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Lembrei-me logo dele na primeira noite de dilúvio: o gargarejo das tampas de esgoto, os clarins hidráulicos a ressoar nas canalizações tragando a chuva, o estômago dilatado das comportas, e aquele cheiro oxidado a fim do mundo, quase sempre à altura das copas das árvores, agora ao nível das narinas. Devolviam-me o seu rosto inquieto, a barba em tufos desenhados pela cicatrização de feridas antigas e o remoer de palavras de quem anda perdido num desenho de Escher.

Ao encontrá-lo na esquina da Gleba, quando a padaria ainda ali estava, atravessava a rua por instinto e prosseguia do outro lado do passeio. Também eu queria fugir àquele dedo indicador atirado para a frente como uma baioneta. Era sempre cortante o que dizia.

Com o rebordo ensebado das unhas, roídas muito rente, esgravatava parábolas do apocalipse. Chuvas torrenciais, bolas de fogo vindas do céu a rasgarem a escuridão, visitas alienígenas que se acoitavam entre nós para nos atacarem logo que se inteirassem das nossas fraquezas.

‘Eu vos aviso… eu vos aviso’

Interrompia o passo e virava a cabeça para lhe estudar os gestos bíblicos de pregador. Usava um casaco puído e muito largo que, ao se ver esticado pelo seu dardejar de ave, se insuflava ao vento como um lençol. Ao escurecer, ganhava, claro, um movimento fantasmal.

Os comerciantes dali chamavam-lhe profeta, com uma dobra de escárnio na comissura dos lábios, e deixavam-no estar desde que não espantasse a clientela. Alguns até lhe ofereciam as sobras do dia, bolos que iriam de qualquer maneira para o lixo e outros alimentos cujo prazo de validade já passara.

Os miúdos, de madrugada, saíam das discotecas da 24 de Julho e procuravam-no para descarregar a frustração de um engate mal resolvido. Acordavam-no com jorros de cerveja e roubavam-lhe os sapatos, que atiravam para o meio da linha do comboio. Ele recebia os insultos com estranha resignação e os pontapés no abdómen com vagidos secos.

As profecias do Profeta cumpriram-se, primeiro na forma de uma praga de percevejos que se alastrou pelos colchões dos lisboetas. Arrastei o meu, em incumprimento cívico, para o contentor mais próximo, ao qual juntei quatro tábuas do estrado da cama.

O peso da infração e o sentimento de alívio por me ver livre daquele incómodo noturno embrenharam-se dentro de mim como duas correntes contrárias, transformando-me num pequeno bote imobilizado pelo choque de marés.

Nestas minhas hesitações, dei pela sua presença de bicho camuflado pelo hábito. O Profeta maneava a cabeça acocorado, entre caixotes, com a precisão de um pêndulo – acoitava-se na espera humilde de animal pequeno, talvez de esquilo, não direi de rato – e pareceu não ver o meu aceno mudo.

Saiu do esconderijo quando dobrei a esquina da paragem e, por me achar longe a caminho – talvez – de um refogado ou de um serão de novela, pôs-se tranquilamente a examinar as tábuas de madeira. Ergueu-as e fê-las girar sob o seu olhar analítico, decidindo-se pelas duas mais grossas, que equilibrou no ombro como enxadas de ir ao campo.

Depois disto, estive semanas sem o ver. Era uma ausência difícil de ignorar, confesso. Parecia-me que a rua tinha perdido uma peça e era agora um velho puzzle incompleto e, por isso, imprestável. Tateei as artérias adjacentes, como quem arreda sofás e levanta tapetes, sem qualquer resultado, acabando por perguntar ao balcão do café, entre duas dentadas na empada, se alguém sabia do paradeiro do Profeta.

‘Largou ferro ali nas docas’, disse a dona a sorrir com pena.

‘Só se for para o outro mundo’, acrescentou um homem que sorvia o café. ‘Bateram-lhe
bem’.

‘Foi coisa dos putos bêbados das discotecas’, acrescentou a mulher. ‘Mas a polícia não quer
saber’.

Trabalhava numa embarcação à razão dos restos de madeira que recolhia dos caixotes do lixo, quando foi emboscado num beco. Voltou a tempo da primeira noite de inundações, tragando as marés na proa da sua jangada, de braço ao peito. Socorria quem se abeirava de trouxa à cabeça e água pelos joelhos.

Passou a ser conhecido pelo Noé de Alcântara.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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