Recentemente, tive a sorte de poder assistir na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa a um concerto único (único porque não se repetirá, e único porque foi excepcional), em que o piano de Júlio Resende “namorou a voz” de António Zambujo em canções brasileiras nada óbvias.

Como António Zambujo aparece com frequência em programas de televisão em horário nobre e tem seguramente um público mais numeroso do que o seu jazzístico companheiro, poderia pensar-se que era ele a vedeta do espectáculo; mas, como fora Júlio Resende o artista desafiado pela Universidade a gizar o concerto (e Zambujo o artista convidado para se lhe juntar), o cantor portou-se de uma forma incrivelmente discreta, respeitando o protagonismo do músico, pondo-se sempre em segundo plano e saindo até do recinto sem ninguém dar por isso, deixando ao pianista a tarefa de autografar o último CD, que era, de resto, o único à venda.

O público que esperava Zambujo no foyer pode ter ficado desapontado, mas eu achei a sua atitude memorável, pois não é qualquer estrela que cede o lugar com facilidade.

Há, aliás, muita gente sem qualidades que ambiciona ser vedeta, porque essa é uma outra forma de se ser amado em larga escala; mas ser vedeta dá uma loucura de trabalho e implica enormes sacrifícios: em primeiro lugar, retira privacidade à vida; depois, à medida que o sucesso cresce, o ódio e a inveja de muitos concorrentes e adversários aumentam e os admiradores podem tornar-se chatíssimos e até doentios.

Amália Rodrigues foi, sem dúvida, uma vedeta que atraiu multidões; já em criança, quando cantava na casa dos avós com as janelas abertas, parece que se encostava um ror de gente à parede do prédio só para a ouvir.

A sua popularidade crescente obrigou-a muitas vezes a recolher-se para não lhe cair em cima uma verdadeira chusma de fãs: uma vez, o carro em que seguia foi cercado de tal modo por admiradores emocionados que foi difícil ao motorista avançar e, quando pararam no destino, o automóvel estava cheio de riscos e amolgadelas.

Também se conta na biografia da fadista, escrita por Vítor Pavão dos Santos a partir de uma conversa entre ambos, que, quando Amália cantava no Teatro de Revista, no Parque Mayer, um dia se sentiu indisposta e resolveu não ir, mas não avisou ninguém; e, apesar de serem muitos os números a que os espectadores podiam assistir, quando o público percebeu que a diva do seu coração não compareceria naquela noite, pateou, gritou e começou a partir cadeiras, chegando a ser preciso chamar a Polícia.

Mas talvez a mais sintomática história do vedetismo de Amália é a que implica, ainda que de forma indirecta, a sua irmã Celeste Rodrigues.

Já Amália deixara há que tempos as casas de fado – enchendo salas de concerto no mundo inteiro, cantando em filmes e gravando com grandes músicos –, no regresso de uma longa tournée sentiu vontade de cantar para um grupo mais restrito de pessoas e resolveu então aparecer no estabelecimento onde a irmã trabalhava.

Foi, para quem lá estava, um brinde completamente inesperado, e o entusiasmo dos fãs acendeu-se a tal ponto que os aplausos se multiplicaram com estridência, e os pedidos deste ou daquele fado foram tantos que se tornou difícil à grande artista não só abandonar o “palco” para a próxima fadista, mas também a própria casa de fados, onde dono e ouvintes não a queriam deixar partir de maneira nenhuma.

No dia seguinte, porém, a mana Celeste teve de pedir a Amália que, por favor, não voltasse ao seu local de trabalho: ela, claro, adorara ouvi-la e ficara orgulhosíssima de ser sua irmã, mas as outras fadistas estavam demasiado azedas com o ciúme e era em cima dela que decerto iria cair a frustração… 

Violência e paixão: duas faces de uma mesma moeda. 


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.


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