Quando criança, Tiago Leão queria ser futebolista, ganhar a vida com a força e habilidade das suas pernas. Apesar de benfiquista, chegou a frequentar a escolinha de futebol do Sporting, mas a forte marcação materna em relação ao desempenho escolar do filho acabou por ser um adversário difícil de driblar e os constantes maus resultados escolares culminaram num cartão vermelho nas pretensões futebolísticas de Tiago.
“A minha mãe perdeu a paciência e tirou-me da escolinha”, resume Tiago, hoje com 25 anos. É um dos dois jovens do bairro do Rego integrados na parceria entre a Associação Passa Sabi, no bairro do Rego (Avenidas Novas) e a empresa de entregas espanhola Koiki.
Dos relvados, agora Tiago ganha a vida a cruzar as ruas de Lisboa e a habilidade e força das pernas, antes prometidas ao futebol, estão a serviço da bicicleta onde faz até 65 entregas diárias, entre a avenida da República e o bairro do clube do coração, Benfica.
Esta é uma reportagem do projeto Correspondentes de Bairro

Um exemplo de amizade entre iniciativa privada e entidades sociais
É do bairro do Rego que nos chega este exemplo de parceria entre a iniciativa privada e entidades sociais, na simbiose entre a prestação de um serviço e a promoção da inclusão social através da prática profissional. A operar desde 2022, a marca espanhola de entregas Koiki uniu-se à Associação Passa Sabi e fez do Rego o quartel-general das suas operações em solo português, formando e empregando jovens da localidade.
“O objetivo é garantir a inserção dos jovens de comunidades mais sensíveis no mercado de trabalho. Diferente de outras iniciativas, que focam na formação, este projeto parte do ponto em que os jovens já têm conhecimento, formação, mas precisam adquirir experiência profissional”, explica a gestora da Koiki em Lisboa, Ana Salguero.
Natural de Madrid, em Espanha, onde a Koiki está em 60 cidades, sempre a trabalhar com entidades sociais em bairros onde os moradores enfrentam dificuldades em aceder ao mercado de trabalho, Ana Salguero explica que o modelo funciona melhor no país vizinho pois a legislação espanhola é mais proativa em relação a esses tipos de parcerias.
Um detalhe que faz a diferença, mas não impede a repetição da experiência em Lisboa.

“Lá, o governo assume mais da metade do salário dos funcionários, o que é um atrativo para que empresas procurem as entidades sociais para trabalharem em conjunto, numa iniciativa que movimenta a economia e promove uma inserção social numa outra escala. Aqui, ainda não é assim, não há nenhuma participação do governo e é natural que o modelo ocorra de uma forma mais lenta”, completa.
Nesta primeira fase, a Koiki no bairro do Rego é responsável pela “última milha” das encomendas da Dpd entregando produtos num raio de três quilômetros da sede, uma responsabilidade entregue nas mãos – ou nos pés – de dois jovens profissionais que cobrem de bicicleta uma área que vai do Marquês de Pombal a Benfica.
Futebolista, eletricista, estafeta
No Bairro do Rego, a Koiki usou a estrutura e a perícia da Passa Sabi para instalar um mini-hub num espaço onde antes funcionava um ginásio, há um tempo desativado. Ficou a cargo da associação também a escolha dos primeiros jovens a receberem a formação das ferramentas e rotinas profissionais.
“Mais do que uma formação, a iniciativa dota estes jovens de uma experiência profissional, ensina-os a ter responsabilidade, sentido de compromisso e resiliência, qualidades que serão úteis em qualquer atividade profissional”, acredita Ana Salgueiro.
Tem sido assim com o Tiago.

