O ano de 2024 começou da pior maneira para a família que gere a Discoteca Amália, há 30 anos na Rua do Ouro, na Baixa de Lisboa – no tempo em que as lojas de discos se chamavam discotecas. Anabela Vieira e a mãe, Rosa Amélia Piegudo, encaixotam os discos de vinil, cassetes e CD que ocupavam as prateleiras da loja. Retiram os posters e as molduras da parede. Sai-se de Amália ao ombro. Só ficam as marcas. Em breve, aquele espaço estará despido de toda a vida que armazenou durante mais de três décadas.

É mais uma despedida que acontece na Baixa de Lisboa. A Discoteca Amália fechou portas a 30 de dezembro. Para sempre. O motivo? O mais frequente nos dias que correm: a incapacidade para pagar uma renda muito superior àquela que era exigida até então.

“Nesta altura, uma renda de mil euros já é difícil pagar. Por causa do pouco que se vende. E não é só a renda — é a água, a luz, a Internet, o telefone, o que se paga ao estado. E agora estão a pedir sete, oito, nove ou 10 mil por mês. Mesmo que chegássemos a algum tipo de acordo, seria impróprio”, explica Anabela Vieira, de 61 anos, que ali trabalha desde o início da Discoteca Amália, com a mãe, de 80.

A famosa carrinha verde que todos os dias estaciona na Rua do Carmo — e que tem uma ligação umbilical a esta loja de discos — será o que restará da Discoteca Amália a partir de agora. Irá manter-se no seu local de sempre, contribuindo para a divulgação cultural do fado e para vender a música da loja que agora desapareceu.

A fachada da loja de discos, agora de portas encerradas. Foto: Inês Leote

Uma renda incomportável numa Baixa descaracterizada

Eram os “únicos sobreviventes” daquele edifício da Baixa lisboeta. Há cerca de uma década, uma empresa comprou dois prédios adjacentes para construir um hotel. O Rossio Plaza Hotel, de três estrelas, abriu em outubro de 2021. Aos poucos, os negócios que ali existiam há anos foram fechando. Ou porque o hotel desejava ocupar aqueles espaços, ora porque as rendas que passaram a exigir se tornaram incomportáveis. Na porta ao lado, a Casa Chineza, depois de 157 anos de atividade, também não resistiu e fechou portas em dezembro.

O processo começou há algum tempo.

“Ainda antes da pandemia, enviaram-nos uma carta em que propunham o aumento da renda para quatro ou cinco mil euros. Achámos ridículo. Recorremos à União de Associações do Comércio e Serviços de Lisboa (UACS), porque por lei não nos podiam aumentar assim tanto a renda de repente. Houve um acerto, uma coisa compatível com os anos que cá estávamos e com o que era de lei”, explica Anabela. 

Seria sol de pouca dura.

Dois anos depois, um novos veredito: “Recebemos uma outra carta do senhorio, a dizer que até 22 de janeiro de 2022 tínhamos de deixar o espaço livre. Recorremos a um advogado, que fez uma carta, porque não tínhamos que sair nessa altura, por causa da pandemia. Houve um alargamento até janeiro de 2024. Entretanto, consultámos o advogado para fazer um ponto de situação. Eventualmente poderíamos não sair já, só que não ia adiantar muito, era uma questão de tempo. Íamos só empurrar a situação com a barriga. E não estamos com condições para ir para tribunais nem para arranjar confusões, porque seria apenas uma questão de isto se arrastar.”

Dizem que não há qualquer perspetiva de abrirem a loja noutro sítio. O preço das rendas um pouco por toda a Lisboa é demasiado elevado para que isso seja sequer uma hipótese. “A menos que a câmara, por exemplo, nos arranjasse um espaço. De certa forma, isto é a cultura de um país. Mas penso que não vá acontecer”, diz Anabela, sem esperança. 

Acima de tudo, têm pena pela descaracterização que a Baixa tem vindo a sofrer nos últimos anos, com o boom do turismo, o aumento galopante dos preços e a pressão imobiliária. “Não há um planeamento, é ridículo. Porta sim, porta sim, existe um hotel. A Baixa é cada vez mais hotéis, pastéis de nata e as ditas lojas de artesanato, que de artesanato não têm nada.”

