Pense agora num alimento de que gosta muito – natalício ou não. Imagine como é esse alimento é constituído. Será ele a conjugação de vários ingredientes ou composto apenas por um? Que caminho fará esse ingrediente único ou produto da conjugação de vários, desde o local onde é produzido até onde entrar na nossa alimentação? Será ele produto de modos de produção intensiva ou obtido de forma mais sustentável?
Aquilo que nem sempre nos lembramos de perguntar é se estas diferenças determinam um maior ou menor impacto ambiental associado aos alimentos que incluímos na nossa alimentação. E este será diferente entre tipos de alimentos distintos, mas pode variar também se alimentos iguais tiverem proveniências diferentes.
No total global, o sistema alimentar é responsável por cerca de 26% das emissões de gases com efeito de estufa de origem antropogénica (Poore & Nemecek, 2018) – quando entendido como o conjunto de todas as atividades e interações entre agentes envolvidos nas várias etapas desde a produção dos alimentos até ao seu consumo (passando pelo processamento, transporte, armazenamento ou preparação).
Por isso, as nossas escolhas alimentares importam, não só para nos mantermos saudáveis, através de uma dieta completa, equilibrada e variedade, mas também para reduzirmos o impacto ambiental associado à nossa alimentação.

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Como podemos ter uma pegada menor?
Como consumidores, podemos optar por consumir produtos com menor impacto ambiental. No entanto, numa perspectiva mais macro, existem também algumas iniciativas que pretendem transformar o sistema alimentar das cidades (tomemos como exemplo as que compõem a Área Metropolitana de Lisboa), permitindo um maior acesso dos cidadãos a alimentos saudáveis e sustentáveis.
Intuitivamente, podemos admitir que um alimento que viaja uma menor distância desde o momento em que é produzido até ao momento em que é consumido terá um menor impacto ambiental. Não é difícil apontar a razão para pensarmos desse modo: lembramo-nos dos combustíveis fósseis usados nos transportes, associados às emissões de gases com efeito de estufa e concluimos a dimensão do impacto ambiental dos transportes de alimentos. Maior distância percorrida, mais emissões derivadas do transporte, maior impacto ambiental.
Por exemplo, uma amêndoa que nos chega a Lisboa desde Trás-os-Montes percorreu, sem dúvida, uma distância muito menor do que alguma que nos chegue da Califórnia. Decorre daí a vantagem de preferirmos o consumo de alimentos produzidos localmente, com vantagens também para a economia a um nível mais próximo.
A distância terá a sua quota parte no impacto ambiental do alimento, porém, o efeito dos gases com efeito de estufa emitidos durante o transporte não é a única variável a ser considerada neste cálculo: há outros fatores a considerar como, por exemplo, o uso de energia envolvida no armazenamento, ou se for o caso de um alimento que envolva algum tipo de processamento.

Não esquecendo a necessidade de ingerirmos fruta diariamente como parte de uma dieta equilibrada, consideremos agora uma maçã e a energia envolvida no seu armazenamento. Se a colheita dessa maçã ocorrer em Agosto ou Setembro e se for consumida apenas em Maio, muito provavelmente terá sido refrigerada, no entretanto, a temperaturas próximas de 0ºC.
Este é um preço a pagar para podermos ter maior vida útil de alguns alimentos e evitar a sua perda sem que sejam consumidos, o que teria também um impacto ambiental significativo. Por isso, à preferência por alimentos locais, podemos acrescentar a preferência pelo consumo de alimentos da época como forma de reduzir o impacto ambiental associado aos alimentos que consumimos.
Já para alguns produtos alimentares, o impacto ambiental associado a todo o processo desde que é produzido até ser consumido pode ser, ainda assim, menor do que outros fatores relacionados com a produção. Esse processo pode implicar o uso de uma maior ou menor extensão de solo, assim como um maior ou menor impacto na alteração dos ecossistemas, e perda de biodiversidade, ou no consumo de água potável.
Dado que o nível de recursos naturais usado na produção de diferentes tipos de alimentos pode diferir significativamente, é neste ponto em específico que as nossas escolhas alimentares podem determinar em maior ou menor escala o impacto ambiental da nossa alimentação.
Por exemplo, a extensão de solo ou consumo de água potável necessários à produção de um quilo de carne de bovino é significativamente maior do que aqueles que são necessários para produzir um quilo de leguminosas, um possível substituto vegetal (Poore & Nemecek, 2018).
Dados da Balança Alimentar Portuguesa de 2021, que permite medir o consumo de alimentos através da quantidade disponível para tal, mostraram que os portugueses dispõem diariamente de uma quantidade de carne três vezes superior ao recomendado para a população portuguesa (Instituto Nacional de Estatística, 2021). Se tivermos este aspecto em conta, há, portanto, algum potencial de redução do impacto ambiental da nossa alimentação através das escolhas que fazemos.
Os projetos que trabalham a sustentabilidade através daquilo que comemos
Contudo, a escolha de alimentos mais saudáveis e sustentáveis nem sempre é a escolha possível, mais fácil ou intuitiva, quer seja pela dificuldade em ter acesso aos mesmos, pela capacidade ou incapacidade de os adquirir ou pela conveniência ou vantagens que outros alimentos oferecem.
Este facto deriva não só da oferta e promoção de uma grande variedade de alimentos ultra processados, que assumem uma quota importante no padrão alimentar mais comum nos países ocidentais, mas também da forma como o sistema alimentar está organizado.
Como consequência, também os produtores locais são impactados, pois operam num mercado em que a valorização dos seus produtos é mais difícil, obtendo menos proveitos pelo seu trabalho.
O ambiente também sai prejudicado, com prejuízos claros ao nível do uso de recursos naturais e da alteração dos ecossistemas e perda de biodiversidade. Para tentar solucionar esse problema, há dois projetos a decorrer na Área Metropolitana de Lisboa, o FoodLink e o FoodCLIC – ambos em fase de cocriação.

