A praia mais próxima de Chelas está a quase 15 quilómetros de distância, mas isso não impediu o maior bairro da freguesia de Marvila de driblar a distância e virar sinónimo de títulos nas areias de Portugal. Bicampeão feminino de futebol de praia, a Associação Desportiva Pastéis da Bola tem levado o nome da localidade lisboeta ao cenário internacional, com direito a abrigar no elenco aquela que foi eleita a melhor jogadora do mundo, a brasileira Adriele Rocha.

E as campeãs da AD Pastéis não são o único caso na região.

Apesar de ainda lutar por um lugar ao sol na modalidade, disputando a segunda divisão nacional no masculino, o histórico CF Chelas também tem defendido o nome do bairro no desporto, numa prova de que a estratégia da Junta de Freguesia, de apoiar a modalidade em substituição ao futebol tradicional e de salão, tem sido acertada.

A sede do FC Chelas, onde a equipe masculina local divide os treinamentos com as jogadoras bicampeãs nacionais pelo AD Pastéis. Foto: Líbia Florentino.

AD Pastéis, uma equipa ainda sem a arena desejada… e com uma campeã mundial

A garantia da Junta de Freguesia de uma arena revitalizada e ampliada, com mais condições para receber as partidas das competições oficiais, é recebida com expetativa pela direção da AD Pastéis – que, a partir daí, finalmente vai poder trazer os jogos da equipa para o território.

“Nas duas épocas em que disputamos e vencemos o nacional, jogamos apenas uma partida em Chelas, contra o AD Nazaré, em 2022”, recorda-se Tiago Sobral, vice-presidente e diretor desportivo dos bicampeões portugueses, uma espécie de “faz-tudo” no clube. “Além das funções administrativas, compro a água, sirvo o lanche e conduzo a carrinha”, diverte-se.

Tiago Sobral, diretor da equipe que domina o futebol de praia feminino em Portugal: nome inspirado nos pastéis de Belém. Foto: Líbia Florentino.

Apesar do investimento financeiro da Junta, de outros recursos provenientes de patrocinadores e da loja do clube, o bicampeão nacional mantém uma equipa praticamente de jogadoras amadoras, que cumprem a jornada laboral noutras profissões e reúnem-se em meados de março para começar a preparação para as competições. 

A exceção é a brasileira Adriele Rocha, um dos trunfos da AD Pastéis, eleita a melhor jogadora do mundo de 2022 pela Beach Soccer Worldwide (BSWW), e já presente na shortlist da edição de 2023 do prémio, onde também figurou em 2018, 2019, 2020 e 2021.  

As dificuldades de profissionalização do futebol de praia feminino não são exclusividade dos bicampeões portugueses.

Uma prova disto é que para conseguir manter-se exclusivamente como jogadora profissional, a melhor jogadora do mundo defende o AD Pastéis e mais outras três equipas numa mesma época.

Adriele beija a taça: a melhor jogadora do mundo divide-se entre Chelas, Brasil, Espanha e a Rússia, mesmo em guerra. Foto: AD Pasteis/Divulgação.

Atualmente, Adriele alinha com os brasileiros do Sampaio Corrêa, mas ainda este ano, para além das bicampeãs de Chelas, ainda jogará pelo Higicontrol Milila de Espanha e o BSC Kristall de São Petersburgo, na Rússia – pois o campeonato russo não parou mesmo com a guerra.

Fundado em 2015, a Associação Desportiva Pastéis da Bola nasceu da união dos pais de alunos da escolinha de futebol de campo de Os Belenenses em Alvalade. A filiação sentimental ao histórico clube do Restelo, um bairro famoso também pelos pastéis de Belém, explica a escolha do nome da equipa que começa a ficar tão conhecida como os pastéis que carrega no emblema e tem vivido uma rotina de vitórias igualmente saborosa.

CF Chelas mudou para não estacionar no tempo

Fundado em 1979, a tradicional equipa de futebol do CF Chelas em 2016 trocou o futebol de onze pelo de praia. A decisão foi tomada pelo então presidente à época, Telmo Carrelo – um histórico na gestão da coletividade com uma série de mandatos, o último deles encerrado em dezembro do ano passado. 

Antigo médio da Seleção de Lisboa, com passagens pelo CD Olivais e Moscavide e também pelo CF Chelas, Carlos Carvalho, hoje com 43 anos, coleciona uma longa lista de serviços prestados ao azul-grená da zona. Testemunhou inclusive a guinada da equipa para o futebol de areia. 

