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A frustração de viver sem poder ser quem é trouxe Reza a Lisboa. Aqui este iraniano encontrou refúgio. E Bruno, com quem agora sonha construir uma família. Uma coisa impossível no Irão, onde a homossexualidade é punida com pena de morte.

Hoje, Reza luta a partir de Portugal, porque “a revolução iraniana tem as mulheres como principal figura, mas é para todos”.

Apesar de já viver em Lisboa desde 2017, a história de Reza com a cidade começou dois antes, quando o iraniano participou numa conferência sobre Marketing na Universidade Nova de Lisboa/FCSH, como aluno de mestrado da Universidade de Teerão. Na altura, Reza ainda pensou estudar em Portugal, mas os planos pararam quando o irmão mais novo descobriu que tinha um cancro. “Não podia deixar a minha família”, justifica. 

Mas Reza não se esqueceu da imagem de Lisboa que guardou daqueles dias, sobretudo “do sol”. “Em Teerão, também há muito sol.”

Quando voltou, desta vez para ficar, como refugiado, em 2017, este lisboeta iraniano, encontrou algo mais semelhante: a Avenida da Liberdade lembra muito a rua Pahlavi, uma das maiores estradas do Médio Oriente que percorre a capital iraniana, Teerão e que a República Islâmica mudou o nome para rua Valiasr, uma referência à tradição xiita. 

Quer em Lisboa, quer no Irão, há Plátanos. Reza pega numa folha castanha caída no chão. O iraniano de 38 anos, continua a trabalhar em Marketing – sabe o que são símbolos, e esta folha é um dos símbolos da cidade que deixou. De alguma forma, assim fica mais próximo de casa.

Fecha os olhos e pensa que está na rua Pahlavi, em Teerão. “Dizem que o regime cortou grande parte das árvores da rua”, lamenta Reza. Não foram só as árvores de Pahlavi que a República Islâmica castrou.

Os plátanos da Avenida da Liberdade lembram Reza da Rua Pahlavi. Foto: Inês Leote

Avenida da Liberdade. Rua Pahlavi. Em 1979, por ambos os sítios, passavam homens e mulheres, livres, sem uso obrigatório do hijab. Tudo mudou em Teerão com a Revolução Islâmica. Nada estava garantido.

Além da Avenida, Reza refugia-se, muitas vezes, em Monsanto e Caxias. “Quando refazes a tua vida noutro país, tens sempre nostalgia. Dizemos no Irão que somos feitos da terra onde nascemos e eu não posso voltar à minha. Mas também há um ditado persa que diz que o céu é igual em qualquer sítio do mundo. Mas acho que é mentira. O céu lisboeta é mais bonito, mais azul. Dá-me paz e felicidade.”

Este é o “céu da liberdade”, diz Reza.

Para Reza essa liberdade é dupla: ser livre, mas também, mais profundamente, ser quem é. Em Lisboa pode assumir a sua sexualidade e garante que foi em Portugal que aprendeu a amar.

Isto apesar de ter sido já em Lisboa que recebeu um mandato de um tribunal iraniano que o acusava de “sodomia” e “promoção da homossexualidade” – que é proibida, obviamente, no Irão. Reza acredita ter sido denunciado à embaixada iraniana por isso.

Foi julgado à revelia, e a acusação chegou uma semana depois: “Se puser os pés no aeroporto de Teerão, sou preso e posso ser morto”, garante.

As Nações Unidas integra o Irão na lista dos três países do mundo que mais viola os direitos humanos, a par da Síria e da Coreia da Norte. E os direitos LGTQIA+ simplesmente não existem: o Código Civil iraniano dita a morte para homens homossexuais. Para as mulheres, a pena é de 100 chicotadas. “Beijos ou toques como resultado de luxúria”, entre pessoas do mesmo sexo, são punidos com até 74 chicotadas.

A Human Dignity Trust e as Nações Unidas denunciaram a execução de duas ativistas iranianas LGBTI+, ainda este ano, acusadas de “corrupção na terra”.

Ser gay em Teerão “é um exercício de autoflagelação”. É esta a melhor forma que Reza encontra para descrever a sua vida até fugir para Portugal.  

Hoje, Reza senta-se junto ao Teatro Nacional D. Maria II, de perna cruzada. Para trás, ficaram os tempos em que, em menino, corria para casa, em Teerão, para treinar com uma velha cadeira a “maneira mais masculina” de se sentar.

“Cinco anos depois de aqui estar, mesmo que pudesse, não conseguia regressar ao Irão. Sinto-me aliviado e perdi todo o controlo sobre o meu corpo”, diz Reza Foto: Inês Leote

“Sentava-me desta maneira, de perna cruzada e diziam que assim era para as mulheres. Tudo era alvo de chacota”, recorda Reza.

Na memória ainda guarda um dos casacos favoritos, de cor vermelha garrida, que deixou de levar para a escola, por ser uma cor “viva”. “Espera-se que os homens usem tons escuros, como castanho, preto, cinzento”, conta.

Em Lisboa, Reza apreendeu a largar o medo.

“Cinco anos depois de aqui estar, mesmo que pudesse, não conseguia regressar ao Irão. Sinto-me aliviado e perdi todo o controlo sobre o meu corpo. Não conseguia voltar àquela lógica que me obrigava a pensar como devia sentar-me ou comer, por medo que descobrissem que sou gay.”

Em 33 anos, Reza conta que nunca teve um namorado, nem relações com outros homens. “Tinha medo de perder tudo – a minha família, o meu trabalho, os meus amigos, a minha posição, o meu emprego em marketing.”

Um pássaro à espera de voar 

Mas o pássaro queria voar… Um dia encontrou coragem para instalar uma aplicação de encontros que, apesar de tudo, funciona no Irão. “Sempre com medo, porque ouvia dizer que a polícia se disfarçava para descobrir quem era gay.”

