Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Na sua infância, Patrícia via a casa da avó repleta de quadros. Agora, trabalha rodeada pelos seus, numa sala-atelier, no seu apartamento. Foto: Inês Leote

O caminho das quatro não começou na rua, mas foi aí que encontraram a forma perfeita para exporem o seu trabalho de atelier e de tela. “Quando começas a pintar e queres mostrar as tuas coisas, vês uma parede de que gostas, vais pintá-la e as pessoas conhecem o teu trabalho e começam a surgir convites. No fundo, é isso, a arte funciona muito por convite”, explica Patrícia Mariano.

Passou a infância em casa da avó, rodeada de quadros pintados pela matriarca. Fascinada com o talento da avó, sonhava pintar tão bem como ela. Começou a fazer desenho à vista e foi trilhando o seu caminho. 

Mariana Duarte Santos sempre sonhou em grande. Candidatou-se a um concurso de arte pública e teve aí a primeira oportunidade de pintar um mural. “Tinha muita vontade de fazer crescer a escala dos meus trabalhos” e, portanto, “fazia sentido pintar um mural, já que é uma escala que nunca conseguiria ter numa tela ou em papel”, explica a artista que, em 2021, pintou 16 murais. 

Mariana Duarte Santos, no atelier que divide com outros artistas, numa garagem em Alvalade. Foto: Inês Leote

Já Daniela Guerreiro adorava fazer tatuagens e decidiu deixar Quarteira para vir estudar Belas Artes para a capital. Aqui, começou a pintar e, um dia, o companheiro de atelier convidou-a para fazer um mural. Apaixonou-se pela arte urbana e por subir aos andaimes e sujar-se com tintas para dar cor e vida à cidade.

O percurso de Jacqueline de Montaigne também começou no Algarve quando fazia parte de um projeto sobre nutrição infantil saudável e procurou alguém para pintar um mural sobre o tema. Falou com uma curadora, mas esta, sabendo que Jacqueline pintava, desafiou-a a pintar ela própria o mural. Mais tarde, surgiu um convite para pintar no LXFactory e assim Jacqueline começou a pintar Lisboa.

O mural de Jacqueline, “Linguagem das Flores”, foi eleito um dos 100 melhores murais de 2022 pela Street Art Cities. Foto: Inês Leote

Dos vários murais que tem espalhados pela cidade, o mural “Linguagem das Flores” no Largo Hintze Ribeiro, foi eleito um dos 100 melhores murais de 2022 pela Street Art Cities, a maior comunidade digital de arte urbana. Este foi o único mural eleito em Portugal, num ranking que conta com trabalhos em 92 cidades e 30 países diferentes. É também a primeira vez que é escolhida uma artista mulher portuguesa. Está agora aberta uma votação até dia 30 de janeiro na app da Street Art Cities para eleger os 10 melhores murais de 2022. Neste mural de Jacqueline, as flores significam vários sentimentos. As camélias representam a saudade, as dálias o compromisso e as flores de hera a lealdade.

Daniela Guerreiro opta pela pintura da figura feminina na sua forma crua. Foto: Inês Leote

“As únicas barreiras estavam dentro das mulheres”

Daniela, Mariana, Patrícia e Jacqueline são apenas algumas das artistas que pintam Lisboa e não só. Mas se agora há cada vez mais mulheres a pintar na rua, nem sempre foi assim.

“Agora vê-se cada vez mais mulheres a pintar, antes não tinham tanta notoriedade”, diz Daniela, que afirma que agora “as meninas têm saído do casulo e sentem-se à vontade para pintar porque veem outras mulheres a fazê-lo e isso dá-lhes coragem”, diz. Na verdade, na opinião de Daniela, “não há nem nunca houve restrições, a única restrição eram elas próprias. As únicas barreiras estavam dentro das mulheres”, afirma.

A pintura de murais continua, no entanto, a ser vista como um trabalho de grande exigência física e de resistência e, por isso, é normalmente associada aos homens. “Ainda há muito a ideia de que a rua não é um lugar correto para uma mulher”, diz Jacqueline que conta que, uma vez, em conversa com um curador este lhe disse que não conhecia nenhuma muralista. Quando ela lhe disse que era muralista, ele respondeu que não conhecia o trabalho dela. Ao mostrar o seu catálogo de murais, o curador disse que pensava que o autor daqueles murais, que afinal conhecia, era um homem.

Pela dimensão e complexidade dos murais, o trabalho é muitas vezes associado a “coisa de homens”, quer no âmbito profissional ou na comunidade, conta Jacqueline.

