Teolinda Gersão nasceu em Coimbra, uma cidade que sempre lhe pareceu demasiado pequena. Por isso, quando se mudou para Lisboa, apaixonou-se de imediato. Hoje, é a sua cidade. Uma cidade sobre a qual demorou a escrever, mas a ideia esteve sempre lá a germinar. Foi quando visitou uma exposição de José Barrias na Gulbenkian, que remetia para a viagem de Ulisses, que decidiu: ia escrever um romance sobre Lisboa.
“A Cidade de Ulisses” foi o livro em discussão na sétima sessão do Clube de Leitura de Lisboa, n’A Brasileira do Chiado – uma iniciativa mensal para juntar leitores e autores à volta de obras relacionadas com a cidade.
Um livro que conta não só a história de amor entre Paulo e Cecília, dois artistas que brincam com a ideia de criar uma exposição sobre Lisboa, mas também a história da cidade e do mito de Ulisses que, depois da Guerra de Tróia, fundou Ulisseia. Um mito que sobreviveu à passagem dos séculos, tornando Lisboa numa cidade literária.
É sobre essa cidade que falamos, uma cidade onde ainda restam vestígios da lenda, e onde a história luta para ser conservada, assistindo-se, porém, ao desaparecimento de alguns espaços icónicos que Teolinda e as suas personagens recordam.



Leia ou ouça a conversa com a autora:
Este é um livro bastante interessante porque cruza duas narrativas: uma história de amor e a história da cidade. Fale-me um bocadinho sobre como surge esta ideia de as fundir.
Ora, é uma boa pergunta que a Ana faz. Bom, para já, eu vivo em Lisboa há muitos anos. Nem digo quantos, que é para vocês não caírem para o lado. Nasci em Coimbra, mas Lisboa é a minha cidade, por escolha. Gosto muito de viver aqui. Acho que não é nem demasiado grande, nem demasiado pequena.
É uma cidade cosmopolita com 30 e tal séculos de história, e que também atrai os jovens, onde a vida tem muita coisa interessante, muitos lugares bonitos, muitos lugares românticos. Apeteceu-me escrever uma história de amor passada em Lisboa. E estava no sítio certo, porque também fiz de turista, andei pela cidade a ver as coisas. Foi uma aventura interessante.
Portanto, escrever este livro foi também um bocadinho redescobrir Lisboa… Disse que nasceu em Coimbra, até estudou em Coimbra. E acaba por escolher Lisboa. E eu pergunto, porquê? O que é que a atraiu em Lisboa?
Eu sempre achei Coimbra, tirando a universidade e a vida em volta da universidade, um lugar demasiado pequeno. Onde nada acontecia. Saí de lá com 21 anos, depois ganhei uma bolsa e fui para a Alemanha. Três anos depois, voltei para Portugal, mas não quis voltar para Coimbra. Candidatei-me a assistente na Universidade de Lisboa e, como tinha bom currículo, fui aceite e entrei.
E depois ficou…
Sim, fiquei. Eu queria ficar para sempre. Tenho muita família em Coimbra, gosto muito de ir lá, continua a ser uma cidade com muito boas recordações da minha infância e da juventude. Mas, para viver, sinceramente, não me atraía. Quando lá vivia, havia dois cinemas, e, se uma pessoa não ia a correr ver um filme, no dia seguinte o filme já não estava…
Quando era estudante, fiz parte do TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra) e foi uma experiência muito interessante. Não tenho jeito nenhum para ser atriz, de todo, o meu papel preferido era ser anjo no “Auto da Alma” do Gil Vicente, só tinha que segurar no remo e não tinha que dizer nada. Portanto, o papel ideal. Mas gosto muito de teatro e gostava muito de ver como é que as peças eram encenadas.
Na altura, até houve um incidente engraçado. Abriu o CITAC (Circuito de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra), o grupo rival do TEUC, com o velho professor Quintela, que era assim muito tradicionalista.
O professor Quintela achava que o teatro era uma espécie de continuação das aulas de literatura, era ler os textos no palco e encenar. Entretanto, o CITAC convidou um encenador sul-americano, absolutamente moderno e revolucionário, que encenou “O Grande Teatro do Mundo”, de Calderón de la Barca, de uma maneira que escandalizou a cidade….
