Estamos no alto da Penha de França. Reza o mito que daqui se partiu um monte em sete, esculpindo-se as colinas de Lisboa com a força do corpo irado de Ophiussa – a mulher metade serpente que dominava Lisboa antes de o ser e que dava nome àquela “terra de serpentes” onde “os povos adoravam a serpente”. A rainha tivera enfurecido com a partida de Ulisses. Mas sobre este herói da mitologia grega já ouvimos e lemos quase tudo. Agora, é através do olhar desta personagem feminina, tantas vezes posto para segundo plano na história da cidade, que partimos para o novo romance de Samuel F. Pimenta: “Ophiussa“. 

Conta-se, nos livros e nas ruas de Lisboa, que Ulisses ludibriou a “pérfida Ophiussa”, ao fazer-lhe promessas de futuro próspero, mas depois “escapando-lhe, pois ela era uma mulher metade humana, metade serpente, que engolia os marinheiros depois de os atrair para o leito”. E que, nesta história, está então a origem da ira da Rainha e, depois, do mito da fundação de Lisboa.

Mas a pergunta que reescreve o mito e torna-se livro é simples: “terá sido assim”? 

Este é um romance mitológico em que Samuel F. Pimenta convoca justiça para a história desta personagem de Lisboa e de todos os que já viviam em Lisboa antes de Ulisses chegar.

Samuel F. Pimenta lançou a obra “Ophiussa”, editada pela Mahatma Edições. Foto: Rita Ansone

Uma versão menos patriarcal do mito

Afinal, há várias coisas a esclarecer nesta história: antes de Ulisses chegar a Lisboa, já havia gente e, segundo Samuel, esta rainha “é simbólica e mitologicamente a verdadeira matriarca de Lisboa”.

Mas foi num período de transição, e para uma “religiosidade patriarcal, que o divino passou a ser privilégio dos homens, e a serpente tornou-se maléfica”. A História, para o autor, tende precisamente a engrandecer os heróis, homens, que venceram, esquecendo-se de que quem venceu também “matou, violou e oprimiu”. Assim são as narrativas, como a da “História de Portugal que cria a ideia do império bom ou da colonização boa, quando não foi isso que aconteceu”, diz o autor.

São as vozes que a História calou que lhe importam fazer escutar. Por isso, torna-as protagonistas nos seus contos, poemas e romances.

“Eu quero retirar essas histórias dos escombros, quero escutar-lhes a voz, quero vê-las, por mais duras que sejam.”

O autor questiona a versão patriarcal do mito. Foto: Rita Ansone

Contar o mito pelos olhos desta mulher é contar a outra versão, uma não patriarcal. Pode até dizer-se que é uma abordagem eco-feminista do mito, “pois evidencia a relação direta que existe entre os direitos das mulheres e a preservação do território”. 

A sociedade que narra não responde a uma lógica binária, tendo uma vivência fluída do género e da sexualidade. Fê-lo como “um exercício de imaginação, seguindo a liberdade criativa de estar a recontar um mito, mas também por saber que modelos similares existiram naquele período e até antes”. 

Pela urgência do nosso tempo, por mais distante que esteja o que narra, não poderia ser mais necessário torná-lo atual. Aliás, este livro é uma reflexão sobre a atualidade e para o que se perdeu, “pois abre uma janela para os primórdios do patriarcado e culto dos impérios”.

“Em plena urgência climática, em que o sistema capitalista e patriarcal está mais do que obsoleto, é fundamental relembrar um tempo em que não existia patriarcado nem uma cultura extrativista.” “Temos de descobrir quem éramos antes das chegadas dos impérios ao nosso território.” Nesse tempo ido, “a Humanidade sabia como prosperar ao lado de todas as outras espécies da Terra”. 

Relembrar é, portanto, “recuperar referências que nos podem guiar na forma como nos organizamos para garantir a continuidade da vida no planeta, pois é isso que está em causa com as alterações climáticas”. 

