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Fazia frio no dia em que os adolescentes João Prior, Inês Lima e Marta Martins saíram de Sacavém, no município de Loures, com um destino só: o Teatro Armando Cortez, em Carnide. Traziam consigo uma carta, a última esperança de cumprirem aquele que era o sonho deles: apresentar um musical sobre Marilyn Monroe.

Ao chegarem ao Teatro, deram de caras com uma porta fechada. Mas nem isso os parou: a carta que traziam foi empurrada para debaixo da porta e eles regressaram a casa, a pensar que o mais provável seria que a empregada de limpeza se livrasse da mensagem.

Mas não foi isso que aconteceu. Dias depois, recebiam uma chamada: o Teatro Armando Cortez queria reunir com eles. E assim começava a história do Teatro Àpriori, uma companhia formada por jovens e que tem hoje a sua sede na Cooperativa A Sacavenense.

A companhia Teatro Àpriori tem sede na Cooperativa A Sacavenense. Foto: Rita Ansone

O passaporte para o mundo do espetáculo

Por estes dias, João Prior, de 21 anos e um dos fundadores da companhia, anda num rebuliço para se certificar de que está tudo pronto para a estreia da segunda temporada do musical Hairspray no Teatro Armando Cortez. Na Cooperativa A Sacavenense, um grupo de miúdos ouve as suas indicações, num espaço decorado com cartazes coloridos, glitter e televisões dos anos 1960.

João não está sozinho. Ele tem a sua trupe: Inês, Marta, Leonardo Viana e Bárbara Nunes. Cinco miúdos com uma história para contar.

Há cinco anos, formaram esta companhia. Hoje, não são só atores e produtores: Inês já trabalha em solicitadoria e Bárbara quer seguir Medicina. Mas, para eles, o teatro está sempre lá.

Tudo começou em 2017, com a ideia da Marilyn Monroe. “Dizem que todas as boas histórias começam em garagens…”, diz Marta. Esta é uma delas, que começa na garagem de João, num dia 25 de abril, quando três alunos do ensino articulado da Escola da Bobadela e do Conservatório d’Artes de Loures se juntaram com essa ideia ambiciosa.

Eram eles João, Marta e Inês. “Não tínhamos um objetivo determinado, íamos estudando a hipótese”, explica João. Mas desde início que esta era uma hipótese com raízes: João, que aos dez anos pisara o palco do Politeama no musical Peter Pan, chegou àquele primeiro ensaio com um guião escrito e com canções da série Smash preparadas.

Inês Lima, João Prior e Marta Martins recordam o início da companhia. Foto: Rita Ansone

A estes três, juntaram-se Bárbara, que, embora mais nova, também frequentava o Conservatório d’Artes de Loures, e Leonardo, o único bailarino. E todas as semanas o espetáculo ganhava novas camadas.

Até que João, Inês e Marta se atreveram para lá do esperado. E esse seria um dia que mudaria as vidas deles para sempre: o Teatro Armando Cortez recebia-os de portas abertas.

O teatro que vem “sempre antes de tudo”

“Acolheram-nos como se fôssemos profissionais de top”, conta João. “Eles perceberam que éramos muito jovens e ajudaram-nos ao máximo”.

Iniciava-se uma nova etapa da vida deles, que passou também por fundar aquela que é hoje a companhia. O problema: o nome. “Estávamos na garagem do João quando alguém mandou para o ar ‘àpriori’ por causa do apelido do João, Prior”, explica Marta.

Mas o “àpriori” ganhou também um outro sentido: “Para nós, o teatro vem mesmo primeiro, à priori”, diz João. “É aquela borboleta mágica que está cá dentro e que vem sempre antes de tudo”.

O Teatro Àpriori nascia assim. E, com uma companhia fundada, estes jovens viram-se a braços com novas responsabilidades: como passar recibos, como resolver a questão dos direitos de autor e das traduções das canções…

“Tivemos ajuda de pessoas do Conservatório, que nos ajudaram com coisas mais burocráticas”, recorda Marta.

