Como acontece até mesmo com os melhores filmes, o fim acaba sempre por chegar. Após abrir as portas em 2019, o Cineclube Alvalade marca a sua última sessão nesta quinta-feira, 30 de novembro. Um the end na forma de uma “pausa por tempo indefinido” motivada pelo suspeito de costume na área cultural: uma certa falta de apoio.
Uma certa falta de apoio, pois o Cineclube Alvalade contava com o suporte da Câmara de Lisboa, da Junta de Freguesia de Alvalade e do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). Mesmo assim, os valores não eram suficientes para se contratar um profissional para o cineclube e muito menos para concretizar o objetivo de ter uma sala própria.
As dificuldades e a falta de um horizonte para realizar um final feliz para o projeto levou ao fim do sonho dos nove cinéfilos por trás do cineclube de fazer do cinema ao mesmo tempo um entretenimento e uma atividade cívica.
Um triste capítulo para a tradição do cineclubismo em Lisboa – o futuro das salas de cinema do Monumental continua incerto e o Cinema King, em Alvalade, está à venda.

“A pausa tem a sua importância para uma reflexão”, argumenta Bruno Castro, um dos nove amigos cinéfilos à frente do cineclube, de idade entre 22 e 45 anos, que se revezavam nas tarefas de programação dos filmes, administração da sala e projeção.
“Pensamos no cineclube não como uma atividade para nós, mas para os outros, de proximidade com a comunidade e contributo para a sociedade. Por onde passávamos, tentávamos criar esse ambiente, mas encontrávamos dificuldades por estar sempre a dividir o espaço, o que gerava alguma confusão nas pessoas sobre quem estava à frente do projeto”, completa Bruno.
Ainda segundo Bruno, a perspetiva de não cumprir com o objetivo inicial, aliada aos compromissos que roubavam o tempo dos nove integrantes em poderem dedicar-se ao projeto, acabaram por colocar o cineclube numa espécie de zona morta, sem horizontes.
A pausa, então, anunciada por tempo indeterminado, serve também para que os envolvidos reflitam sobre o futuro da iniciativa.
Solução passava por uma sede própria
Nos quatro anos de atividade, o Cineclube Alvalade ocupou inicialmente em 2019 o teatro do Centro Cívico Edmundo Pedro, a antiga sede da Junta de Freguesia de Alvalade. Em seguida, com as reformas no prédio, seguiu no início de 2022 para a sala Fernando Lopes, na Universidade Lusófona.
No último mês, já como sintoma de um fim que se anunciava, deixava Alvalade para as exibições das sessões semanais no cinema Ideal, no Chiado.



“A solução seria o cineclube ter um espaço próprio, onde pudesse exibir os filmes e também desenvolver as atividades paralelas, como os debates e os projetos com os adolescentes, angariando um público próprio, Mas, com a atual situação imobiliária em Lisboa, isso é praticamente impossível”, diz Bruno

Como os apoios da CML, da Junta de Alvalade e do ICA só eram suficientes para cobrir os direitos de aquisição dos filmes para a exibição, a difícil decisão de desligar o projetor foi a única alternativa no guião do cineclube.
A última exibição será a do filme Retratos Fantasmas, do cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, o candidato do Brasil ao Óscar de filme estrangeiro deste ano – coincidência ou não, uma história sobre os cinemas de rua que fecharam as portas na cidade do Recife, terra natal do realizador.
Mesmo com o fim anunciado, o Cineclube Alvalade anuncia algumas sequelas: como encerrar em janeiro as atividades com os adolescentes que preparam duas exibições e a edição de um livro, não apenas para contar a trajetória do cineclube, mas para fazer refletir sobre a narrativa de enfrentamento eterno de quem decide fazer cultura em Lisboa.
Um filme cujos personagens mudam, mas cujo final parece estar sempre destinado a ser o mesmo.

Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
✉ alvaro@amensagem.pt

Triste como a noite🥴.
E a malta até só pede 1% para a Cultura! Uma gota de água comparada com os milhões investidos na incultura e na imbecialização!