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Naquele dia, Rogério Roque Amaro, economista de formação e dinamizador comunitário, saiu de casa com uma missão: saber como andava um casal de ciganos a adormecer no próprio carro há meses, no bairro das Galinheiras. Joaquim e Madalena ficaram sem alternativa de habitação, depois de terem visto a casa assaltada e destruída por uns vizinhos, contam. Um cinzento que veio tornar ainda mais negra a depressão crónica com que Joaquim vive há anos.
A horas de se celebrar o Dia Internacional das Pessoas Ciganas (no passado 8 de abril), seguimos à boleia de Roque Amaro, com uma vida dedicada ao trabalho de inclusão da comunidade cigana na sociedade portuguesa. Ele que conhece todas as estatísticas sobre esta mesma comunidade. Mas não é a contabilização que o preocupa: há anos que estuda como ser cigano em Portugal é sinónimo de viver sob grandes preconceitos que desaguam na pobreza.


Haverá cerca de 50 mil pessoas ciganas em Portugal e 37% ainda vive em bairros de lata ou acampamentos. É o que nos diz um estudo divulgado em 2021 pelo Comité Europeu de Direitos Sociais. Os dados e estudos, no entanto, são ainda insuficientes para estimativas demográficas rigorosas – sobretudo perante a exclusão da etnia dos questionários e censos.

Soraia Corneta, 28 anos, vive a metros do carro que serve hoje de quarto a Joaquim e Madalena, e conta uma história diferente: é hoje um exemplo de emancipação feminina na comunidade, terá sido a primeira da família a ir além do 5.º ano de escolaridade e até a graduar-se. Trabalha num cabeleireiro solidário e frequenta a pós-graduação em Desenvolvimento Local do ISCTE. Emancipou-se sem nunca descolar das tradições da família, das quais tanto se orgulha.
Está habituada a ouvir falar da comunidade em que cresceu como um povo à margem e indesejado em qualquer lugar. Até que, a 1 de dezembro de 2022, pela primeira vez, a celebração da Restauração da Independência contemplou o nome de dezenas de ciganos que lutaram pelo país – eles, uma comunidade envolta desde sempre em preconceitos, colocados à margem e perseguidos desde os tempos em que havia reis em Portugal.
Esta reportagem faz parte da “Mensagem Rádio”, um programa que passa quinzenalmente na RDP África (do grupo RTP), à terça e sexta-feira, e em permanência: no site da Mensagem, em rdpafrica.rtp.pt e no Spotify.
Produção: Catarina Reis (Mensagem de Lisboa) e Isabel Leonor (RDP África)
Voz e edição: Catarina Reis

Catarina Reis
Nascida no Porto, Valongo, em 1995, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020. Ajudou a fundar a Mensagem de Lisboa, onde é repórter e editora.
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