Alguns dos cozinheiros que abstecem a rede Mamafood. Foto: Mamafood

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A MamaFood não é uma empresa de entrega de comida qualquer. Por viver longe de casa e da família, Shadi Osta, francês, fundador da MamaFood que foi nómada digital durante sete anos, antes de se fixar em Lisboa, sentia muita falta da comida dos pais. Mas nem ele nem a mulher gostam de cozinhar. Após dias a fio a encomendar comida que parecia ser sempre igual, começou a procurar alternativas. Foi assim que encontrou cozinheiros no Instagram que cozinhavam a partir de casa e aceitavam encomendas.

Shadi Osta, francês, é o CEO e fundador da Mama Food. Foi nómada digital durante sete anos e viajou por inúmeros países antes de se fixar em Lisboa. Foto: Liliana Marques

Assim nasceu em setembro de 2021, no meio da pandemia, a MamaFood para os lisboetas, locais, adotivos, imigrantes ou expats matassem saudades, de casa e da sua comida. O conceito era criar um “mercado para comida caseira” de várias partes do mundo, desde a Síria e o Bangladesh ao Brasil e Filipinas.

Cada encomenda na MamaFood tem algo por detrás: são mais de 30 cozinheiros, “com histórias fascinantes e vêm de todas as partes do mundo”, explica Olivia Bourkel, da MamaFood. Sendo que os clientes podem escolher o tipo de comida, o prato e o cozinheiro que querem.

A startup abriu oficialmente em setembro de 2021, após meses de preparação e estudo do mercado. É uma plataforma online que agregar estes cozinheiros – e outros que se foram juntando, entretanto – e facilita a divulgação do trabalho dos cozinheiros permitindo aos clientes uma experiência personalizada. “Começámos a juntar todas estas pessoas na plataforma e o projeto nasceu”, conta Shadi.

Ao entrarem no website da empresa, os clientes podem selecionar o cozinheiro e o tipo de cozinha que pretendem – asiática, europeia, africana, entre outras. Shadi explica que o maior desafio foi fazer as pessoas entenderem o conceito e a razão de ter de se encomendar com uma antecedência de pelo menos 24h, essencial, por se estar “a trabalhar com pessoas reais, indivíduos” e comida caseira.

Esta dificuldade foi sendo ultrapassada através de ferramentas como a partilha de conteúdo nas redes sociais e organização de eventos e de formas mais tradicionais como o passa-palavra entre amigos. “Uma pessoa fala de nós aos amigos, o que traz mais pessoas que vão falar de nós aos amigos e quando damos conta estamos a ser vistos e a ser falados.”

A equipa da MamaFood.

O público-alvo da MamaFood é bastante alargado. Embora procurem chegar a clientes de todas as idades e gerações focam-se em famílias portuguesas que procuram uma boa refeição caseira e com pouco tempo para cozinhar, imigrantes e pessoas mais velhas – que têm, regra geral, maior compreensão face à necessidade de fazer a encomenda com 24 horas de antecedência.

“As pessoas que encomendam comida na MamaFood estão à procura de comida caseira e fresca e percebem o objetivo e a missão subjacentes ao projeto”. Foto: Liliana Marques.

“Acho que esta é uma barreira para a minha geração porque estamos habituados a ter acesso a comida em 15 minutos ou menos. As pessoas que encomendam comida na MamaFood estão à procura de comida caseira e fresca e percebem o objetivo e a missão subjacentes ao projeto. Não estão meramente a encomendar comida, mas também a apoiar o sistema económico e, sobretudo, a apoiar pessoas”, justifica Olivia.

Uma grande família

A empresa conta com uma equipa de 10 pessoas, para além dos cozinheiros. Almoçam sempre juntos e fomentam uma atmosfera familiar e de proximidade, que se estendem também aos cozinheiros e aos clientes. “Este é um dos nossos principais valores, o da criação de um ambiente familiar, e é isso que queremos também para o nosso website. Pretendemos que as pessoas que encomendem a nossa comida se sintam parte da família.”, explica Shadi.

A equipa organizou uma celebração do Ramadão para juntar clientes, equipa e cozinheiros. Pediram a cinco dos cozinheiros que preparassem a comida: dois da Turquia, um do Bangladesh, um do Senegal e um de Moçambique. Estiveram presentes 40 pessoas e foi um momento de grande intensidade.

