Joaquim olha atentamente para o pé diante dele, apoiado na placa de ferro fundido com a forma de sola de sapato. Os olhos espremidos, limitados pelo sobrolho grisalho e as rugas, avaliam o calçado, a bota refletida na retina opaca do engraxador, uma retina gasta pelo tempo – como se também carecesse de ser engraxada para recuperar o brilho.
— Este sim — foi o veredito proferido em voz baixa pelo engraxador.
Era a terceira tentativa de sentar no banco de Joaquim. Nas duas anteriores, o sapato que usava foi reprovado, não era de pele mas de camurça ou de algo sintético que não merecia o seu esforço, a sua atenção, não valia a sua cera, a sua pasta, muito menos que fosse tocado pelas cerdas de uma das suas escovas.

Joaquim não engraxa qualquer coisa, não engraxa por engraxar, pelo dinheiro, engraxa porque os sapatos nasceram para ser engraxados. Cumpre o métier como quem cumpre uma sina, um chamamento de uma força maior, e assim tem sido por quatro décadas – as últimas duas delas ali, mesmo, naquela esquina de Alvalade, sentado de costas para o Santo António na rotunda.
Outros vieram, surgiram com o vento, desapareceram varridos por ele e só restou Joaquim.
O último engraxador de Alvalade.
As palas de plástico rente ao tornozelo protegem as meias do contacto com a graxa. Vem depois a primeira escovada no sapato, feita de forma superficial, apenas para espantar vestígios de poeira, terra e lama, os vestígios do mundo.
Segue-se uma leve camada de cera para humedecer o couro, aplicada pelos dedos curtos e grossos do engraxador, as digitais apagadas pelo tempo.
Cada um dos milhares de sapatos cuidados por Joaquim roubou-lhe um pouco das suas impressões digitais, uma fração da sua identidade, e um datiloscopista mais atento encontraria em cada calçado um microscópico indício do engraxador, o ADN de Joaquim baralhado com os dos sapatos, como os pais fazem com os filhos.
Fora os sapatos que engraxou, não teve filhos. Nem tem mulher.
Vive só em casa, na Penha de França, de onde, todo santo dia, o engraxador de 70 anos ruma renitente para Alvalade, recolhe o material de trabalho depositado na garagem de um restaurante ali perto e estende sobre as pedras portuguesas o tapete, que um dia já foi persa e hoje é apenas uma miragem de tapete, dando início ao expediente.
Tem sido assim, chova ou faça sol.
Seu Joaquim não se importa com o clima. Sabe que o sapato resiste à chuva e ao sol, não sente calor nem frio. O engraxador, a última profissão imune às alterações climáticas, ao aquecimento global, ao derretimento das calotas polares, pois o tempo não conta na decisão sobre o tempo, sobre dia e a hora de engraxar os sapatos.
— O sapato vem quando precisa — diz Joaquim, impaciente, talvez decepcionado pelo cliente diante dele desconhecer a verdade tão cristalina, óbvia, a verdade de que a decisão sobre o dia e a hora de ser engraxado não é dono do sapato.
Quem decide o dia e a hora de ser engraxado, sempre, é o sapato.
A pasta mistura-se ao dorso negro da bota. Joaquim empunha as escovas, uma em cada mão, como as pistolas de um duelista, e passa a escovar vigorosamente o sapato, alternando duas escovadas com a direita, duas com a esquerda, a graxa diluindo-se ao couro, o engraxador curvado aos pés, naquele instante, um alquimista.
Escova com a direita, escova com a esquerda.
Tem sido assim desde que trocou o trabalho nos campos em Oriola por Lisboa, há 40 anos. Ainda se aventurou na lida como jardineiro, cavando a terra, aguando as raízes, testemunhando a vida brotar diante dos olhos, até trocar os pés de planta do jardim pelas plantas dos pés dos clientes sentados no banco diante dele.
— São mudanças da vida. O homem que está sempre na mesma água,não navega para lugar nenhum — permite-se dois dedos de filosofia o engraxador, enquanto segue o ritmado escovar, duas escovadas com a direita, duas com a esquerda.
E pela primeira e única vez, sorri.
Sorri um sorriso de dentes escurecidos, esquecidos, pois não se pode escovar tudo na vida, já basta escovar com a direita e com a esquerda os sapatos, milhares deles. E, rapidamente como veio, vai-se o sorriso, carente de pasta, escovas, desfeito como a graxa sobre bota que agora brilha o brilho roubado ao sorriso do engraxador.
A liturgia culmina com a flanela encardida, no remate final. A flanela que desliza de um lado para outro da bota, puxada com forças nas laterais pelos punhos treinados do Joaquim, o atrito do tecido aquecendo as pontas dos pés, o calor da fricção uma espécie de abraço, até que feito mágico surja o esperado lustre.
Um forte suspiro do engraxador é o ponto final do serviço.
Quando não está debruçado sobre os pés dos clientes, numa reverência aos sapatos que lhe puseram o pão na mesa nesses anos todos, Seu Joaquim descansa o corpo fatigado pelo tempo de vida e de ofício sentado no banco do passeio, próximo ao quiosque e à paragem do autocarro, sempre de costas para o Santo António.
Santo António, padroeiro de uma Lisboa que de alguma forma também lhe virou as costas, um santo sem muitas utilidades para um engraxador, um santo de sandálias, os dedos de pedra despudoradamente à mostra, as sandálias um tipo de calçado que não se engraxa, e se é assim, então, vá com os seus milagres para lá.
Se milagreiro fosse, lá do alto do seu andor na rotunda, Santo António faria algo pelo último engraxador de Alvalade de costas viradas para ele. Bastava usar das prerrogativas de santo para travar o rápido passar do tempo, travar a tal da modernidade, essa sim, a modernidade, frisa Joaquim, o inimigo do engraxador.
A modernidade que tirou os sapatos de pele dos pés das pessoas e calçou-as com um colorido par de ténis, os ténis impossíveis de levar graxa como as sandálias do santo, que não resistem ao tempo, que não duram como os sapatos de verdade, os ténis descartáveis como hoje tornaram-se descartáveis os homens.
Descartável como um dia também será o último engraxador de Alvalade.

Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
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Texto emocionante, Álvaro Filho ! Parabéns!
Muito bom seu texto, Álvaro Filho ! Parabéns!