O logo do Teatro Àpriori, desenhado por Marta Martins. Foto: Rita Ansone

Tiveram ajuda, mas fizeram muito sozinhos: ao aperceberem-se de que não podiam apresentar um espetáculo com as canções em inglês, eles próprios traduziram-nas. E o culminar de tudo isto foi a grande estreia, em 2019, de Marilyn, O Musical, no Teatro Armando Cortez.

Porém, quando a cortina desceu sobre o palco, veio uma sensação agridoce: não bastava ficar por aqui. O que fazer agora com o Teatro Àpriori?

Ensinar os mais novos

A resposta chegou com a descoberta deste espaço devoluto na Cooperativa A Sacavenense: afinal, porque não contagiar os mais novos com o bichinho do espetáculo? “Percebemos que em Sacavém há muito pouca formação nesta área”, diz João. “Tudo o que há são pequenas companhias com alguns ensaios a preços exorbitantes”.

A equipa transformou este espaço e, em vésperas de pandemia, começaram a apostar na formação dos mais jovens na área do teatro, com aulas de interpretação, de canto, de dança.

Nem mesmo os confinamentos impediram que as aulas se realizassem, com o zoom a virar palco. Aliás, a procura foi tanta que hoje os alunos têm direito a uma aula por semana e ainda ao Laboratório de Teatro Musical, que se realiza aos sábados de manhã.

João Prior ensina o módulo de interpretação, dando a conhecer aos mais novos diferentes métodos teatrais. Inês ensina canto ensemble, uma forma de “unir as vozes” mas também de descobrir a verdade das canções.

Leonardo encarrega-se da expressão e movimento: “Não ensino só dança, as bases, mas também como estar presente em palco”. Marta, também ao lado de João, ensina os mais pequenos, num módulo que chamam “Kids”, e que conta com crianças a partir dos 6 anos.

Para além disso, a companhia tem apostado em diversos workshops e recentemente criou um departamento de técnica e criatividade. “Surgiu porque sou apaixonada pela área da produção, da maquilhagem, dos figurinos…”, diz Marta com um sorriso.

Luzes, câmara… Hairspray!

Entretanto, fechados em casa durante os confinamentos, os fundadores da companhia descobriram o musical Hairspray. “Ficámos apaixonados pela história, começámos logo a pensar nas pessoas que podiam participar”, recorda João.

E foi assim que – cruzando alunos das formações, com pessoas vindas de fora (todos sujeitos a rigorosas audições) – se começou a montar o Hairspray que estrearia em junho deste ano e que agora está de regresso.

É a história de uma adolescente com um problema de peso que, nos anos 1960, ascende ao mundo da televisão. E, tal como no espetáculo da Marilyn, o trabalho passou não só por produzir e encenar, como até mesmo por traduzir a história e as canções.

Uma história que não só aborda os estereótipos de beleza, como as lutas raciais nos EUA. “Poderíamos ter adaptado o espetáculo para Portugal, mas a dimensão desta peça não seria credível, em termos de questões sociais e raciais nos anos 1960…”, explica João.

O regresso do Hairspray está marcado para dia 20 de novembro. Foto: Teatro Àpriori

Entre a primeira e a segunda temporada deste musical, o Teatro Àpriori desenvolveu ainda um projeto sobre o futuro das cidades em conjunto com um coletivo de artistas plásticos, o Park.ARTE, e que levou à apresentação do espetáculo Aja Futuro.

Agora, apesar de o Hairspray ser a grande preocupação deles, a verdade é que há mais projetos na calha, como o regresso ao espetáculo da Marilyn e a produção de uma peça de teatro de revista com os alunos, não só porque facilita a questão dos direitos de autor, mas também “para valorizar a nossa cultura”, diz Inês.

Mas os sonhos são ainda maiores para estes jovens. Um dia, gostavam mesmo de compor o seu próprio espetáculo. A ideia parte sobretudo de João: “Gostava de um dia fazer um musical de raiz sobre a vida dos meus avós”, diz ele. “Eles são donos de uma retrosaria e o meu avô era marinheiro. Já estou a imaginar os marinheiros em cena a fazer sapateado!”.

Ainda sem apoios, o Teatro Àpriori lançou uma campanha de GoFundMe. Para ajudar, carregue aqui.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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