O emprego na Koiki é o primeiro a termo de Tiago, que após o liceu fez uma formação em eletricista profissional e chegou a trabalhar de forma autónoma. Mas apesar de estar continuamente ligado à corrente elétrica, a carreira como eletricista manteve-se em baixa tensão. “A verdade é que não era lá um eletricista tão bom assim”, confessa.
Após o curto-circuito nas carreiras de futebolista e eletricista, Tiago encontrou na profissão de estafeta uma estabilidade. Há um ano na Koiki, entrou na empresa após ver o amigo Rafael de um lado para outro montado numa bicicleta.
Foi aí que uma lâmpada acendeu na cabeça do antigo eletricista, iluminando a ideia de tentar a sorte num novo ramo.
O amigo em questão, Rafael Moreno, também morador do bairro do Rego, lembra-se do dia em que Tiago o procurou. “Veio perguntar o que eu achava do trabalho e, após uma conversa, pediu para ver como funcionava. Naquele dia, usou a segunda bicicleta para me acompanhar nas entregas e, no final do turno, estava decidido a tentar”, recorda-se Rafael.
Aos 23 anos, assim como o amigo e agora colega de trabalho Tiago, Rafael também sonhou em ser futebolista. “Todo miúdo português quer ser jogador de futebol”, explica enquanto enfileira as embalagens que terá de entregar durante o dia, separadas pelos trajetos cobertos por ele, nas redondezas do bairro do Rego até o Marquês de Pombal.

Rafael também fez uma formação profissional após o liceu, nas áreas de restauração e ajudante de cozinha, mas não teve sorte em figurar na ementa de algum estabelecimento. Como alternativa, colaborava com alguns trabalhos na associação Passa Sabi quando a Koiki surgiu, tornando-se o primeiro empregado da parceria.
Entregas aumentam, possibilidades de futuro também
Agora, os antigos colegas da “44”, como carinhosamente chamam a escola do bairro, a Mestre Arnaldo Louro de Almeida, voltam a repetir os dias de infância em que subiam e desciam as ruas do Rego nas suas bicicletas. “A diferença é que naquela época não tinha motor elétrico, tinha que fazer força no pedal, mesmo”, ressalva Tiago, enquanto enche o baú da bicicleta com as vinte embalagens da primeira entrega do dia.
Um volume que tende a aumentar, assim como os colegas de trabalho.
“Entretanto, agora que o projeto provou regularidade e solidez, começamos a tratar uma possível parceria com os CTT e também com a DHL para aumentar o volume de entregas, o que certamente vai traduzir-se em mais jovens envolvidos na experiência”, afirma Ana Salguero.

Os dois amigos não fazem planos a médio prazo sobre onde pretendiam estar a trabalhar daqui a cinco anos. “Não penso muito nisso”, diz Rafael, mais preocupado em consultar a aplicação com a lista de pedidos para o dia. “Quando era criança, a minha mãe costumava perguntar-me a mesma coisa, mas isso foi lá atrás, hoje penso no presente”, comenta Tiago.
Em relação a um horizonte por mirar, Tiago volta novamente à infância, quando acompanhava a mãe, funcionária da EGEAC, ao trabalho dela, no Castelo de São Jorge, e das muralhas via Lisboa à sua frente, o menino ainda sem preocupações sobre o futuro. “Via Lisboa, mas nunca consegui ver o bairro onde morava, o Rego.”
Um bairro que ainda segue pouco olhado pela própria cidade onde está, mas que aos poucos mostra que através de iniciativas simples é possível contribuir com práticas importantes para a economia local e na inserção social dos jovens profissionais.

*Inês de Sousa tem 19 anos, nasceu e cresceu no Bairro do Rego, na freguesia das Avenidas Novas, em Lisboa. É uma das Correspondentes de Bairro da Mensagem. Sempre acompanhou a Associação Passa Sabi, onde nos últimos anos ganhou mais responsabilidade. As paixões que tem hoje foram descobertas aqui, no bairro e na Associação, graças ao trabalho diário e às oportunidades que lhe me proporcionam. Por isso, diz ser uma pessoa feliz.

Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
✉ alvaro@amensagem.pt

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