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Antonio Grassi passeia o dedo pelo ecrã do telemóvel até encontrar o que procurava. “Aqui está”, diz, os óculos equilibrados na ponta do nariz. “Talante quer dizer: o que se gosta, dá vontade e prazer…”, revela, sobre o nome do espaço cultural onde o ator e ativista político brasileiro é curador, na Livraria Ler Devagar, em Alcântara.

É guiado pelo que gosta, pelo que dá vontade e prazer que Antonio Grassi também rege a sua vida lisboeta. Aos 68 anos, os dois últimos a viver nos arredores da Praça das Flores, Grassi replica em Portugal a trajetória que o levou a ser um rosto conhecido no Brasil pela sua atuação nos palcos, nos ecrãs e também como gestor cultural.

Entre os papéis que desempenhou estão o de diretor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, um dos cartões postais da cidade, e do Instituto Inhotim, em Minas Gerais, considerado o maior museu de arte contemporânea a céu aberto do mundo, um paraíso artístico de 140 hectares de área, circundado por árvores e cortado por lagos.

O ator brasileiro Antonio Grassi na Livraria Ler Devagar: um namoro que levou uma década para se consumar. Foto: Rita Ansone

Grassi também atuou no teatro da política, como secretário de Cultura do Rio de Janeiro e presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), o órgão do governo brasileiro responsável pela gestão de todas as políticas públicas no campo cultural, em ambas ocasiões ao serviço do Partido dos Trabalhadores (PT).  

O regresso do PT ao poder redirecionou os holofotes da política sobre o ator, conhecido em Portugal pelas novelas O Salvador da Pátria, O Dono do Mundo, Tropicaliente e Chocolate com Pimenta, entre dezenas de outros trabalhos na televisão, no cinema e, agora, também em streaming, como na série da Netflix Bom dia, Verônica (2020).

A terceira vitória de Lula da Silva poderia ser o sinal de retorno do brasileiro que, assim como milhares de patrícios, buscaram em Lisboa um porto seguro contra as nuvens carregadas do governo Bolsonaro. Grassi, porém, garante que em Lisboa está e em Lisboa fica, embora a distância não seja sinónimo de alheamento político.

Grassi: “Talante” resume o significado dos anseios do brasileiro. Foto: Rita Ansone.

Do seu apartamento na freguesia da Misericórdia, Antonio Grassi tem participado ativamente no grupo de transição setorial da Cultura do próximo governo. É sempre uma voz a ser ouvida pelo presidente Lula, o que o faz dele uma espécie de embaixador extraoficial da cultura brasileira em Portugal.

O estatuto levou-o a ser convidado para compor o casting de várias instituições culturais brasileiras sediadas em Portugal, interessadas em reestabelecer o contacto com o futuro Ministério da Cultura do Brasil, prestes a ser recriado por Lula após ser extinto por Bolsonaro.

Grassi foi o curador da última edição do Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (FESTin), realizado em dezembro em Lisboa, e assumiu em outubro a presidência do conselho de administradores da Associação Oceanos, responsável pelo Prémio Oceanos, o mais importante galardão literário em língua portuguesa.

Os vários papéis, porém, não o fazem despir o figurino da curadoria do Espaço Talante.

Pelo contrário.

Na ampla sala no primeiro andar da Ler Devagar, na LX Factory, Grassi observa a mais recente instalação, assinada pela escritora e filósofa brasileira Márcia Tiburi, sem disfarçar o brilho nos olhos de quem, dentre tantas grandes atuações em cartaz, elegeu a aparentemente mais simples como a favorita.

O desenlace do longo “namoro” com Lisboa

Lisboa não é uma desconhecida para Antonio Grassi. Entre 2012 e 13, então como presidente da Funarte, Grassi foi o responsável pelo Espaço Brasil montado ali mesmo, na LX Factory, parte das celebrações do Ano do Brasil em Portugal. “Realizámos uma programação intensa. A minha relação com Lisboa começou ali e nunca mais parou.”

Para o responsável pelo Espaço Talante, o local é mais do que uma galeria de arte, é um ponto de convergência da língua portuguesa. Foto: Rita Ansone

Começou ali também o “namoro” de Grassi com José Pinho, dono da Livraria Ler Devagar. “Desde lá atrás, eu e o Pinho falávamos na possibilidade de montar algo em conjunto. E para mim era uma ideia estimulante, pois o trabalho junto à língua portuguesa é algo que me interessa muito”, garante.

O namoro de uma década teve um desenlace feliz este ano, durante a realização do Festival Literário Internacional de Óbidos (FOLIO), no qual José Pinho é o curador e Grassi compôs uma das mesas. “Como estava a morar em Lisboa, o Pinho disse que não havia como não ser agora. Propôs-me associar-me à livraria e eu aceitei”, conta.