“Os mitos têm esse poder simbólico, fundacional e orientador. Por isso é tão importante mantê-los vivos. A par dos lugares, são das heranças mais antigas da língua que falamos, da nossa cultura. E as culturas, as sociedades, precisam de saber de onde vêm para poderem saber para onde vão”. remata. 

Escrever Ophiussa, que nos chega às mãos pela Mahatma Edições, foi um processo solitário, apenas com a companhia da música.

Apesar de ser um romance mitológico, há uma base histórica de fundo para escrever este livro. Releu textos antigos, como a Odisseia e Ora Marítima e fez incursões pelo terreno, “das idas à Penha de França, à Boca do Inferno em Cascais, ou ao corredor subterrâneo que liga a estação dos Restauradores à estação do Rossio, onde se encontra um belíssimo painel de Lima de Freitas que a retrata a chegada de Ulisses a este território e ao seu encontro com Ophiussa”. 

Samuel F. Pimenta propôs-se a levantar “os véus do tempo que cobrem a cidade”. Mas escrever um livro pode ser também como entrar “numa sala de espelhos”. É nesta sala, onde impera o gosto por mitologia, arqueologia e esoterismo, que se poderá entrar ao longo das páginas.

Outras obras do autor, Samuel F. Pimenta. Foto: Rita Ansone

A relação com Lisboa 

“A Lisboa.” Nada mais. Assim dedica o livro, pois é o reconhecimento pelo que a cidade lhe tem dado, desde 2008, ano em que se mudou de Alcanhões, Santarém, para cá. 

“Fios entrelaçados com as ruas da cidade” é o que chama à sua memória. Aqui se tornou adulto, começou a trabalhar, organizou encontros literários, construiu amizades e se pôde expressar livremente como homossexual, tendo-se apaixonado pela primeira vez. 

Já viveu pelos sete cantos da cidade, do Alto de São João à Lapa e, como muitos outros portugueses, já teve de sair até conseguir regressar – a pressão exercida no tecido imobiliário lisboeta enviou-o temporariamente para Santarém. Foi precisamente num período em que vinha todos os dias trabalhar para Lisboa que o livro se escreveu. E quis o destino que, pouco tempo após a publicação do livro, se desse a possibilidade de retomar a cidade.

Samuel F. Pimenta dedica o livro à cidade pela qual se apaixonou. Foto: Rita Ansone

Seja como for, ainda se permite a deslumbramentos ao virar da esquina.

Afinal, como diz, “Lisboa é uma serpente, é Ophiussa, cujos olhos hipnóticos são a luz dourada que dá fama à cidade. As suas colinas e vales são o rasto labiríntico dos movimentos do seu corpo. Os seus habitantes são os seus filhos.”

Lisboa é, por isso e para si, um animal selvagem, que hipnotiza e engole. No entanto, esclarece que isso não é mau. “Simbolicamente, ser engolido por Ophiussa é uma iniciação, uma forma de também nós passarmos a fazer parte do seu corpo. Lisboa engole-nos para que nos tornemos nela.”

Deixa uma advertência a todos nós, filhos desta cidade: “Há quem se permita viver nesta relação visceral com a cidade, mesmo sem ser consciente disso, sem temer a boca da serpente. E há os que nunca verão além da luz que os hipnotiza, passando pelo território sem tocar o seu âmago, sem o conhecer”. 


Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues

Nascido na Madeira, o seu coração ficou por Lisboa. Estudou comunicação na FCSH – UNL e fotografia no Cenjor. Depois de muitos ofícios, é a contar histórias que se sente bem. Acha que não existem histórias pequenas, anseiam é por ser bem contadas. Quando não está a escrever, é aprendiz de jardineiro. @leonismos no Twitter.


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1 Comentário

  1. Tenho pena é que artigos como este não sejam corrigidos antes da publicação. É demasiado confrangedor ver tanta gralha e alguns erros ortográficos e de sintaxe. Lamentável, mesmo. Actualmente, parece dar-se pouca atenção a isso. Desde que se escreva segundo o novo acordo ortográfico, parece estar tudo bem… E não está.

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