Pintadas na fachada do prédio, quatro figuras olham, de frente, para o Bairro do Vale, no lado esquerdo de quem desce a Avenida Mouzinho de Albuquerque. O bairro foi notícia depois da morte do barbeiro Carlos Pina e de um casal, baleados à porta da barbearia “Granda Pente”.
Passado o sensacionalismo da tragédia, o silêncio voltou às ruas do bairro. E para que esse silêncio não fizesse esquecer, nasceu este mural,”Porta do Vale”, do artista Sepher Awk, ou Bruno Teixeira, do coletivo Unidigrazz – que contou com a ajuda de Nuno Trigueiros (Onun Trigueiros), Senun, Rave e Kiko Vicente. São quatro figuras, com os olhos postos sobre Lisboa, que falam de inclusão e multiculturalidade.
“Acaba por ser a representação do bairro, é uma porta, uma janela, um ‘bem-vindo’ a outras culturas que cá cheguem”, diz Bruno.
Um bairro social no centro da cidade
O convite para pintar o mural foi da Junta de Freguesia da Penha de França, mas Bruno não quis simplesmente pintar sem realmente conhecer o bairro onde a sua obra ficaria gravada: “No meu trabalho, tenho essa ideia de chegar ao lugar antes, de conhecer as pessoas, de comunicar… acho que é importante saber o que as pessoas vivem, o que as pessoas sentem.” E, por isso, inteirou-se também da história do bairro.
Foi no Bairro do Vale que os moradores dos antigos bairros do Alto da Eira, Quinta dos Peixinhos e até da Curraleira foram realojados, ao abrigo do PER (Programa Especial de Realojamento). O bairro, cujas origens remontam ao Estado Novo, nasceu nas traseiras de um prédio onde ainda se anuncia a “Cooperativa Sonho de Abril”. Nasceu sem infra-estruturas, com os seus prédios voltados uns para os outros. E de costas para a cidade.
Foi neste contraste – de um lugar praticamente no centro da cidade, e, no entanto, tão à margem – que Bruno Teixeira mais reparou quando aqui chegou.
“É interessante, é diferente: nesta zona específica, temos um bairro social no centro, e sente-se esse contraste.”

Cláudio Ivan Fernandes, morador do bairro e fotógrafo da Junta de Freguesia da Penha de França, reconhece essa dualidade mas, por outro lado, vê a centralidade do Bairro do Vale como uma vantagem: “É uma zona de passagem, muita gente passa por aqui para cortar caminho entre a Penha de França e o Alto de São João.”
Bruno Teixeira começou a imaginar que desenho poderia ajudar a dar nova vida ao bairro. E procurou inspiração nas suas próprias vivências, em Algueirão Mem-Martins, onde cresceu, e onde se vive também essa multiculturalidade, tão característica da Grande Lisboa. “Sempre convivi com outras culturas. Há preconceitos contra os imigrantes, mas as pessoas esquecem-se que temos uma forte influência de outras culturas: na comida, nos azulejos, na arquitetura, na vivência e no próprio estar.”



Um bairro que se reergue?
“O que aqui aconteceu chamou muito atenção…”, diz Cláudio Ivan Fernandes. “Se, por um lado, aumentou alguns estigmas, a malta do bairro uniu-se mais, principalmente a minha geração. Mas continua a ser uma coisa pesada… quando estás ali naquele sítio, sentes um peso.”
É um sentimento que os moradores partilham: a de que, apesar do que aconteceu, o bairro é a casa deles. E o mural é a afirmação desta comunidade e da sua união.
“Eu não conheci o Pina, mas sempre me falaram bem dele, era uma pessoa influente, uma cara do bairro”, diz Bruno. “Não querendo romantizar, este é um lugar específico, tem a sua maneira de ser, e o mural quer despertar uma reflexão, e contribuir para um melhoramento a nível social.”
Alice Dinis, moradora do bairro há 60 anos, garante: “Nunca o bairro teve uma imagem tão linda!”.

O artista por detrás do mural
Bruno Teixeira sempre quis fazer da arte profissão: “A minha mãe desenha muito bem, e sempre me inspirei muito nela”, conta. Desde pequeno que se interessa pela arte urbana e pelo graffiti. Com 14 anos, começou realmente a fazer arte nas paredes: “Antes disso, já tinha tido experiência de ir a fábricas, roubar latas…”, recorda.
Com os amigos Marco Boto e Nuno Trigueiros, acabaria por formar um coletivo, o “AWAKE”, através do qual criaram murais e vídeos e participaram em eventos culturais, especialmente a nível local. Entretanto, da escola que frequentavam juntos, em Mem Martins, partiram para a Escola António Arroio, bem perto aqui do bairro, na expectativa de crescerem como artistas.
Bruno embateu contra uma nova realidade: “Foi um choque social: havia lá colegas que tinham casas na Expo, mas havia também pessoas de várias periferias.”
O artista não terminou a escola, mas enveredou por outros caminhos: começou a trabalhar em ilustração e animação e juntou-se aos Unidigrazz, um coletivo que tem como grande objetivo descentralizar a arte.
“Para mim, a melhor cultura, a nível artístico, acontece nas periferias, onde és movido pela necessidade.” Ao longo dos anos, expôs no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, no Festival Iminente e no MuCEM (Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo).
Mas o Bairro do Vale foi o seu primeiro prédio. “Eu sempre quis isto”, diz Bruno.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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