É preciso ver que isto se passou nos anos 60. E, enfim, era um ambiente muito, muito fechado e muito provinciano…. Ele encenou o arrepio da intenção de Calderón, que era dar uma lição de moral, porque quem ia para o céu não era o rei, nem era a dama da corte, era o pobre, o mendigo e o pescador. Enfim, eram as pessoas pobres….
E ele encenou aquilo de uma maneira política e socialmente crítica, o que levantou uma grande celeuma: primeiro, porque era no tempo da ditadura, mas depois também porque o Paulo Quintela era o primeiro a achar que um encenador não tinha o direito de encenar uma peça ao arrepio da intenção do autor. Claro que tem. A responsabilidade do autor acaba quando acaba de escrever o texto. Depois, outras pessoas podem, a partir do texto, fazer absolutamente o que quiserem, e são livres. É outra obra que já não é do autor, é do encenador e é de quem pegar nelas.
Já aconteceu que vários textos meus terem sido adaptados a teatro e a cinema, e eu tenho gostado sempre muito do resultado. Mas se eu não gostasse, era indiferente porque o trabalho já não é meu, é de outras pessoas, e é sempre muito gratificante ver que aquilo que nós escrevemos também serve para outras pessoas, e põe outras pessoas também em movimento. A partir dali, surgem outras coisas, é sinal que os textos estão vivos, não é?
Portanto, foi uma experiência engraçada nessa altura e que mostra a mentalidade da cidade, e como eu não queria viver lá. Mas Lisboa sempre me agradou. É uma cidade que tem mar, tem um aeroporto, uma pessoa tem sempre um pé para fugir quando quiser. E adoro viver aqui. Ainda hoje. Esta cidade vai ser até o fim da vida.

Com isto tudo ocorrem-me várias perguntas, mas uma delas é… A Teolinda já tem uma vasta carreira literária, e este é o primeiro livro sobre Lisboa. Por que é que demorou tanto tempo para o escrever?
Já tinha esta ideia há muitos anos, mas claro que não é fácil. Fui lendo muita coisa sobre Lisboa: Damião de Góis, a história do cerco de Lisboa. Andei pela história e também pela literatura que se tinha escrito: Júlio de Castilho, que era um grande olissipógrafo, e o Norberto Araújo. Os passeios sobre Lisboa, que eram uma espécie de visitas guiadas…
Andei a ler muita coisa durante muito tempo, e depois fui eu própria também ver lugares, e encontrei a maneira, que para mim pareceu a maneira certa, de pegar no assunto, isto porque é impossível escrever um romance sobre uma cidade com tanta história, não é?
Por isso, escolhi um enfoque já limitado. Imaginei um par de jovens que andam em Belas-Artes e se apaixonam, e pensam numa brincadeira sem levar a ideia a sério: o que é que fariam se tivessem que fazer ou se quisessem fazer uma exposição sobre Lisboa? O que é que iam escolher?
E eles próprios não levam aquela ideia muito a sério, mas vão dizendo assim coisas para o ar, vão pensando, vão brincando com a ideia. E, no fim, de facto, depois de muitas voltas, a exposição acaba por acontecer. Portanto, é um enfoque já limitativo, o que acho fundamental. Não podemos ter um ponto de vista infinito, se não o romance nunca tem fim.
Estava ainda agora a falar de teatro, e dos vários sentidos que uma dramaturgia podia ter. Na verdade, esse também acaba por ser um dos temas do livro, até porque estamos a falar de dois artistas. E as questões artísticas são muito importantes aqui, a forma de ver a cidade ou de abordar uma obra. Como é que decidiu que as personagens principais seriam artistas?
Houve uma razão muito próxima: eu era muito amiga de vários artistas plásticos que fui conhecendo. Numa nota introdutória, falo de alguns. Entretanto, o que mais me motivou foi ter visto uma exposição que o José Barrias, que entretanto já morreu, fez na Gulbenkian,
em que entravam muitos temas sobre Ulisses.
Na exposição, havia uma carta do José ao pai dele, que era pintor e que tinha morrido com a mesma idade que tinha a filha dele. Era uma carta ao pai, que não tem nada que ver com a carta ao pai do Kafka, que é imensamente famosa.
