Há uns anos, éramos amigas. Quando a juventude vai em pleno voo, valoriza-se quem gosta da voz do Fausto à entrada da madrugada. Muita relação foi forjada ao som da lembrança de um céu fechado e outro aberto. Há amigos que ficaram no tempo deles e que me vêm à lembrança como um sonho lindo que nunca chega a poder estar quase acabado. Este parágrafo evidencia uma evidência, tal como esta frase: para mim, Fausto é Lisboa.

Não consigo, por isso, ouvi-lo sem a nostalgia dos primeiros anos, que se prende com a nostalgia da juventude. Amigo que nunca vi, voz que ainda esta manhã ouvi, assim me fiz como ouvinte – e ele como guia espiritual da beleza de Lisboa. O homem nem sabe que passámos por aí muitas noites de mãos dadas – e imagino que a família também não.

Mas não importa, isto não é sobre o Fausto. Isto é sobre aquelas noites em que importava achar beleza. E cai-se no Fausto porque é ele a forma mais pura, mais evidente, mais gratuita, mais fácil de se falar da beleza inteira a abater-se sobre alguém. Imagine-se o que é chegar a Lisboa e ouvi-lo talvez pela primeira vez, já na idade adulta – imagine-se o que é achar alguém cujo coração também trema àquela voz.

Eu e a Tal conhecemo-nos porque tínhamos um amigo em comum que tinha todos os CDs do Fausto. As madrugadas eram irmos por aquele rio acima, a noite caída lá fora, nós na casa de uma ou de outro ou de outra. Nessa altura, ainda tentávamos perceber o que eram os mercados financeiros, como se construía uma cidade, como se usavam as mãos para se forjar o futuro. Arriscávamos aqui e ali, mas parecia que só chegávamos a algum lado com a sensação total de uma canção. Aí, havia a suspensão da dúvida, acalmávamo-nos com a certeza de uma voz bem concluída.

Dali, tirámos mais sonho do que cimento empilhado – mas o sonho também é pedra dura a aguentar-se para o que vem. E é impossível olhar para o passado e para Lisboa sem a promessa de uma vida, sem a ideia de que a dor é um espinho que espeta sozinho, sem a ideia de que a saudade é uma espera, uma aflição.

Ora, na desfaçatez da juventude ficou o que a vida não podia aguentar. É fácil chegar aos 30 com a sobranceria de quem pode olhar para os 20 – é fácil julgar-se que agora é que se sabe, e mais fácil ainda é ter mais calma, e mais difícil é derrapar na beleza de um só verso.

Vivíamos e a vida ia ser assim para sempre, sem sabermos que aquilo tinha de ser sol de pouca dura. Podíamos ler as mesmas coisas, mas não vivíamos a mesma vida. E isso significava que não podíamos ler a vida da mesma forma.

Reparem: o Miguel apresentou-nos e deu-se ali um clique. Ela tinha chegado aos 18 e os pais tinham-lhe oferecido um T2 nas Avenidas Novas e um carro. Lembro-me de chegar a Lisboa e me escandalizar com as rendas (na altura, vivia numa lavandaria por 160 euros por mês). Ela não – tudo parecia pouco dinheiro para quem tinha muito na conta que os pais iam entupindo, muito por via das sei lá quantas casas que tinham arrendadas por Lisboa. Ainda me lembro de quando mudei de casa, de Arroios para a Penha de França:

– E vais conseguir viver com estes azulejos?

Aquilo começou a fazer comichão. Para quem lia tanto Marx, faltava-lhe a concretude material das coisas. Dava ideia de que não ter o último grito das louças enquanto lavava os dentes me ia provocar um AVC, ou quem sabe provocar uma invasão de elefantes a correr até ao terceiro esquerdo, ou mesmo transformar o meu tubo de Colgate em antrax, ou gel de banho em amianto, ou que as paredes iam apertar, apertar, apertar, e a porta se ia trancar e eu não ia conseguir sair dali e ia ser esmagada por um piaçaba furioso, em luta contra a estética balnear dos anos 90.