O FoodLink pretende agir, por um lado, como uma rede de atores públicos, privados, individuais e coletivos, governamentais e não governamentais, responsáveis por cocriar e promover a transição alimentar na Área Metropolitana de Lisboa.
Na prática, este rede de agentes de mudança, já estabelecida, prevê criar mecanismos que permitam, em 2030, assegurar localmente “cerca de 15% do aprovisionamento alimentar da área metropolitana” através de modos de produção sustentáveis, soluções inovadoras e redes de distribuição de proximidade e de baixo impacto ambiental.
Já o FoodCLIC é um projeto europeu que decorre em oito cidades-região da Europa, entre as quais a Área Metropolitana de Lisboa, integrando representantes de instituições de investigação, bem como dos municípios envolvidos. A iniciativa pretende atuar ao nível do ambiente alimentar urbano, de forma a potenciar o acesso a alimentos saudáveis e sustentáveis para todos, e em especial entre grupos desfavorecidos.
Para isso, assentará na criação de interfaces entre ciência, política e prática para desenvolver políticas alimentares integradas e baseadas em evidência científica.
Neste momento, está a decorrer um processo que envolve um conjunto de atores dos órgãos governativos, sociedade civil, setor empresarial e academia – responsáveis por cocriar uma estratégia de transformação do sistema alimentar metropolitano e de desenhar algumas intervenções a implementar na região.
A ideia é serem testadas soluções (que daí resultarem) para potenciar o acesso a alimentos saudáveis e sustentáveis para todos. O município de Cascais verá implementadas, depois da primavera de 2024, as primeiras intervenções com o intuito de se testarem soluções para potenciar o acesso a alimentos saudáveis e sustentáveis para todos. Depois dessa implementação, decorrerá um processo de avaliação e monitorização do seu efeito que permitirá antever o potencial de aplicação a outros níveis ou em outros locais.
Estes, mas também outros projetos, nacionais e internacionais, estão a contribuir para a transformação do sistema alimentar e para a redução do impacto ambiental associado ao que comemos, ainda que a um ritmo e extensão limitados.
Mas, ao nível individual, podemos também contribuir com escolhas mais inteligentes, saudáveis e sustentáveis. De uma forma ou de outra, o tempo urge. A mudança, essa, apesar de tardar, terá tanto mais sucesso quão forte e duradoura for a cooperação entre todos os agentes envolvidos, mantendo o foco no bem-estar, presente e futuro, da população, bem como do planeta.
Fontes:
FoodCLIC. (2023). FoodCLIC EU project | Home. https://foodclic.eu/
FoodLink. (2022). FoodLink – Rede para a Transição Alimentar na Área Metropolitana de Lisboa. Enquadramento Estratégico.
Instituto Nacional de Estatística (INE). (2021). Balança Alimentar Portuguesa:2020. In Quinquenal. https://www.ine.pt/xurl/pub/437140067
Poore, J., & Nemecek, T. (2018). Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, 360(6392), 987–992. https://doi.org/10.1126/SCIENCE.AAQ0216/SUPPL_FILE/AAQ0216_DATAS2.XLS
*Rodrigo Feteira-Santos | Investigador do EnviHeB Lab do Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Nutricionista. Estudante de Doutoramento em Ciências da Sustentabilidade

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