José Barrias nasceu em Lisboa mas viveu em Milão até o resto da sua vida, e gostava muito da história de Ulisses. Na exposição, apareciam esses vários motivos alusivos a Ulisses, como a jangada que nunca navegará porque não tem fundo. É o regresso impossível a Ítaca que remete para aquele poema muito célebre do Kavafis que diz: “Não interessa chegar, interessa é o caminho” e isso é que é a verdadeira viagem, porque, no fundo, quando queremos voltar a um sítio, sobretudo a um sítio que foi muito amado, onde temos raízes, a infância, nunca voltamos, porque já não é a mesma coisa…
O tempo passa, as coisas mudam. Nós mudamos. Os sítios mudam. Portanto, esse foi o tema em que ele pegou, e o próprio mito do Ulisses. Um mito que foi também evoluindo. A “Odisseia” foi lida, ao longo dos séculos, de maneiras muito diferentes.
Para além disso, o facto de eu ter tido em Coimbra uma professora de História da Cultura Clássica que era extraordinária, a Maria Helena da Rocha Pereira, também contribuiu, porque eu depois li muita coisa, também sobre a “Odisseia”, sobre várias interpretações, e também fora da vulgata homérica.
Há muitas versões da história de Ulisses: há versões em que Ulisses volta, Penélope já está casada com outro homem e Ulisses vai-se embora dececionado. Há outra versão em que ele chega e o filho o mata porque ele o abandonou. Há uma versão em que Penélope não lhe foi fiel e teve 129 pretendentes, dormiu com todos eles, durante os 20 anos em que Ulisses esteve ausente. Portanto, a história também tem muitas versões possíveis, e tem muito que se lhe diga.
É uma história fascinante, no fundo: a história da viagem de Ulisses, que é a viagem através da vida. E é uma viagem de todos nós que, a certa altura, andamos um pouco perdidos no alto mar, que são as dificuldades da vida, e queremos chegar a um porto seguro, queremos pisar terra firme, mas muitas vezes ela não aparece, ou demora a aparecer…
Ulisses perdeu-se no mar. Segundo a “Odisseia“, segundo a tradição homérica, perdeu-se no Mediterrâneo, de onde ele não queria sair, mas saiu, pelo estreito de Gibraltar, entrou no Atlântico sem saber, e fundou Lisboa. E depois também é fácil imaginar. Ou inventar…
É curioso que nós tenhamos aqui, ao pé de Setúbal, ruínas que são romanas, mas que, no século XIX, ainda se pensava que poderiam ser gregas. E havia também essa ideia no ar de que Ulisses, além de ter fundado Lisboa, teria fundado Tróia, o que é impossível, porque para já Ulisses nunca existiu, é uma personagem de uma epopeia, não é?
Esta lenda de Lisboa foi criada pelos gregos, e depois os romanos apropriaram-se dela, porque Lisboa, e o território que é hoje Portugal, foi parte do Império Romano, e Lisboa era uma cidade importante. Essa ideia, de que uma cidade importante tinha sido fundada por uma personagem da“Odisseia” torna Lisboa uma cidade literária, de algum modo. Uma cidade que é também produto da imaginação de muitas gerações.
No castelo de São Jorge, ainda há um sítio que se chama Torre de Ulisses, que dantes era a Torre do Tombo, e havia a Luvaria Ulisses, aqui na rua do Carmo, que hoje já não existe. Havia a Ulisseia Filmes. Há um teatro romano, aqui em Lisboa. Enfim, temos muitos vestígios romanos. Gregos não. Mas os fenícios, os gregos e os cartagineses estiveram aqui, não como conquistadores, mas como comerciantes. Portanto, Lisboa tem raízes muito antigas, e é interessante pensar que, de facto, a lenda nos ligou a Ulisses.
Esta lenda é contada no livro, e até as suas variantes. E a história de Ulisses acaba por ser a história de todos nós, e é a história do Paulo, a personagem principal. Fale-nos um bocadinho deste Paulo, como é que ele surge.
Suponho que, pelo menos as personagens femininas que aqui estão o acharam imensamente machista, porque é verdade. Ele é muito egoísta, muito machista, não queria ter filhos, porque os seus filhos eram as obras de arte, e não tratou bem a mulher com quem vivia, que se zangou com ele, e com muita razão. De qualquer modo, não deixou de ser uma história de amor, embora seja uma história de amor com muitas voltas, e complicada…
Mas ele vai evoluindo, e faz um caminho para a maturidade, porque ele, no princípio, é muito imaturo, mas eu acho que ele vai evoluindo.