Durante uns anos, aquilo ia subindo e descendo. Já não havia noites a ouvir Fausto, e a magia de Lisboa já era coisa calma. Um dia, lá lhe disse que ia comprar uma casa no Sítio Tal. Ora, para mim, comprar uma casa era um cume, o fim de anos a matar-me a trabalhar até às tantas, acumulando full-times, part-times e freelances. Meter a chave na porta pela primeira vez na vida ia ter o sabor doce da chegada – e logo nesta cidade, que adora dar luta a quem comete a loucura de meter aqui os pés para sempre. Só queria relaxar, uma noite bem dormida, pensar no lugar onde ia pôr o pinheiro no Natal, começar a imaginar a vida com os filhos, um bibelô inútil, sei lá bem. Ou queria um comentário inócuo. “Ah, fixe, já vais poder ter todos os teus livros contigo.” Em vez disso, ouvi:

– No Sítio Tal? É um bocado longe, não?

Eu já irritada.

– Depende. É rápido se quiser ir ao Jamor.

– Ah, mas para vires para o centro fica um bocado longe.

Note-se, por favor, que do Sítio Tal ao Rossio são literalmente nove minutos de comboio até ao Rossio. Como não sabia disso, respondi:

– Se quiser ir à Damaia, fico mesmo a jeito.

– Mas para Bairro Alto e assim.

Eu nem sequer sou de sair à noite. A calçada portuguesa cheia de urina e cerveja derramada nunca me puxou por aí além, nem gente aos encontrões, nem roupa suada, nem vozes arrastadas, nem arrastar o sono até só haver depressão. Ela até gostava, e um dia conheceu o Luís. O tipo tinha 27 anos e também morava em Lisboa. Estava sóbrio, era giro e tinha graça. Gostava de tocar ukelele. Numa bela noite, piscou-lhe o olho, mas ela não deu corda. Mais tarde, comentou:

– Que horror. O gajo ainda mora com os pais.

Como explicar-lhe que essa era a vida de quem não recebia um apartamento juntamente com a maioridade? Não dava. Não me julguem – eu tentei. Ela disse que, se não tivesse recebido um apartamento, tê-lo-ia comprado. Eu mostrei-lhe as contas – valorize-se este esforço vindo de alguém de letras. Era bolseira da FCT, o que significa que não tinha contrato de trabalho. A bolsa, na altura, era de 980 euros. Fiz mesmo a coisa no Excel, depois de ter feito simulações de créditos. Isto para mim já era um esforço hercúleo só por meter números e contas. Mesmo sem renda, ia demorar para ter a entrada – e ia ter de abdicar de jantar no Miss Japa aos sábados. E, mesmo com entrada, não ia reunir as condições de empréstimo, a menos, claro, que contasse com a mão de um fiador valente – e isso era outra fruta. Não devia caber-lhe na cabeça que, para o mundo em geral, o dia-a-dia não fosse assim tão fácil. Que fosse, por exemplo, preciso fazer contas. Tentei, como quem se agarra a madeira podre num naufrágio, a ver se as noites que tínhamos passado a ouvir Fausto não seriam só passado morto e mais nada, abrir-lhe os olhos para podermos ter caminho. Eu gosto de fazer caminho, de não deixar morrer as coisas, a vida é que as mata às vezes. E não é que eu ache que os amigos têm de ser espelhos uns dos outros, mas convém que saibam o que é que a realidade espelha – que saibam, por exemplo, que ninguém se estende na Almirante Reis porque acha que um bocado de cartão sabe a colchão ortopédico.

Tentei, não consegui. Só recebia um encolher de ombros, um “Oh, depois via-se”, e então desisti sem saber o que viria. Aquilo para mim já tinha de ser ponto de ruptura, porque olhávamos para lados opostos da vida, e porque a empatia não se forja só a ouvir as mesmas notas. Um amigo tem de ser alguém por quem se dá um braço, e não se pode dar um braço por quem não dá o coração.

Não digo que tenha havido um corte a bisturi, que eu tenha tido a radicalidade de um herói. Nada disso. Os anos é que foram passando e levaram cada uma à sua vida, a outra gente. Hoje, teria sido mais difícil, teriam sido menos noites a ouvir álbuns antigos. Com os anos e os fundos imobiliários, Lisboa radicalizou-se, e aquilo era Lisboa antes de ser esta Lisboa.

Claro que agora, chegado o caos, aqueles tempos até parecem coisa branda, coisa fácil – parece que Lisboa, afinal, era uma trégua. Mas, então como agora, a vida era só uma: já então o privilégio definia as cores das coisas, marcava um lugar no mundo – o do lugar em que se vive e o que se aceita como engate para se levar para casa.

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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1 Comment

  1. Olá!
    Gostaria de saber por que a colunista opta por escrever com o antigo Acordo Ortográfico?

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