Num perfil, um homem dizia que gostava de tomar café com alguém. Reza arriscou. “Até então nunca tinha me aproximado de um homem, pois sabia que não ia conseguir controlar o que acontecesse depois. Nunca mais vou esquecer-me daquele homem, porque mudou totalmente a minha vida.”

Durante dois meses, Reza e o novo amigo tornaram habituais os passeios a dois pelas ruas de Teerão. Num desses momentos, o amigo contou-lhe sobre uma depressão que teve, que o obrigou a recorrer a psicoterapia. O psicólogo, “de confiança”, relacionou esse estado depressivo com a prisão interior que sentia. Que todos os iranianos lgbtqi+ sentem.

Aí o homem ganhou força para «sair do armário» perante a família, que jurou protegê-lo. “Fiquei chocado com a normalidade que ele dava a tudo isto. Senti que havia alguém igual a mim”, confessa Reza.

O amigo convenceu Reza a frequentar as consultas de psicologia e a preparar o caminho até à libertação. “Primeiro, ia obrigado. À quarta sessão, já ia por vontade própria. Não queria viver mais fechado.”

“Chegou o dia de conversar com a minha mãe. Sempre fomos muitos próximos. Ela cresceu em Londres, antes da Revolução [Islâmica de 1979]. Ela sabia que sou gay e vi sempre nos seus olhos tristeza, pelas coisas terem de ser assim. Disse-lhe que me sentia uma pessoa bipolar, que queria ter a minha própria vida, ter um marido e adotar crianças. A primeira coisa que ela respondeu foi: «Então tens de sair daqui»”.

O primeiro Natal de Reza

E assim foi. Desde 2017, Reza fez de Lisboa e das suas ruas casa. “Sinto-me um iraniano lisboeta, tenho o mesmo sentimento por Portugal que tenho pelo Irão. Quando estou em casa mais do que três dias, preciso de sair. Fico com saudades das ruas de Lisboa.”

No Rossio, o mercado e a árvore de Natal entusiasmam Reza, que se prepara para celebrar, em 2022, o primeiro Natal.

“Esta é uma festa religiosa e cristã, por isso não se celebra no Irão, à exceção de algumas comunidades de Teerão com origens arménias. Mesmo assim, são ortodoxos e, por isso, é um pouco diferente”, explica.

Reza nunca tinha celebrado o Natal, por este ser “um momento de reunir a família”. E a dele, está toda em Teerão – o pai, mãe e irmão mais novo.  

2022 vai ser diferente. Reza vai passá-lo com o namorado, o brasileiro Bruno. Apesar de ser um Natal pouco tradicional português: a irmã e o cunhado do namorado são vegans, “por isso alguma coisa de pouco usual vamos ter de comer”, diz a brincar.

Este é um amor que cruza fronteiras e culturas, pois, da mesma forma que Reza se prepara para celebrar o Natal, também Bruno conheceu o Ano Novo Persa, a principal festividade iraniana. 

“As festividades iranianas mais importantes não são religiosas”, comenta Reza. “Isto diz muito da nossa cultura. Na Europa, as iranianas mal chegam tiram o hijab, enquanto as árabes não.” Foto: Inês Leote

O Ano Novo Persa é celebrado no dia 20 ou 21 de março. Por tradição, os iranianos reúnem a família em torno da mesa, onde colocam sete objetos importantes da cultura persa.

É o chamado haft-sin. Alguns são especiarias e produtos locais, outros mais comuns como o vinagre, a maçã ou o alho. Tudo representa o bem-estar e saúde para enfrentar o ano que principia.

“As festividades iranianas mais importantes não são religiosas”, comenta Reza. “Isto diz muito da nossa cultura. Na Europa, as iranianas mal chegam tiram o hijab, enquanto as árabes não.”

Mas a verdade é que o Irão é um país subjugado há 43 anos por uma ditadura clerical xiita, sustentada numa visão dura do Alcorão e da Xaria, a lei islâmica.

Sonhos por cumprir

“O que está a acontecer no Irão dá-me esperança que um dia possa voltar”, admite Reza.

Todos os lisboetas iranianos têm em comum um profundo amor que demonstram pelo país. E se saudade é uma palavra portuguesa, ninguém a sente melhor que os iranianos: “Há algo especial sobre Teerão, de tal forma que, quando pensas na cidade ou falas sobre ela, não consegues que os teus olhos não fiquem húmidos”.

Por isso, os iranianos espalhados por todo o mundo lutam, por direitos humanos e pela liberdade. E Reza está na dianteira da contestação em Portugal, em nome dos direitos LGBTI+.

A luta pelos direitos LGBT é uma das lutas da vida de Reza. Foto: Inês Leote

“A principal figura desta revolução é a mulher, mas esta revolução é para todos os iranianos”, considera Reza. “É uma revolução porque as pessoas mudaram, graças à educação. Não podemos voltar ao que éramos. Se este regime desaparecer, podemos ter uma parada gay no próximo Verão, em Teerão? Não. Tudo precisa de tempo. Esta é a chance de mostrarmos às pessoas que a única diferença que tenho em relação aos meus primos é que não quero dormir com uma mulher. E isso é pessoal”.

Juntos, Reza e Bruno dão vida aos sonhos que o iraniano trouxe na mala de bagagem, desde Teerão. “Queremos muito adotar”, confidencia.


João Damião

É aluno do mestrado de Jornalismo da Universidade Nova de Lisboa/ FCSH. É um tanto idealista. Acredita que o melhor futuro é pautado pela educação, informação, beleza e tolerância. É isso que o move a contar histórias.


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