Foto: Líbia Florentino.

“A verdade é que, apesar dos esforços da direção, as outras modalidades nunca avançaram. Restou apenas o terreno e o Telmo teve a ideia de mudar para o futebol de praia”, recorda-se Carlos.

Atualmente, quando não está em funções como presidente de mesa nas reuniões de assembleia geral, Carlos é o responsável pelas mesas do movimentado bar da sede do CF Chelas, onde trabalha. Do balcão, por entre mesas, cadeiras e os matraquilhos, Carlos observa o imenso autocarro verde de dois andares pintado na parede.

“Este autocarro era a sede do clube”, explica Carlos, apontando para o mural ilustrado por um dos famosos veículos verdes de dois andares que circulavam por Lisboa na segunda metade do século passado. Até 2006, o CF Chelas funcionava num desses, da linha 39 que ligava Marvila à Baixa, estacionado onde hoje é o atual prédio da sede, construído para substituir o autocarro.

Registo raro da primeira sede do CF Chelas, adaptada num antigo autocarro de dois andares. Foto: Junta de Freguesia de Marvila.

Carlos conta que não se sabe ao certo como e quem estacionou o autocarro de dois andares no local. O certo é que do veículo abandonado no passeio os associados fizeram um espaço de convívio entre os sócios. Com um tempo, um muro foi erguido diante do autocarro com uma porta, para dar a impressão de se estar a entrar em um prédio, o que não era o caso.

Há poucos registos dos tempos em que o CF Chelas funcionou no autocarro de dois andares, um deles uma pequena fotografia publicada na luxuosa edição da Junta de Freguesia sobre Marvila e que ilustra essa matéria.

Sobre a mudança do futebol de onze para o de praia, motivada pelo falta de jogadores para a modalidade, Carlos acredita que tem a ver com uma certa gentrificação do desporto, que levou os pais dos miúdos e miúdas de Chelas a levarem os filhos para treinar nas inúmeras escolinhas espalhadas em Lisboa do Benfica e Sporting. 

“Não cobrávamos nada e dávamos tudo, equipamentos, lanche e transporte, mas os pais ainda assim preferiram levar os filhos para as escolinhas dos grandes”, explica Carlos.

O antigo jogador e atual presidente de mesa e responsável pelas mesas do bar da sede aproveitou a matéria para matar a saudades dos tempos de jogador e posou para as fotografias devidamente paramentado, orgulhoso de vestir a camisola do clube que soube vencer os adversários e trocou a relva pela areia para não ficar como a sua antiga sede, estacionado no tempo. 

Veja fotografias dos bastidores desta reportagem:

Qual o papel da junta nestes clubes?

“Com o mesmo investimento da freguesia, antes destinado ao futebol e ao futsal, conseguimos no futebol de praia uma projeção maior para o nome de Marvila”, diz Ricardo Ribeiro, coordenador de desporto da Junta de Freguesia de Marvila. 

Anualmente, segundo Ricardo, a Junta destina 20 mil euros para o CF Chelas e “um bocadinho mais” ao AD Pastéis – para ajudar as agremiações a cobrirem os gastos com treinos e deslocações.

Satisfeito com o retorno, Ricardo Ribeiro confirma que em 2024 a Junta vai investir na qualificação da arena de areia do CF Chelas, onde a AD Pastéis também treina e leva os seus jogos. A obra prevê melhorias nas barras, balneários, no sistema de iluminação e a construção de bancadas no terreno que já obedece as dimensões oficiais da modalidade (35 metros de comprimento por 26 metros de largura).

Ricardo Ribeiro, da Junta de Freguesia de Marvila, promete remodelação do campo do CF Chelas para receber mais jogos oficiais. Foto: Líbia Florentino.

Além da requalificação do campo do CF Chelas, a Junta quer ainda fazer a reconversão de um campo abandonado na Zona J de Marvila, para que a AD Pastéis finalmente tenha o seu próprio local de treino. 

Por enquanto, a rotina anda tranquila tanto para o CF Chelas quanto para o AD Pastéis. A época começa apenas no verão e os atletas só vão começar a aparecer no início de abril. Até lá, os dias ainda não são para fazer praia.

*Esta reportagem foi feita em colaboração com Airton Cesar Monteiro, de Chelas



Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt

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