“Metade das pessoas começaram a chorar com alguns dos discursos muito emotivos que foram feitos ao longo da refeição, em que falaram da importância de partilhar a sua cultura e a sua história, nomeadamente através das receitas que lhes foram passadas por familiares. Foi muito bom porque vimos que aquilo que estávamos a fazer estava de certa forma a ajudar a sociedade, não só providenciando comida como também emoção, histórias e momentos de convívio e partilha”, revela Shadi.

Naren e a mulher, Priya, naturais da Índia, são clientes da MamaFood desde dezembro de 2021. Naren conta que nenhum deles tinham tempo para cozinhar e, a longo prazo, encomendar comida em restaurantes torna-se pouco saudável e insustentável.

Naren e Prya são clientes da Mama Food e destacam o sentimento de “hominess” que esta proporciona. Foto: D.R.

Encomendam geralmente comida síria, por lembrar Naren dos sabores da sua infância e ser uma alternativa rica em sabor e proteína para a Priya, que é vegetariana. “Para nós faz diferença sabermos que alguém fez a comida em sua casa. Somos relativamente novos nesta cidade e estamos a tentar encontrar o nosso lugar e comida como esta [da MamaFood] dá-nos um sentimento de hominess.

Naren foi um dos clientes presente no evento organizado pela MamaFood. Teve oportunidade de conhecer vários dos cozinheiros e membros da equipa e sentiu-se parte de uma comunidade, como uma segunda família. “Um dos cozinheiros disse que o Ramadão é suposto ser um evento de comunidade e que desde que se mudou para Portugal nunca tinha tido, até àquele dia, a oportunidade de celebrar com tanta gente. É este tipo de encontro que fomenta ainda mais este sentimento de casa que nos dá a comida.”

Olivia Bourkel, francesa, chegou a Portugal em janeiro de 2021 e juntou-se à equipa da Mama Food em junho do mesmo ano. Foto: Liliana Marques

Olivia Bourkel, de 29 anos, nasceu em França e mudou-se para Portugal em janeiro de 2021 para escrever a sua tese de mestrado acerca de experiências gastronómicas inovadoras e como estas podem contribuir para a sustentabilidade num destino turístico.

Juntou-se à equipa em junho de 2021, quando a empresa ainda estava numa fase muito inicial. Sentia que muitas vezes nesta indústria faltava ligação com as pessoas, tanto clientes como trabalhadores e que a MamaFood estava ativamente a contrariar esta falta. “Já tinha trabalhado na área de restauração e queria fazer algo mais, queria estar conectada às pessoas e, especialmente, aos cozinheiros porque a arte da cozinha é um pouco desvalorizada.” Algumas das suas funções passam pela organização de eventos, marketing offline e relações-públicas.

Olivia conta brevemente a história de uma das cozinheiras, Fatou, que veio do Bangladesh e acompanhou o marido quando este veio trabalhar para Portugal. Durante toda a sua vida viveu num país e numa cultura em que as mulheres muitas vezes não têm independência financeira e trabalhar enquanto cozinheira para a MamaFood trouxe-lhe, pela primeira vez, esta independência a nível financeiro e não só. “Eu vi que ela estava muito entusiasmada e a forma como os olhos dela brilhavam quando começou a trabalhar para nós [MamaFood]. O feedback dos clientes tem um grande impacto nela e na sua autoestima.”

Os cozinheiros têm todos um perfil muito único. São pessoas a quem é dada a oportunidade de viver da sua paixão e é notável o seu entusiasmo. “Isto tem um grande impacto a nível social porque estamos a falar de pessoas que muitas vezes nunca tinham tido alguém que acreditasse nelas e aqui [MamaFood] ouvem pela primeira vez que são capazes e que é possível”, explica Olivia.

São os cozinheiros que, de forma independente, decidem qual o valor de cada prato, que é totalmente flexível e pode ser alterado a qualquer momento. A partir deste valor estabelecido pelos cozinheiros, a MamaFood acrescenta uma comissão correspondente a 20%, ou seja, se os cozinheiros decidem um determinado prato a 10 euros, no website este vai estar disponível a 12 euros (10 euros que vão para o cozinheiro e 2 euros para a MamaFood).

Os cozinheiros da MamaFood contam, através dos seus pratos, a história de uma vida. Cada encomenda vem personalizada com uma playlist e uma mensagem feitas pelo cozinheiro com o intuito de criar uma ligação entre cliente e cozinheiro. Naren considera que este é um conceito que vai muito para além da comida, é toda uma experiência baseada no contacto e conexão entre pessoas. “É o que me faz voltar.”