O início da Lisboa sonhada por Manuel Simões

Foi Manuel Simões, natural de Pedrógão Grande, quem fundou a Discoteca Amália. Morreu em 2008. Tio de Rosa Amélia Piegudo e tio-avô de Anabela Vieira, tinha uma vasta experiência ligada à música. Foi no início da década de 50 que criou a Discos Estoril, uma das primeiras editoras de música em Portugal, que gravou e lançou trabalhos de nomes históricos do fado como Alfredo Marceneiro, Berta Cardoso, Tony De Matos, Artur Ribeiro ou Argentina Santos, entre tantos outros.

Abriu a Discoteca da Baixa, na Rua da Prata, no edifício que hoje funciona como o hotel Eurostars; e a Discoteca do Carmo, na Rua do Carmo, que hoje é uma loja da cadeia japonesa Muji.

Em 1957, quando foi inaugurada, a Discoteca do Carmo era uma das muitas que vendiam discos na Rua do Carmo. Também existiam a Universal, a Melodia, a Sassetti, a Custódio Cardoso Pereira ou a Valentim de Carvalho, já na Rua Nova do Almada. Era assim mesmo que se chamava às lojas de vendas de discos: discotecas.

Na do Carmo, tanto se vendia fado como música clássica e até heavy metal. Tornou-se conhecida pelo catálogo de discos importados do estrangeiro. Embora tenha sobrevivido, por pouco, ao incêndio do Chiado de 1988, a Discoteca do Carmo seria encerrada no final dos anos 90. Foi quando se iniciaram as obras do metro de expansão para o Cais do Sodré, que puseram em risco as fundações daqueles prédios antigos. “Constituía perigo para as pessoas e todo o prédio teve de ser evacuado”, recorda Anabela Vieira.

Imagens: arquivo do blog Restos de Colecção

Por essa altura, a Discoteca Amália já tinha sido inaugurada. Aquele espaço tinha funcionado como loja de fotografia, de calças de ganga e, antes disso, tinha sido uma charcutaria. “Cheguei, em pequenina, a vir aqui com o meu tio. Vínhamos comprar queijos e presunto”, recorda Anabela.

A Discoteca Amália abriu logo direcionada para o fado e para a música portuguesa, até porque os discos estrangeiros eram cada vez mais comuns e estavam a banalizar-se, um fenómeno que só se intensificou com a massificação da internet no início dos anos 2000.

Os difíceis últimos anos da Discoteca Amália na Baixa (e a carrinha que se tornou um símbolo do Chiado)

Os primeiros anos desta loja foram um “êxito”, mas, depois da explosão da internet, nunca mais nada foi o mesmo. A procura por discos caiu, os clientes foram desaparecendo. Era uma mudança de paradigma global. E a Baixa também passou a contar com menos trabalhadores e moradores ao longo dos anos.

“Depois houve a crise de 2008 e isso também se sentiu um bocado. Daí para a frente, as coisas foram baixando, mas fomo-nos aguentando. Depois tivemos a pandemia, que foi mesmo o fim. Ainda conseguimos manter isto durante algum tempo, mas já muito por alto, quase só para continuarmos a afirmar a cultura portuguesa.”

Foi por volta de 2000 que a célebre carrinha verde se instalou na Rua do Carmo, precisamente em frente do espaço onde antes funcionara a Discoteca do Carmo, para homenagear “Lisboa, a cidade do fado”. A carrinha passou a ser gerida pela Fundação Manuel Simões, criada em 2001, por ideia do próprio, para divulgar a música nacional com aquele veículo, apoiar gravações e edições de discos. Gonçalo Salgueiro e Manuel Fernandes foram alguns dos músicos apoiados ao longo dos anos.

Tornou-se um símbolo do Chiado. Entrou em filmes, telenovelas, reportagens ou artigos de revista. “É um ex-líbris de Lisboa”, diz Anabela Vieira, sem esconder o orgulho. “Às vezes até digo que nós nem deveríamos pagar à câmara para a ter ali. A câmara se calhar é que nos devia pagar a nós.”