“As pessoas não estão à espera de ver uma mulher a pintar uma parede, é uma coisa muito física e cansativa”, lamenta Jacqueline. Mariana pensa que já não é tanto assim. “Hoje, as pessoas já não acham estranho ver uma mulher a pintar, já não existe essa barreira”, diz, reconhecendo, no entanto, que as mulheres não são encorajadas a fazê-lo e muitas vezes acham que não são capazes. Mas são.

“Todas as mulheres que eu conheço têm muito mais estaleca para pintar do que os homens”, diz Mariana, que também já viveu um episódio paradigmático deste desconhecimento em relação às mulheres muralistas. Enquanto pintava os murais no Bairro 2 de Maio, no início deste ano, os “miúdos andavam sempre ali à volta e um deles disse-me que nunca tinha visto uma mulher a pintar um mural”.

Daí que seja, para a artista, cada vez mais importante existirem mulheres na street art para “desconstruir preconceitos e inspirar outras mulheres”.

É importante “respeitar o sítio” e ter presente que a parede que se pinta “pode ser a vista de alguém todos os dias”

Daniela, Patrícia, Mariana e Jacqueline têm temáticas e estilos distintos, mas qualquer uma delas anda sempre em busca de inspiração para pintar Lisboa.  Se Daniela encontra inspiração sobretudo em si própria e em corpos femininos, Patrícia vê no feminino e nos animais os seus protagonistas.

Mariana sempre foi “obcecada” por fotografias e filmes antigos e, por isso, passa grande parte do seu tempo mergulhada em imagens de arquivo para construir o seu trabalho e perceber as pessoas e “as histórias do dia-a-dia” do lugar onde vai pintar o mural. Os seus murais resultam da mistura de interpretações de filmes, imagens de arquivo e das personagens do local onde pinta.

Já Jacqueline é fascinada por botânica, não tivesse sido o seu avô botânico, e, portanto, os seus murais são na sua maioria preenchidos de motivos de fauna e flora, que recolhe dos livros de ciência. Mas também há rostos de pessoas.

A definição dos temas é uma etapa importante do trabalho, mas a escolha do sítio a pintar e a relação com este não são menos merecedores de atenção. Depois de recolherem ideias para os murais, as quatro fazem questão de conhecer a história do local onde vão pintar e, acima de tudo, “respeitar o sítio”, tendo sempre em mente que “a parede pode ser a vista de alguém todos os dias”, diz Daniela. “No mural podes fazer uma ligação ao espaço envolvente, quase como arquitetura”, completa Patrícia.

Jacqueline herdou do avô a paixão pela botânica e procura representar os sentimentos através das plantas e das flores que escolhe para as suas criações. Neste mural,  no Largo Hintze Ribeiro, a artista expôs alguns significados. Foto: Inês Leote

É também essencial paras as artistas urbanas que a localização dos murais faça sentido. “Não acho muita piada se os murais puderem estar aqui ou noutro sítio qualquer. Acho que é importante que as pessoas que vivem nesses sítios criem memórias e sintam uma ligação com o que está pintado na parede”, diz Mariana, dando como exemplo o mural que fez no Intendente e que retrata a dinâmica das mercearias tradicionais.

“As lojas estavam todas a fechar e naqueles sítios as mercearias estão em vias de extinção, então, o mural foi uma homenagem às mercearias locais do bairro”, explica.

A Jacqueline uma das partes do trabalho que lhe dá mais prazer é aquela em que tem de criar relação com as pessoas dos locais onde pinta. “Tento pesquisar as histórias das pessoas e dos lugares e contar uma história, educar-me de alguma maneira e tiro sempre tempo para conhecer quem ali vive”, diz.

“É importante para as pessoas que vivem nesses sítios criarem memórias e sentirem uma ligação com o que está pintado na parede”, resume Mariana.

A arte urbana, para estas cinco artistas, é, no fundo, uma forma de reforçar os laços de comunidade, honrando a identidade de cada bairro.


* Daniela Oliveira nasceu no Porto, há 22 anos, mas a vontade de viver em Lisboa falou mais alto e há um ano mudou-se para a capital. Descobrir Lisboa e contar as suas histórias sempre foi um sonho. Estuda Ciências da Comunicação na Católica e está a fazer um estágio na Mensagem de Lisboa. Este artigo foi editado por Catarina Pires.


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz dantes pagava-se com anúncios e venda de jornais. Esses tempos acabaram – hoje são apenas o negócio das grandes plataformas. O jornalismo, hoje, é uma questão de serviço e de comunidade. Se gosta do que fazemos na Mensagem, se gosta de fazer parte desta comunidade, ajude-nos a crescer, ir para zonas que pouco se conhecem. Por isso, precisamos de si. Junte-se a nós e contribua:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *