Um dia destes, ouvi no rádio uma talentosa fadista cantar a capella um soneto de Camões – Pois Meus Olhos não Cansam de Chorar –, uma das faixas de um álbum integralmente dedicado ao poeta – o que faz todo o sentido, uma vez que em 2024 se celebram os 500 anos do seu nascimento.
Prestei atenção à letra, para ver se Lina (assim se chama a artista) respeitava o texto original; se, pelo contrário, como algumas intérpretes que a precederam, procurara uma alternativa ao verbo “cansar”. Admirados? Eu explico.
Quando há uns anos me convidaram para antologiar os fados oriundos da poesia erudita (os do cancioneiro popular já tinham sido objecto de publicação), eu não fazia a mais pequena ideia da tarefa hercúlea que me esperava: não só porque os textos encontrados ultrapassaram as seis centenas (!), mas sobretudo porque, embora o autor do poema fosse sempre identificado nos discos, muitos dos fados cantados apresentavam diferenças assinaláveis em relação ao texto escrito e isso obrigou a um trabalho louco de cotejo e revisão.
Em primeiro lugar, naqueles livrinhos que acompanhavam os CD, os versos raramente tinham pontuação – e além disso começavam todos por maiúscula, o que, se era provável nos autores clássicos (como Camões, Florbela ou Antero), era muito duvidoso nos contemporâneos (como Vasco Graça Moura ou Manuel Alegre). Mas havia mais.
Os títulos nem sempre correspondiam ao que estava nos livros, o que dificultou a procura dos textos nos índices das obras: o célebre fado de Pedro Homem de Mello que Amália cantou como Fria Claridade, por exemplo, chamava-se originalmente Naufrágio; e a recém-falecida Teresa Silva Carvalho deu o nome de Choram Meus Olhos a um fado cujo poema de António Botto se intitulava Meus Olhos Que por Alguém…
Por outro lado, havia um trabalho de corte e costura inimaginável: facilmente desapareciam estrofes de que o intérprete simplesmente não gostava (Amália canta Rua do Capelão, de Júlio Dantas, sem a estrofe do meio, afirmando que “aquilo do degrau no leito não interessa a ninguém”); ou então o poema era demasiado longo e o intérprete escolhia apenas uma parte para cantar, realizando verdadeiros saltos acrobáticos no texto, o que podia originar, aliás, dois fados completamente diferentes com origem no mesmíssimo poema (Elegias do Amor, de Teixeira de Pascoaes, tem versões que nunca se tocam cantadas por Carlos do Carmo e Camané).
Para os sonetos poderem ser cantados com a métrica e a rima do Fado Tradicional, os fadistas tiveram de transformar tercetos em quadras, cozinhando geralmente os versos em falta com material do próprio poema (e muita arte!), mas uma ou outra vez com palavras não se sabe de quem…
Mais coisas: mudava-se tranquilamente o masculino para feminino, ou vice-versa, conforme o sexo do intérprete; trocava-se a ordem das estrofes quando calhava (arriscando um novo sentido do poema); misturavam-se estâncias de dois poemas distintos num só fado (As Rosas/Promessa, de Sophia de Mello Breyner Andresen, na voz de Kátia Guerreiro, é disso exemplo); fazia-se uma soma de quadras soltas de Pessoa com tal mestria que parecia que tinham estado sempre juntas nos caderninhos do senhor de chapéu, bigode e óculos (Camané, Quadras).
E, por último, alteravam-se sistematicamente palavras do poema que ou não calhavam bem a quem ia cantar o fado, ou talvez resultassem demasiado esquisitas para quem o fosse ouvir: Mariza troca “plainos” por “prados” em Cavaleiro Monge, e no soneto de Camões que refiro logo no início deste texto o verbo “cansar” parece ter cansado alguns fadistas que preferiam a versão “Pois meus olhos não deixam de chorar”.
Desrespeito pelos autores? Batota? Um grande descaramento? Sim, podemos falar de gente muitíssimo atrevida que não se ensaia nada em pôr a mão em obra alheia, cortar, acrescentar, baralhar e reformular; mas também de uma enorme inventividade por parte de quem tem o ouvido bem treinado e sabe o que vai e não vai funcionar.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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Diz a Maria do Rosário Pedreira “fazia-se uma soma de quadras soltas de Pessoa com tal mestria que parecia que tinham estado sempre juntas nos caderninhos do senhor de chapéu, bigode e óculos (Camané, Quadras).”, contudo, muitas vezes aparece a (quase) integralidade das palavras que Camané canta como sendo um poema ora identificado pelas palavras do primeiro verso, ora por “Presságio”, inclusive fazendo o poema parte do reportório de Salvador Sobral com este mesmo título. Queria, portanto, tirar esta dúvida com a cronista.