Falso Nove
Francisco Marcelino, Mateus Carvalho, Afonso Lima, José Amoreira e Francisco Leite, os cinco Falso Nove.

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“Um… dois… três… um…”. Sente-se a batida da bateria e o baixo começa a acompanhar a melodia, a que se juntam as teclas e a guitarra.

Na sala pequena do estúdio, com cartazes nas paredes e amplificadores no chão, a banda Falso Nove ensaia o próximo concerto.

São 9 da manhã e no estúdio número 12 dos Estúdios Nirvana, em Barcarena, cinco jovens rapazes tocam empenhados em arrasar no palco. O entusiasmo não esconde algum nervosismo, apesar dos quase quatro anos que já levam juntos.

Criada em dezembro de 2018, em Lisboa, a banda Falso Nove é fruto do amor pela música dos três fundadores: Afonso Lima, 25 anos, guitarrista e 2º vocalista, Mateus Carvalho, 25 anos, vocalista e saxofonista, e Francisco Marcelino, 26 anos, baterista.

Já se conheciam todos, de outro projeto musical que partilhavam – uma banda chamada Wellman -, mas queriam começar um projeto diferente, através do qual pudessem contar as suas próprias histórias. A ideia germinou de uma conversa entre Afonso e Mateus e cresceu quando Francisco foi chamado a participar.

Com referências musicais como os Ornatos Violeta, Manel Cruz, Zeca Afonso, Jorge Palma e Clã, a experiência vivida na banda Wellman e na Tuna Académica de Lisboa, e a vontade de ganhar uma voz própria, fizeram os Falso Nove avançar.

Afonso Lima é o guitarrista e um dos fundadores da banda Falso Nove, que juntou cinco universitários de todo o país que convergiram em Lisboa.
Foto: Carolina Salgado.

“Queríamos fazer uma coisa nova que fosse mais ao encontro daquilo de que gostamos e daquilo que queríamos compor”, diz Afonso Lima.

“Nessa banda onde eu e o Afonso conhecemos o Francisco, gostávamos muito de tocar uns com os outros, mas era cantado em inglês e nós queríamos fazer alguma coisa em português. Queríamos explorar sonoridades diferentes, mais relacionadas com a música portuguesa que costumamos ouvir”, acrescenta Mateus Carvalho.

A importância de um nome

Afonso Lima vem de Lagos. Mudou-se para a capital para estudar Direito na Universidade de Nova de Lisboa, curso que está prestes a concluir, com uma tese sobre Direitos de Autor e Obra Musical. Além da música, desde miúdo que Afonso tem uma forte ligação ao desporto, tendo sido jogador de voleibol e sendo agora treinador principal da modalidade na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e treinador-adjunto no Sport Lisboa e Benfica.

Mateus Carvalho é de Leiria e, tal como Afonso, veio para Lisboa estudar Direito na Universidade Nova de Lisboa, estudos que continuou na Faculdade de Direito da Universidade de Maastricht, na Holanda, onde é atualmente professor e investigador na área do Direito Europeu e Comparado, o que o faz dividir-se entre Maastricht e Lisboa, para os ensaios e concertos da banda.

Francisco Marcelino é o baterista dos Falso Nove e o único lisbeta do trio fundador da banda. Foto: Carolina Salgado.

Francisco Marcelino é o único lisboeta do trio fundador dos Falso Nove. Mestre em Media e Jornalismo pela Universidade Católica, depois de vários estágios na área, percebeu que o caminho dele não passava por ali. Com formação musical como baterista, decidiu largar tudo e apostar numa carreira exclusivamente musical.

O outro Francisco da banda, Francisco Leite, 23 anos, também nasceu e cresceu em Lisboa e juntou-se aos Falso Nove a convite do Mateus e do Afonso, que conhecia da Tuna Académica de Lisboa, onde os dois colegas de Direito tocavam. Francisco estudou piano no Instituto Gregoriano de Lisboa, ainda fez dois anos de Engenharia Eletrónica no Instituto Superior Técnico (o que o levou à Tuna Académica de Lisboa, onde conheceu o Afonso e o Mateus), mas a música falou mais alto e ele trocou a engenharia pelo Hot Clube de Portugal. Hoje, além de pianista dos Falso Nove, é professor de piano e de formação musical.

Além de teclista dos Falso Nove, Francisco Leite é professor de piano e formação musical. Para trás ficou uma carreira como engenheiro eletrónico. Foto: Carolina Salgado.

A banda estava quase completa, mas faltava o fundamental: o nome. O nome pelo qual iriam identificar-se. O nome que o público iria pesquisar no Spotify e nas restantes plataformas. O nome pelo qual o público iria gritar nos concertos.

Depois de uma noite de copos, enquanto Afonso levava Mateus à estação de Sete Rios, os dois avançavam ideias. Até que um flash. Falso Nove. Foi Afonso que se lembrou. “Apesar da associação futebolística, é uma expressão conhecida e que, por outro lado, pode transportar para muitas outras ideias. É uma coisa que aparenta ser algo, mas na realidade não é”, explica. Olharam-se e perceberam os dois que o nome não poderia ser outro.

O quarteto passou a quinteto e a banda ficou completa

O ensaio é intenso, a troca de ideias constante. Preocupa-os a transição de uma música para a outra. Ensaiam a mesma parte uma, duas e três vezes até conseguirem atingir o que para eles é a perfeição.

Os Falso Nove nasceram em dezembro de 2018 e começaram logo a compor músicas e letras, com o objetivo de completarem um álbum. Mas a covid-19 atrasou-lhes os planos. Não conseguiram gravar as músicas novas e os concertos que tinham agendados foram cancelados.