Agora, a ideia passa por escoar através dela o stock de “largas centenas de discos” que sobraram. Ou, quiçá, apostar também na Internet para vender música. “O vinil voltou, se calhar temos de nos vocacionar mais para os LP, para acompanhar a moda. Tenho uma filha com 25 anos que agora resolveu comprar um gira-discos”, diz Anabela.

Aos 61 anos, a única vida que conhece é aquela. Chegou a frequentar o curso de Direito, mas nunca o concluiu. Trabalhou com o tio na Discoteca do Carmo e depois passou para a Amália. Agora, ficou algo desamparada, porque ainda lhe resta algum tempo para a reforma. “Para já, possivelmente irei dar apoio à fundação e vou vendo. Sou muito velha para trabalhar e muito nova para me reformar. Por isso, vou estando, até ver o que vai acontecer ou o que se vai perspetivar. Temos de viver um dia de cada vez.”

Embora admita que este seja um “momento emocionalmente difícil”, graças a todas as memórias que ali criaram, explica que era uma situação que já se arrastava há algum tempo e que já sabiam ser inevitável. “Se ainda tivéssemos aqueles clientes habituais, aquele volume de vendas, se ainda estivéssemos na antiga Baixa… Agora, a Baixa está completamente descaracterizada. Tudo mudou e chegou a nossa vez.”

Manuel Simões, o fundador, na parede, sobre a figura de Amália Rodrigues. Foto: Inês Leote

A gentrificação do comércio

Os responsáveis pela Discoteca Amália não sabem quem lhes vai suceder naquele espaço. “Vão alugar a alguém que pague 8, 10 ou 12 mil euros por mês. Acho que não interessa quem seja, com isso não são esquisitos”, diz Anabela Vieira.

Tem sido uma tendência visível ao longo dos anos. O comércio tradicional da Baixa tem vindo a desaparecer. “Mesmo que as lojas se mantenham, mudam o produto e acabam por excluir a população local. É nesta confluência de vários aspetos que se enquadra a gentrificação comercial, naturalmente associada a uma mudança geral do comércio, do comércio tradicional ou local por um comércio mais fino e orientado para um novo público, mais caro”, disse à Mensagem de Lisboa o investigador Pedro Guimarães, do Centro de Estudos Geográficos (CEG) da Universidade de Lisboa, especialista em gentrificação comercial e políticas de planeamento comercial, aquando de um artigo publicado no ano passado sobre como os novos hotéis na Baixa estão a fazer com que muitas lojas desapareçam.

O especialista explica que “um processo de gentrificação habitacional e comercial implica, no caso comercial, a substituição de determinado tipo de comércio por outro”. E, no caso específico da Baixa, “as atividades associadas ao comércio de bens e serviços destinados a servir determinados objetivos têm vindo a ser substituídas por lojas que servem um público turista e por grandes cadeias e marcas com poder económico”.

Quem poderia fazer algo nestas situações?

“Um processo de gentrificação habitacional e comercial implica, no caso comercial, a substituição de determinado tipo de comércio por outro. No caso da Baixa, as atividades associadas ao comércio de bens e serviços destinados a servir determinados objetivos têm vindo a ser substituídas por lojas que servem um público turista e por grandes cadeias e marcas com poder económico”, aponta a presidente da União de Associações do Comércio e Serviços (UACS) de Lisboa, Carla Salsinha.

“É a câmara quem licencia, a câmara é que pode, em cada apresentação de projeto dizer que [determinado uso] tem de ficar, ter essa sensibilidade de, em cada projeto de hotelaria, dizer que se há um edifício com seis lojas, pelo menos duas ou três têm de ficar”, remata.


Ricardo Farinha

Nasceu em Lisboa e sempre viveu nos arredores da capital, periferias que lhe interessam particularmente. Conta histórias em modo freelance, sobretudo ligadas à área da cultura.


