já me desenrasco um pouco”, confessa.

Com ou sem samba no pé, pelo menos quatro avós já estão com a participação e as fantasias garantidas para o desfile da Colombina Clandestina pelas ruas da Penha de França até o coreto no Largo da Graça. Mulheres que se dedicaram o ano inteiro por uma causa e agora, nada mais justo que, se avó veio trabalhar, que agora a avó vá desfilar.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *