
O altifalante na estação anuncia estridente o destino do comboio da Linha de Sintra, o sinal de embarque para ensonados estudantes, apressados trabalhadores, alegres turistas e solitários reformados ansiosos pela companhia da paisagem familiar, que em breve passará veloz pela janela da carruagem. A operar desde 1887, a linha de ferro de e para Sintra tem costurado Lisboa a outras paragens, serra acima, serra abaixo, transportando passageiros, aspirações e também sonhos.
Um desses sonhos desembarcou em Algueirão-Mem Martins para virar realidade nas mãos de jovens nascidos e criados na Linha de Sintra, uma geração unida por uma “georreferência” e pelo talento.

“Morar na última estação antes de Sintra é uma referência geográfica, dá-nos uma perspetiva diferente de quem vive num outro sítio. A caminho de Lisboa, quase sempre se vai sentado, o que permite um tempo e um espaço de reflexão sobre a vida”, define o rapper Tristany, 28 anos.
Tristany é um dos fundadores do coletivo artístico Unidigrazz, formado em 2018 também pelo realizador Diogo Gazella e os artistas gráficos Nuno Trigueiros, Sepher AWK e Rappepa BeDju Tempu. Todos nascidos entre 1995 e 1997, a maioria nas salas de parto do Hospital Amadora-Sintra.
O nome do coletivo, formado pela aglutinação do sufixo “uni” de “união” com o termo “degradação”, ou “digrazz”, no calão das ruas em crioulo, resume o desejo de remar contra a sensação de uma certa degradação social de quem vive nos subúrbios de Lisboa. Uma resistência que se contrapõe ainda à ideia de que uma possível mudança passa pela obrigação de se mudar para Lisboa.
Fazer a revolução a partir dos subúrbios – ou dos subúrbios uma revolução
Até porque, para os artistas do coletivo, ser do subúrbio, ou mais especificamente ser de Mem Martins, é uma referência indissociável da arte que produzem.
“Talvez fosse possível fazer algo semelhante ao que fazemos em Mem Martins se tivéssemos vivido numa outra cidade da Linha de Sintra , mas certamente não em Lisboa. Não é que não exista uma arte urbana em Lisboa. Há, sim, mas é uma arte diferente, pois há coisas que acabam por influenciar os trajetos dos artistas, diferentes num ponto A de um ponto B”, reforça Tristany.
Um exemplo simples dessa influência artística de vivência urbana é o título do primeiro álbum do artista, Meia Riba Kalxa (2020) – inspirado na forma como alguns jovens do subúrbio usavam a bainha da calça enfiada por dentro das meias – meia em cima da calça.
Uma das faixas do disco, Acliclas, também vai beber dessa referência estilística captada das ruas, ao citar os modelos contrafeitos vendidos nos mercados urbanos, que para evitar problemas de copyright, traziam bordados a marca “Acliclas” – cujas letras desenhadas demasiadamente próximas umas das outras e lidas à distância confundiam-se com a grife Adidas.
“A escola da nossa referência estética é vivida nas ruas, da realidade das famílias, de pais separados ou que não tiveram a oportunidade de estudar, de sermos filhos da imigração. Ter consciência de pertencer a uma classe é o nosso empoderamento visual”, completa Tristany, que ainda no mesmo disco, de uma outra grife, desta vez automotiva e com outras referências, produziu a música que convoca os jovens a uma Onda Civik – “os que ostentam fios de ouro e andam com um Honda Civic mas continuam a não ter dinheiro”.
Veja imagens dos bastidores desta reportagem:






Dos muros de Mem Martins às galerias de arte
Também de Mem Martins e integrante dos Unidigrazz, o artista gráfico Nuno Trigueiros (Onun Trigueiros, que neste projeto da Mensagem trabalhou como o repórter visual) também acredita que o seu traço também é o somatório das vivências nos arredores da Linha de Sintra.

“As localidades da Linha de Sintra não estão distantes de Lisboa apenas fisicamente, mas também na realidade social”, sintetiza Onun Trigueiros, de 26 anos.
Aluno da Escola Artística António Arroio em Lisboa, Onun Trigueiros completou a sua formação académica nos carris da Linha de Sintra. Uma vivência traduzida nos traços e cores fortes da sua coleção de “Selos” e nas produções visuais do Festival NaSofa, a convite do músico Dino Santiago, e na capa do álbum e direção de arte dos videoclipes de Meia Riba Kalxa, do colega Tristany.
Para ilustrar o “peso de Mem Martins” no trabalho em conjunto dos Unidigrazz, Nuno lembra uma das exposições do coletivo: a Linha Imaginária, que em 2021 ocupou o Museu das Artes de Sintra, o MU.SA – numa ação promovida com a ajuda de um dos parceiros do coletivo, a Fundação Aga Khan.
Como o título sugere, a exposição teve como objetivo recriar o imaginário da Linha de Sintra, usando como telas não as paredes, mas um espaço artístico convencional – e tradicional – um lugar de protagonismo para a “fala” muitas vezes silenciadas do subúrbio, das ruas.


Vozes que em 2022 cruzaram as fronteiras para serem ouvidas no Sul de França, em Marselha, na versão gaulesa do Festival Iminente. No MUCEM, o Museu das Civilizações Europeias e Mediterrânicas, os Unidigrazz levaram a exposição Kintal, traduzida numa sequência de estendais que exibiam pendurado o figurino da Linha de Sintra, de estampas coloridas e camisolas de futebol.
As incursões do coletivo nascido nas ruas em espaços artísticos tradicionais têm ajudado a divulgar o trabalho dos artistas, o que acaba por refletir-se também em mais oportunidades profissionais e na possibilidade de realizar o sonho que une todos.
“Antes de tudo, viver das artes. Ainda não é possível, mas já esteve mais longe de ser realizado”, diz Onun Trigueiros.
O ano de 2023 foi o primeiro em que os Unidigrazz experimentaram alguma autonomia financeira. Todos ainda vivem em casa dos pais ou parentes, mas o dinheiro para uma ida ou outra a Lisboa, para manter o style, tomar um copo, pagar o gasóleo e até dar um passeio fora dos perímetros da Linha veio do talento de cada um.
Um alívio para Nuno, que até há pouco tempo trabalhava como designer numa gráfica de impressão rápida e também chegou a passar horas a cozinhar na companhia do potente forno de uma fábrica de azulejos.
“Quando fui contratado, achei que era para fazer os desenhos dos azulejos, mas estava muito enganado.”
Sair da precariedade e construir riqueza
Nuno não é o único a celebrar. No guião da vida do realizador Diogo Gazella, haverá uma cena dos tempos ainda recentes em que o vemos a amassar pão numa padaria em troca de um salário.

Um capítulo na história de um miúdo que desde cedo teve de colocar a mão na massa para ter as coisas que desejava: na infância, os primeiros brinquedos do miúdo Diogo foram desenhados nas contracapas dos manuais escolares.
“A capas dos manuais escolares eram de cartão, mais rijas que as folhas internas, e assim os bonecos que desenhavam duravam mais tempo”, conta Diogo, hoje com 26 anos, sobre os primeiros contactos com ofício de desenhar, aprendido nos manuais escolares de uma forma menos ortodoxa, para o desespero da avó.
A encenação entre os bonecos de cartão das capas dos manuais foi o início de uma dramaturgia hoje representada no ecrã. É de 2022 a primeira curta do realizador Diogo Gazella, Nha Fijdu, que em cinco minutos filmados em estilo noir, preto e branco, acompanhados por uma narrativa em voz off, usa a Linha de Sintra como cenário para o relato de uma realidade dura e pungente.
Dos integrantes do Unidigrazz, Diogo é o único que cumpriu o rito dos jovens portugueses de migrar. Ainda na infância, viveu quatro anos em França, mas a referência que carrega não é a dos tempos vividos em Nice, mas como se pode ver no seu primeiro trabalho autoral, e sim, da Linha de Sintra.
“Viajar é importante, mas para aprender lá e aplicar aqui”, diz.
Uma aprendizagem particular que em breve vai ganhar uma versão ampla, nos ecrãs da RTP, que encomendou ao jovem realizador de Mem Martins um dos episódios com cerca de 30 minutos para uma série. Diogo faz mistério sobre o plot, mas tem aproveitado o tempo do vai e vem no comboio da Linha para finalizar o guião da produção, que contará com uma música do vizinho Tristany.
“Aos poucos, unidos, temos conseguido sair da precariedade para construir riqueza”, comemora Diogo.
O fruto de um trabalho invisível e poderoso
Além de unir forças e talento para mudar uma realidade social e viabilizar pequenas e importantes conquistas individuais e coletivas, o Unidigrazz tem ajudado os artistas a gerir tarefas mais simples, algumas burocráticas e que costumam fugir aos espíritos mais livres. Entre elas, a criação de um site oficial e a instalação de uma sede, em parceria com Junta de Freguesia de Algueirão-Mem Martins – onde, aliás, a Mensagem montou a redação improvisada e temporária, durante o projeto que nos levou lá.