Criar comunidade a partir da cozinha

Lara, 24 anos, viveu na Síria até aos 18 anos e trabalha, atualmente, em parceria com a MamaFood enquanto cozinheira e fundadora do seu próprio negócio, Lara’s Kitchen. Após passar alguns anos na Grécia como refugiada, veio para Portugal, em 2017, em busca de asilo e embarcou numa nova jornada, pessoal e profissional, após uma adaptação difícil e demorada. Enfrentou diversos obstáculos numa fase inicial, entre os quais a barreira da linguagem, a dificuldade em conhecer pessoas e em entender a cultura e as regras europeias.

Após chegar a Portugal começou por trabalhar num call center e, em seguida, na área das redes sociais para um projeto, mas cedo percebeu que aquilo que queria realmente era começar o seu próprio negócio. Começou, então, a trabalhar na indústria alimentar sem qualquer tipo de experiência prévia. Muito daquilo que sabe sobre cozinha aprendeu sozinha, através de vídeos no YouTube e por tentativa e erro.

Evoluiu muito desde os dias em que tentava recriar receitas da internet e, atualmente, gere o seu próprio negócio, que cresceu a olhos vistos nos últimos meses. Chegou, no entanto, a um ponto em que as encomendas eram tantas que ela e o marido, Khaled, não estavam a conseguir gerir a entrega de encomendas por não terem carro próprio.

É aqui que entra a parceria a MamaFood e a Lara. Através daquela, o negócio de Lara passou não só a ter uma nova plataforma de divulgação e realização de encomendas, – o website da empresa – como de entrega das mesmas.

Para Romulo, cliente da Mama Food, o conceito da plataforma tem que ver com criação de comunidade, consumo consciente e promoção da multiculturalidade. Foto: D.R.

Romulo, de 29 anos, é cliente da MamaFood desde novembro de 2021. É original do Peru e está a viver em Portugal há quatro anos. O seu interesse pela gastronomia vai para além da cozinha em si: “Adoro saber a história por detrás dos cozinheiros, da comida, a história dos próprios pratos. Gosto muito de aprender mais sobre outras culturas, pratos e lugares.”

O conceito por detrás da MamaFood destaca-se, para ele, pela componente emocional. “Sinto esta conexão com eles [cozinheiros] e com a sua história”, conta Romulo.

Pessoalmente e enquanto habitante da cidade de Lisboa vê este conceito da MamaFood como uma forma de se conseguir uma maior consciencialização em relação a outras culturas e religiões e também de conhecer pessoas de diferentes origens e culturas que não conheceria de outra forma.

Destaca também a importância de tomarmos decisões conscientes, seja a nível de alimentação, de vestuário ou dos sítios onde escolhemos comprar e consumir todo o tipo de produtos. “Considero a MamaFood uma destas empresas que representam uma escolha consciente: estão a criar uma família, a apoiar empreendedores locais e é ainda uma excelente forma de partilharem a sua própria cultura, visto que eles são também migrantes, e de tornarem as pessoas locais [de Lisboa] mais recetivas a comunidades internacionais. Estas são questões tão importantes e que acho que vão muito para além da entrega de comida internacional”, diz Romulo.

“Queremos ser uma empresa lucrativa, mas queremos fazê-lo de forma a ter um impacto positivo na sociedade”, esclarece Shadi. A MamaFood procura trazer oportunidades de trabalho a muitas pessoas, inclusive aquelas com um perfil um pouco fora da norma. Donas de casa, reformados e muitos outros que sabem e gostam de cozinhar e não estão a usufruir o suficiente deste talento.

Propõem algo inovador, que se apresenta como uma alternativa ao nível alimentar para os habitantes de Lisboa: comida caseira, autêntica e diversificada. Mais do que isto, diz Romulo, “criam estas pontes em Lisboa que aproximam e unem as pessoas”.


* Liliana Marques, 21 anos, tem um pé em Évora, onde nasceu e cresceu, e outro em Lisboa, onde estuda Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Apaixonada por fotografia e literatura, quer contar histórias de Lisboa e trazê-la para as suas memórias. Estagiou na Mensagem de Lisboa. Este artigo foi editado por Catarina Pires.


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