A estratégia do Espaço Talante é explorar as habilidades menos conhecidas dos artistas em língua portuguesa. O pontapé inicial foi em maio, durante o Festival Lisboa 5L, com a performance Poemas Digitais, uma mostra visual desenvolvida por poetas como Ondjaki e Patrícia Lino, e coletivos artísticos.

Foto: Rita Ansone

Em junho, já na Livraria Ler Devagar, Grassi trouxe a versão artista plástico do poeta concretista brasileiro Ferreira Goulart, com as miniesculturas da coleção Objeto de Poeta e Livro de Artistas, que teve a curadoria da viúva de Goulart, a também poeta Cláudia Ahimisa e reunia pequenas esculturas feitas em papel e metal.

O angolano José Eduardo Agualusa foi o terceiro nome a expor no Espaço Talante com Gramática do Instante e do Infinito, a primeira incursão do escritor e poeta pela fotografia como representação artística, reunida em imagens e textos de Agualusa sob curadoria da editora brasileira Lúcia Bertazzo.

Os “livros” urdidos em algodão pela escritora e filósofa brasileira Márcia Tiburi são a sequência da trajetória de levar ao público lisboeta as facetas menos conhecidas de conhecidos artistas. Tiburi, assim como o próprio Grassi, uma ativista política atualmente exilada em Paris, costura em telas as edições dos próprios livros.

“Parece que o Talante é uma galeria, mas não é. Nossa missão é ser um ponto de encontro de várias vertentes artísticas, ligadas pela língua portuguesa”, tenta resumir Grassi. “É uma iniciativa mais abrangente, por envolver outras linguagens artísticas desempenhadas por artistas consolidados numa área específica.”

Para Grassi, o Espaço Talante completa o “impressionante papel” que a Ler Devagar representa como polo cultural de Lisboa. “Se olharmos direito, o Pinho conseguiu algo impossível em outros lugares, impossível no Brasil, por exemplo, que foi transformar uma livraria num ponto turístico.”

Um guião na gaveta e a vontade voltar a atuar

O telefone toca e Grassi pede licença por uns minutos. Uma ligação do Brasil, parte do trabalho na equipa de transição na área de cultura do próximo governo, cuja pasta terá como titular a cantora baiana Margareth Menezes, famosa no Brasil como intérprete de Meu coração é vermelho, conhecida pelos portugueses na voz de Fafá de Belém.

Antonio Grassi: a estratégia do Espaço Talante é divulgar as facetas menos conhecidas dos artistas. Foto: Rita Ansone

Para o ator, a passagem recente de Lula da Silva por Portugal, onde se encontrou com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro ministro António Costa, além do presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, é um sinal de que o Brasil não só volta a ter voz no exterior, mas de que pretende estreitar os laços com a comunidade lusófona.

“A visita foi mais do que simbólica, foi fundamental. Demonstra a atenção do Lula com a comunidade brasileira em Portugal e também com os portugueses. E foi também ótimo o gesto com o presidente de Moçambique, de deixar claro que o governo dele também tem como prioridade a África”, analisa.

Grassi lembra que durante as duas gestões de Lula da Silva na presidência, a cultura foi o cartão de visita nas relações do Brasil com as outras nações. “Foi assim no Ano do Brasil em Portugal, no Brasil como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt e em outros tantos exemplos. Estamos prestes a retomar essas possibilidades.”

Grassi: guião guardado na gaveta. Foto: Rita Ansone.

Sobre o papel que pode desempenhar nas relações específicas entre Brasil e Portugal, Grassi prefere desconversar, num misto de discrição, modéstia e uma certa timidez, a mesma que o impediu de se arriscar em outras áreas artísticas, assim como os artistas que convida para expor no Espaço Talante.

“Sempre tive vontade de publicar um livro, mas nunca ousei. Quando a vontade surge, penso em quanta gente boa tem escrito tanta coisa genial e volto atrás”, confessa Grassi, que diz ter um guião assinado por ele devidamente guardado na gaveta. “Agora, atenção: a minha timidez com a escrita não me afasta da literatura”, ressalva.

As inúmeras responsabilidades, também garante, não o fazem afastar-se da sua vocação inicial, a de ator. Após dois anos em Portugal, ainda não recebeu nenhum convite de uma produtora local para voltar aos ecrãs. “Continuo aberto a essas possibilidades”, sugere Antonio Grassi, atento para seguir fazendo o que gosta, dá vontade e prazer.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 50 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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