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11 Comments

  1. MENOS LOJAS COM HISTÓRIA, MAIS LOJAS SEM HISTÓRIA, É O COMÉRCIO DA BAIXA, E NÃO SÓ, CADA VEZ MAIS, A … “PASSAR À HISTÓRIA”

    Diria FERNANDO PESSOA:
    “CADA UM COMPREENDE SÓ O QUE SENTE, E ENTRE ALMA E ALMA A ESTUPIDEZ É IMENSA”.
    (in “Comércios! A que Propósito? Conversas (Im)Prováveis com Fernando Pessoa”, 2022, Barreta, J.)

  2. Comprei aí alguns discos.
    Fiz um poema à carrinha verde que publiquei em livro e ilustrei com um poema.
    Sim!…Era a CML que devia pagar. Amargura.

  3. Da-me pena saber dessa triste realidade. Como turista que frequenta Lisboa há 5 anos ou 6 anos, digo que o que menos me interessa são as lojas de Pastel de Nata e as lojas de artesanato. Já são muitas ! Eu gosto é de observar, entrar e comprar nas lojas históricas ou naquelas que vendem autênticos produtos portugueses. Penso que há que se ter um equilíbrio, sem prejuízo para a história e a tradição do comércio da Baixa. Espero que vossa Câmara pense com carinho nesta situação. Abraços.

  4. As pessoas esqueceram quem mexeu nas rendas foi a Dra. Cristas e tudo se transformou na desgraça que está. Era bom lembrar que foi essa ministra que estava com essa pasta. Neste momento não sei por onde anda, sei que desgraçou as pessoas e o País lamento 🖤

  5. Talvez não sei se vou conseguir transmitir para que me faça compreender, mas cá para mim isto recorda- me as saudosas histórias eou fábulas contadas pela nossa avó Maria Prazeres na qual me lembro particularmente da ” Galinha dos ovos de oiro”
    Será que aprendemos ?
    Sinto me triste 😞😓😩😤😡😠😞😓 , não por mim mas pelos que viram a sofrer pelos que ficaram e aos responsáveis será lhes pedido contas e serão pesadas e calcadas e bem medidas pois tudo nem um fio de cabelo será esquecido.
    Adeus Lisboa

  6. Dantes, havia fadas, varinhas de condão e palavras mágicas. Mas acabou tudo. Agora, há estrangeiros, hotéis e pastéis de nata …. E na rua, os turistas somos nós !

  7. Vejo comentários que não entendem que com a evolução da tecnológica, quase ninguém compra CD’s ou discos, pois são um nicho comparado com o grande consumo. É uma loja que teve sempre os seus dias contados…

  8. Que tristeza esta descaracterização das “baixas” de todas as nossas cidades e vilas, de Norte a Sul.
    Que estúpidos fomos em nao preservar as suas atmosferas e as suas traças arquitectónicas e aqui lembro-me concretamente do nosso Algarve e da sua arquitectura mourisca.
    Que tristeza tudo isto.

  9. Isto é uma pouca vergonha, ver lojas históricas a fechar em Lisboa a pastelaria Suíça, a Loja Chinesa e agora a discoteca Amália é esta a triste realidade neste país, está tudo entregue á estrangeirada, turistas e para os que vêm de fora e nós que é nos lixamos. 😡😡🤡

  10. Uma tristeza o modo como a cultura é sufocada por outros interesses! E ninguém se preocupa. Fazem estadios de futebol de milhões, esses, entre outras coisas, para alimentar a parolice nacional. Depois têm um país de atrasados mentais, mas vão dizendo que está tudo a decorrer pelo melhor.
    Esta notícia é para mim muito dolorosa. Pelas proprietárias do estabelecimento, pela cultura e pela memória da grande Amália.

  11. A câmara devia ter vergonha!! Mais uma instituição portuguesa que morreu !
    Daqui a pouco não vai soubrar nada para vender aos turistas como típico português … só lojas índias e napalezas na baixa de Lisboa!! Vergonha mesmo é nada orgulho ao patrimônio . Sou portuguesa , regressei a pouco da imigração, sei que os turistas vem para Portugal por causa das coisas típicas e nostálgicas .. mas quais ??
    Vergonha mesmo neste país só rege a ganância.

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