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Há uma coisa que só acontece em Lisboa: elétricos empancados à espera de que os donos dos automóveis largados sobre os carris retornem ao veículo. Os passageiros reclamam contra a falta de respeito, o motorista põe a cabeça de fora e grita “seu camelo”, a vendedora dos jornais interpela o turista parado no multibanco, apontando o carro, o turista encolhe os ombros e diz “não percebo” na língua dele, as empregadas domésticas a caminho da Estrela atrasam-se, pelo menos dez camisas brancas não são engomadas nesse dia por falta de tempo – uma ou duas delas perdem o emprego e são deportadas pelo SEF.

Até que surge alguém afogueado, bochechas tingidas, braços no ar e, com os nervos, deixa o carro ir abaixo à primeira.

O que faria alguém urdir para ter toda a cidade a olhar para ele. O gesto é tão ostensivo que só pode ser feito à margem de uma solidão grande. Por isso concordei com o rapaz que, sentado ao meu lado no banco do elétrico, comentou ao se ver bloqueado por um chaço-velho: “Deve ser escritor”.

Brandão dizia que a dor e o sonho são inerentes e obrigatórios para o processo de escrita. Pois eu acho que a solidão é, sem dúvida, o elemento obrigatório. Na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grandioso, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é, defendia Schopenhauer. E a escrita nasce da solidão porque o pensamento dá-se na solidão em toda a excelência do seu excesso.

A solidão de um escritor é tão exibicionista como andarmos de braguilha aberta na rua. Normalmente não damos por ela, é uma evidência aos olhos dos outros. Quando percebemos que os outros se aperceberam, ficamos extremamente envergonhados.

Mas não conseguimos deixar de andar na praça pública a mostrar-nos por dentro, a mostrar as nossas partes íntimas, a cor da nossa vida interior, que por norma não é de cetim, não tem rendas e muito menos está lavada e passada de fresco.

E para o escritor – e por causa da sua solidão – escrever é uma forma de pedir amor. De uma forma errada, às vezes, estacionando em cima da linha do elétrico. O que faz dos escritores, convenhamos, uns palermas patéticos. Iguais a quaisquer outros.

Numa entrevista, Clarice Lispector, a escritora, perguntou a Vinícius de Morais, o compositor brasileiro, grande escritor e letrista e grande mulherengo (há uma história de quando ele veio a Lisboa nos anos 60 passar o Natal e gravar um disco com a Amália, a Natália Correia, o David Mourão-Ferreira, toda essa gente, e a mulher da altura atirou-lhe com um castiçal de prata à cabeça por ciúmes):

Clarice: Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?

Vinícius: Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.

Clarice: Isso explicaria o facto de você amar tanto, Vinícius.

Vinícius casou nove vezes e não matou a solidão. Por isso, fez música até morrer.

Estava perdida nestes pensamentos, quando alguém, lá no fundo do elétrico sugeriu que matássemos o sacana. “Vamos matar o escritor, vamos matar esse sacana inútil”, foram estas as palavras de um sujeito com um riso fino de ratazana velha.

A proposta pareceu-me tão revoltante que me emudeceu, mas – para meu espanto – já se formava uma onda de concordância entre a maioria dos passageiros. Aqueles que aparentavam ser utentes regulares eram os principais defensores e gritavam argumentos favoráveis ao homicídio.

A solidão do escritor era a razão que mais pesava, a sua misantropia faria com que nenhum transeunte lhe deitasse a mão em auxílio, até seria provável que alguns agarrassem no que houvesse ali por perto para ajudarem a terminar o serviço.

Outros – uma rapariga com uma grande fenda entre os incisivos frontais e uma imigrante negra de olhos amendoados – lembraram a aversão crónica que o escritor tinha aos horários, o que redundava no total desrespeito pelos outros que conjuravam uma vida planeada e cumpridora das obrigações sociais e patrióticas.

Ninguém temia represálias, os escritores são sempre postumamente mais acarinhados, quando não são esquecidos. Aventei que talvez quisessem matar o escritor porque a solidão dele os recordava da sua própria solidão. Uns não me ouviram e outros ameaçaram-me até que me calasse.

Faltava definir o plano. O ataque coletivo simultâneo pareceu-lhes imprudente e era preferível encontrar uma arma a prosseguir numa luta corpo a corpo. Ninguém parecia muito interessado em tocar no escritor.

O homem com o sorriso fino de ratazana velha tirou de dentro de uma pasta brilhante de couro uma pequena navalha de bolso já ferrugenta na lâmina. Todos concordaram que as condições do metal não eram as melhores para um corte da carótida. Em vez de degolarem o escritor, iriam furar-lhe o abdómen, um pouco abaixo do esterno, aumentando as probabilidades de atingirem um órgão vital.

Estavam indecisos sobre se aplicariam o golpe do lado direito, privilegiando o rim e o pâncreas, ou do lado esquerdo, furando o fígado, quando a imigrante de olhos amendoados anunciou, sem se conseguir conter, que acabava de ganhar o Euromilhões. Depois de um silêncio invejoso, alguém comentou que um milionário por acaso era um ser humano mais deplorável do que qualquer escritor e depressa se formou nova onda de concordância entre os passageiros. Suspirei de alívio.

Ainda bem que assim aconteceu, porque, quando o sujeito do carro que nos atravancava o caminho se abeirou do veículo e o colocou em marcha, conclui rapidamente que não se tratava de um escritor.

O que seria ter, naquele dia, participado da morte de um inocente!


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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