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Gilles é francês e tem um wine bar com a mulher Amandine na Baixa de Lisboa. Para já, nada que fizesse soar o alarme do eh-pá-isso-é-uma-boa-história, até que lá pelas tantas Gilles comenta que é também músico, e mais do que isso, um músico dono de um repertório com mais de mil músicas e o nome creditado em 50 discos.

Foi a senha para a “boa história” afastar os copos de tinto da mesa e tomar de assalto a despretensiosa conversa numa quente noite lisboeta.

Gilles foi apresentado por uma amiga em comum, igualmente interessada em apresentar o bistrot do casal francês, o Madame Bacchus, um charmoso wine bar na rua de São Mamede, de ambiente intimista, ementa elegante com toques vegetarian friendly e uma carta de vinhos a sério.

Gilles Cardoni empunha a guitarra elétrica, o seu instrumento de trabalho: dono de um bar part time e músico full time. Foto: Rita Ansone

Um sítio com potencial para uma boa história, mas convenhamos, cinquenta discos e mil músicas são um elefante demasiadamente grande para passar despercebido e foi assim que o cenário repentinamente mudou de uma mesa no wine bar da Baixa para o estúdio na sala de um T3 no Campo dos Mártires da Pátria.

Jam session no ADN e estúdio home office

É lá, no seu estúdio home office, que dias depois Gilles torce a tarraxa na ponta do braço da guitarra elétrica em busca da afinação perfeita, enquanto a outra mão desliza pelas cordas. Quem observa tudo é Arlindo, um dos dois gatos do casal de Gilles e Amandine. O processo leva poucos minutos até as primeiras notas ecoarem pela sala-estúdio nos alegres acordes de um samba.

O estúdio do músico francês, adaptado a uma sala de um apartamento T3 no Campo dos Mártires da Pátria. Foto: Rita Ansone

Gilles Cardoni nasceu em Cartago, na Tunísia, em 1972, filho de pai siciliano e mãe belga, um georreferenciamento afetivo em estilo jam session que ajuda a ilustrar a trajetória deste músico multi-instrumentista, desde o início da carreira, aos 20 anos, em Paris, com escalas em Los Angeles, no Rio de Janeiro e agora, em Lisboa.

Em 30 anos de profissão, o francês diz ter o nome creditado em mil e duzentas músicas, compostas a solo e em parcerias, grande parte delas editadas em cerca de meia-centena de discos. Em média, são 50 músicas por ano, uma produção intensa e diversa, que transita pelo rock, bossa nova, samba, house, pop e bandas para filmes, séries de televisão e games.

“Já tive músicas em episódios de Dexter e dos Simpsons”, conta o francês, que confessa ter dificuldades em traçar os caminhos da própria obra, espalhada em diversas livrarias digitais geridas pela gigante BMG, que adquiriu a editora AXS Music, com a qual Gilles costuma trabalhar.

“Já tive músicas em episódios de Dexter e dos Simpsons.”

Gilles Cardoni

“Na prática, a AXS e a BMG fornecem as músicas a produtoras de filmes, jogos, séries e até a telejornais. Só percebo onde elas foram parar quando recebo a lista dos royalties no fim do mês”, explica o músico, que nestas três décadas diz ter conseguido viver basicamente dos direitos de autor.

Como forma de disponibilizar um portefólio, Gilles mantém uma fração do repertório no Spotify, um “best of”, como chama à lista de reprodução com uma centena de músicas, atualizada frequentemente com antigos e novos trabalhos.

O teclado sintetizador em que Gilles compõe sambas, rock, jazz, house a bandas sonoras para video games. Foto: Rita Ansone.

Com os discos, a situação é semelhante. O francês ainda guarda uma dezenas deles em CDs no apartamento, mas com a dispersão provocada pelo fim dos produtos físicos e o efeito-Spotify, é mais fácil seguir os trabalhos que compôs sozinho ou em parcerias.

Além das músicas disponíveis em audio libraries, Gilles também produz por encomenda. No dia da entrevista, estava a finalizar duas bandas sonoras para um vídeojogo de artes marciais. “Esta é para quando o personagem perde no jogo”, explica, teclando no sintetizador da sala-estúdio uma triste melodia com toque oriental.

O processo de criação do francês geralmente é simples e rápido, o que explica as mil e duzentas – e sempre contando – músicas assinadas. “A maioria leva um dia ou dois a ficar pronta. Há também, claro, outras que ficam a martelar na cabeça por mais tempo, mas é raro”, diz, enquanto tira do sintetizador a acelerada banda para a cena de luta do personagem no vídeojogo.

Se o sintetizador é um velho conhecido de Gilles, um parente próximo do instrumento, o piano, entrou para o estúdio há bem pouco tempo, mais precisamente quando o francês se mudou para Lisboa, em 2014. “Arriscava alguma coisa, mas comecei a levar a sério, mesmo, após conhecer o Pablo Lapidusas”, lembra.