Nos dois anos em que o país e, sobretudo, a cultura e os espetáculos, estiveram em pause por causa da pandemia, a banda continuou a criar, a ensaiar e a procurar o quinto elemento, que lhes faltava: um baixista.

Mateus Carvalho divide-se entre Maastricht, onde dá aulas de Dieito; e Lisboa, onde ensaia com a banda Falso Nove. Foto: Carolina Salgado.

Mateus Carvalho explica que não tinham pressa, queriam encontrar a pessoa ideal. “Tocávamos com malta que tocava muito bem, mas não sabíamos exatamente do que estávamos à procura e por isso conduzimos o processo sem pressas. Sabíamos que para nós era importante a forma de ser da pessoa que iria juntar-se à banda, tinha de ser alguém que, para além da formação musical, soubesse viver na banda.”

Fizeram várias audições, até que um dia apareceu José Amoreira, 23 anos. Natural da Covilhã, é o mais novo dos Falso Nove, e está a terminar o Mestrado em Engenharia Física Tecnológica no Instituto Superior Técnico. A seguir, quer fazer outra licenciatura, desta vez na área da Música.

O baixista José Amoreira é o quinto elemento dos Falso Nove. Juntou-se em 2021 e a banda ficou competa. Foto: Carolina Salgado.

José tinha imensa vontade de estar em palco e sentir a vibração do público e quando soube que os Falso Nove estavam à procura de um baixista, não hesitou, apesar de confessar não ter adorado o estilo musical inicialmente. “Nunca tinha tocado ao vivo numa banda e queria essa oportunidade, por isso decidi arriscar. Quando começámos a ensaiar o meu gosto foi crescendo”, diz José Amoreira.

A dia 1 de maio de 2021, os Falso Nove apresentaram oficialmente, através das redes sociais, o seu baixista, José Amoreira. A banda estava completa.

Falso Nove à conquista de Lisboa

Apesar de os cinco elementos dos Falso Nove serem de zonas diferentes do país, encontraram em Lisboa o lugar deles. Uma cidade onde tudo acontece e tudo é possível e onde vivem as experiências que dão origem às músicas que criam.

Para Mateus, Falso Nove é um produto do que é Lisboa – “esta cidade é uma série de sensibilidades diferentes de pessoas diferentes e Falso Nove é isso. Não nascemos no mesmo bairro, alguns nem sequer em Lisboa, temos formas de pensar muito diferentes, mas fazem sentido juntas e isso é representativo da cidade.”

Para os Falso Nove, é importante conseguirem pôr as suas experiências nas músicas. Cada música é uma história. Uma história vivida por cada um deles, em Lisboa. Uma história que de certa forma marca a vida de cada pessoa. O ritmo a que é contada não importa, desde que consigam passar a palavra que pretendem: “Queremos valorizar o poema”, diz Mateus.

As letras e a composição das músicas estão a cargo de Mateus e de Afonso, mas as opiniões e ideias de todos os elementos contam. Juntos discutem temas que podem dar origem a novos sons. O dia a dia em Lisboa, a família, os amigos, os amores. Tudo pode acabar em canção. Contar histórias com poesia, através da música é o objetivo. “Muitas das músicas que escrevo são alusivas a fases que estou a viver e à forma como me sinto. Ou seja, como é que um jovem de 25 anos, em Lisboa, se sente em relação às dificuldades pelas quais está a passar”, diz Afonso Lima.

A música Cacos, aquela que a banda prefere interpretar em palco, fala sobre o dia a dia em Lisboa, a correria que se vive, sempre de um lado para o outro para no fim do dia sentirmos que não nos conseguimos relacionar profundamente com ninguém.

Além de inspiração para as músicas, Lisboa é para os Falso Nove o lugar onde estão as oportunidades de crescer enquanto banda, apesar das dificuldades de encontrar espaços de ensaio. “Nós vivemos mesmo no centro da cidade e numa fase inicial ensaiávamos num apartamento, onde tínhamos horas para começar e acabar. Isto não aconteceria em Lagos, de onde eu venho, até porque lá a minha casa era uma vivenda”, diz Afonso Lima.

“O problema de Lisboa é esse. Muitos locais para atuar, poucos para ensaiar”, diz Mateus Carvalho, que considera que “Lisboa só tinha a ganhar se disponibilizasse espaços para projetos culturais e start-ups”.

Para além da falta de espaço para ensaios, José Amoreira sente que o facto de viverem numa cidade grande é um fator prejudicial para a banda: “era muito mais fácil se morássemos a cinco minutos uns dos outros e nos conseguíssemos encontrar muito mais rapidamente, nem que fosse para ensaiar pequenas partes”.

No dia 2 de setembro ficou disponível um novo original: Febre em dois andamentos, uma música com dois ritmos musicais diferentes, mas que se interligam. A letra é a resposta a um monólogo acerca de um conflito interior. No primeiro andamento, há a perceção dos sentimentos e das preocupações que os membros da banda sentem. Da ansiedade, da incapacidade de exteriorizar as ideias e sentimentos, da dúvida sobre o futuro e da sensação de melancolia e desconforto. O segundo andamento representa o grito interior, o rebentar de todas as ansiedades e de todos os medos.

Para a banda Falso Nove, 2022 não fica pelos concertos em Lisboa e pelo resto do país. No final do ano, vai ser lançado o primeiro álbum da banda, cheio de histórias e vivências cantadas.


* Carolina Salgado nasceu em Guimarães há 22 anos. Mudou-se para Lisboa para estudar jornalismo. Até aí só tinha vindo à cidade uma vez, mas não demorou muito para se apaixonar por ela. Gosta de conhecer mais e melhor, ver histórias inéditas e procurar novas vivências. Estagiou na Mensagem de Lisboa. Este artigo foi editado por Catarina Pires.

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