Um importante parceiro do coletivo neste processo de estruturação é a Fundação Aga Khan Portugal, representando em Mem Martins por um “filho da terra”, Rodrigo Faria, de 26 anos, a mesma faixa etária e background dos Unidigrazz, o que o faz facilmente camuflar-se entre os artistas.
Graduado em Serviço Social pela Universidade Católica e com mestrado em Estudos Urbanos pelo ISCTE, Rodrigo poderia ter escolhido outro lugar de atuação, mas fez questão de, assim como os artistas do coletivo com quem colabora, permanecer no código postal que conhece tão bem – 2725.
“Vivo aqui e conheço a realidade, as desigualdades, sei das dificuldades, da falta de estrutura, das carências. Mas percebi que é possível não repetir os mesmos passos. Eu próprio mudei e tento agora fazer algo para mudar também as pessoas e o sítio onde vivo”, diz Rodrigo.
Para Rodrigo, essa geração, a terceira de avós e pais imigrantes de Angola, Cabo Verde e outros países, pode ser a primeira a ter o controlo do seu destino, sem ser obrigado a cumprir um caminho determinado por contextos socioeconómicos.
“O que eles andam a fazer é fruto de um trabalho invisível, mas poderoso. Pela primeira vez em 50 anos de liberdade, as coisas podem começar a mudar”, diz Rodrigo.
Uma luta que começa na própria freguesia
Os Unidigrazz concordam com a afirmação. Foi graças à união de talentos coletivos que Tristany conseguiu produzir o seu primeiro EP, assim como as sucessivas exposições têm ajudado a revelar o trabalho de Onun Trigueiros.
“Fazíamos muita coisa, mas não tínhamos um produto para vender”, reconhece Diogo Gazella.
A dinâmica que funcionou com o Unidigrazz agora deve ser replicada com outros artistas de Mem Martins: em novembro do ano passado, o coletivo organizou um encontro para conhecer quem e onde se produz cultura nos limites da freguesia.

A reunião, realizada no prédio da Junta que sedia a organização, recebeu uma dezena de artistas. Cada um fixou, num mapa reproduzido na parede, um post it que aponta para o sítio onde artistas gráficos, músicos, bailarinos e talentos de outras vertentes costumam circular ou reproduzir a sua arte. A informação agora vai ser catalogada pela Fundação Aga Khan, num mapeamento artístico da zona.
Rodrigo Faria diz que o potencial é alto, pois até há pouco tempo Algueirão-Mem Martins era a maior freguesia da Europa. “Ainda deve ser a mais jovem do país e isso reflete-se nesse manancial cultural e tem de ser aproveitado”, reforça, repetindo uma espécie de slogan, mencionado nas falas de todos os artistas do coletivo:
“A minha luta começa na minha freguesia.”
Esta reportagem faz parte do Projeto Narrativas. Saiba mais aqui


Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
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