Arlindo, o gato baptizado em homenagem a um sambista carioca, caminha pelo estúdio, durante a entrevista de Gilles. Foto: Rita Ansone

O Pablo Lapidusas em questão é o jovem pianista e professor argentino que viveu no Brasil e hoje está radicado em Portugal. Foi através dele que Gilles passou a ter aulas em Lisboa. “O Pablo é um génio e toca de forma alucinante”, elogia. As lições de piano continuam, embora com outra professora, menos alucinantes e mais dedicadas ao piano clássico.

O respeito pelo novo membro da família é tão grande que Gilles por ora costuma reservar os recitais no imponente piano de parede apenas a um restrito grupo de amigos. Para além disso, o instrumento é utilizado com menos reverência pelos gatos Arlindo e Nina, como apoio para as sestas.

Guitarra em Los Angeles, pandeiro no Rio

Foi a mesma necessidade de aperfeiçoamento que levou Gilles à sua primeira escala: Los Angeles.

“Vivi quase nada em Cartago, onde nasci. Os meus pais mudaram-se logo para Hyères, no sul da França e, em seguida, para Paris”, conta. Na capital francesa, o músico morava no boémio bairro de Montmartre, onde arriscou os primeiros acordes e decidiu ser músico, aos 20 anos.

A guitarra elétrica foi o instrumento por onde Gilles entrou na carreira de músico, aperfeiçoado numa temporada nos Estados Unidos. Foto: Rita Ansone.

“Sabia que se quisesse viver da música tinha de me aperfeiçoar e fui passar um tempo em Los Angeles, estudando no The Guitar Institute of Technoly (GIT), do Musicians Institute”, conta.

O regresso a Paris marcou o início da carreira profissional, na primeira banda que formou, o trio Harry Morse Project .“Lançámos um disco chamado Love Bombing, essencialmente com house music e big wave. Fizemos vários concertos na Europa e até no Caribe. Foi divertido”, lembra.

Embora divertida, a vida em Paris não foi o suficiente para impedir que Gilles partisse para um novo destino. “Fui de férias ao Rio de Janeiro e me apaixonei pela cidade. Acabei por ficar”, conta, no seu português com sotaque brasileiro.

Foi no Rio que Gilles virou “Gil”, alcunha pela qual é conhecido entre os mais próximos, inclusive em Lisboa. Na capital carioca também foi apresentado ao samba e aos instrumentos que o acompanham, como o pandeiro e o cavaquinho, hoje companhias do sintetizador, piano e guitarras na sala-estúdio.

“Decidi que vou voltar para o Rio quando estiver bem velhinho, para acabar os meus dias.”

Gilles Cardoni

A temporada brasileira foi de 2006 a 2008, seguida de um novo regresso a Paris. “Continuei a viajar constantemente para o Rio. Decidi que vou voltar para lá quando estiver bem velhinho, para acabar os meus dias”, confessa.

Mesmo distante do Brasil e ainda longe de acabar os dias, Gilles mata as saudades do Rio através do samba, que costuma tocar nas eventuais micro rodas de samba no Madame Bacchus, na companhia dos músicos Marcelo Mendes e Micheline Cardoso.

O samba também circula e ronrona pela casa no ritmo da passada preguiçosa do gato Arlindo. “Ele chama-se Arlindo em homenagem a Arlindo Cruz, um dos grandes sambistas do Rio de Janeiro”, revela, enquanto faz uma festa no felino como se tocasse um felpudo cavaquinho.

De volta a Paris, Gilles e Amandine foram apresentados a Lisboa por uma amiga portuguesa. Assim como aconteceu em relação ao Rio de Janeiro, após uma visita à cidade, o casal decidiu mudar-se. “Estava de saco cheio de Paris e Lisboa estava ali, no meio do caminho entre a França e o Brasil”, diz.

“Lisboa é fantástica, mas ainda sinto dificuldades em me relacionar com a cena musical local.”

Gilles Cardoni.

O casal aterrou na cidade em 2014. Três anos depois, abriu o Madame Bacchus, hoje gerido em grande parte pela mulher, Amandine Portugal, adaptada ao novo país desde o apelido. Para Gilles, o wine bar é menos trabalho e mais uma forma de descansar a cabeça e dedicar-se a outros prazeres, como o vinho e conhecer pessoas, como nesta entrevista.

Da nova cidade, o músico guarda apenas uma ressalva:

“Lisboa é fantástica, mas ainda sinto, mesmo depois de tanto tempo aqui, dificuldades em me relacionar com a cena musical local, como aconteceu no Rio de Janeiro. É ainda um círculo fechado, o que é uma pena, pois poderia produzir ainda mais”, diz.

Produzir ainda mais?

Gilles apenas sorri e dá de ombros. Afinal, para esse francês lisboeta, compor parece um gesto tão simples, rápido e prazeroso como esvaziar um copo de um bom tinto.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 50 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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