E o Ulisses também vai evoluindo, há aqui um paralelismo.
O Ulisses também vai evoluindo. Ele acaba por passar por tantos perigos, pela gruta de Calipso, enfim, teve tantos escolhas no seu caminho, mas acabou por voltar para casa, o regresso acabou por acontecer.
A “Odisseia” é uma história de amor conjugal, também de amor feliz, em que Penélope espera durante 20 anos por Ulisses e reencontram-se, como se o tempo não tivesse passado. É uma história, entre aspas, romântica. Aqui não é bem isso que acontece. Os tempos são outros, mas há de qualquer maneira uma evolução na personagem. No fim, ele parece ter encontrado a capacidade de se apaixonar outra vez. A primeira vez correu mal, por culpa dele, a segunda vez correrá bem.
Se calhar vamos falar de alguns dos lugares que surgem no livro. Por exemplo, a Graça é um bairro muito forte. Porquê?
Eu gosto muito do bairro da Graça. É um bairro que está ligado àquele senhor Agrippino que fez o primeiro cinema sonoro, que hoje é um supermercado, e que criou o bairro Estrela d’Ouro, um bairro operário hoje disputado pela classe média e até pela burguesia.
A Graça é um sítio com história, e essa é uma parte que manteve o lado humano da cidade: com muitas lojinhas, muitos cafés, muitos restaurantes, muitas pequenas zonas ajardinadas, algumas lojas históricas, e está ali perto também de outros bairros típicos, populares.
É uma zona que em tempos era relativamente barata. Portanto, também não era impossível pensar que um jovem casal, de artistas sem dinheiro, procurasse uma casa na Graça.
Estava ainda agora a falar de espaços que foram desaparecendo em Lisboa. Em 2011, o Paulo também desabafa um bocadinho sobre alguns espaços que foram desaparecendo, sobre os turistas que vão surgindo. Fale-me um bocadinho das mudanças que tem sentido em Lisboa.
Eu acho uma grande pena. Estamos num desses espaços icónicos que eu espero que se mantenha, porque vemos tantos, tantos, tantos a desaparecer. Tive imensa pena quando o antigo Paris em Lisboa, que tinha aquele elevador lindíssimo, fechou e hoje é uma Benetton. E tinha uns vitrais! Os vitrais ainda lá estão, mas a loja perdeu o seu caráter.
Aqui perto, também há uma loja, a “Tous”, também com muita história, com o teto pintado, e que era uma joalharia lindíssima e ainda há lá vestígios. A Pastelaria Suíça, por exemplo, que era um café tão bonito, e também com tanta história…
Há muita, muita coisa a desaparecer. E eu tenho muita pena. Acho que estamos sujeitos ao mercado, e o mercado arrasa tudo. Em Portugal, eu não vejo grande interesse em conservar monumentos, nem a história. Não vejo os governos interessados nisso, infelizmente.
Como é que olha para Lisboa hoje em comparação com quando veio para cá?
Bom, é muito diferente. É outra cidade, mas continua a ser Lisboa. Dantes, passeava-se muito bem a pé nas ruas, e hoje o trânsito é muito mais confuso. Enfim, houve coisas que mudaram para melhor, outras para pior, mas todas as épocas são difíceis, e todas as épocas estão em crise.
O que é que era realmente importante preservar em Lisboa?
Eu acho que preservar tudo o que é histórico, porque a história não volta. E aquilo que nós destruímos, estamos a roubá-lo às gerações futuras, que depois já não têm as mesmas recordações e o mesmo conhecimento que nós temos da cidade, e isso acho que é uma grande pena.
Esta relação que tem com a história já vem de trás. Sempre gostou de história? Sempre gostou de pôr um bocadinho de história nos seus livros?
Gosto. Gosto de história. Acho que a história somos nós, não é? Somos nós que a fazemos. E também acho que obviamente a nossa perspetiva da história também vai mudando, e vemos melhor os erros do passado, mas temos pouca capacidade de os corrigir no presente, pensando também no futuro. Pensamos pouco nas gerações que vêm depois de nós. Acho que evoluímos mal nesse sentido. Evoluímos pouco e mal.
Fique atento ao anúncio da próxima sessão do Clube de Leitura


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
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