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Não quis ficar a ver a vida a acontecer. Sebastião Martins tinha acabado de se formar médico e, depois de anos dedicados aos livros, aos exames e aos internatos, não correu a candidatar-se a um hospital, correu para onde sentia ser mais necessário: o campo de refugiados de Lesbos, na Grécia, onde se encontravam imigrantes de várias geografias difíceis. Foi lá que encontrou o mote para aquele que seria um dos seus maiores projetos de vida, chegado até ele num sotaque bem francês.

Sebastião Martins, 27 anos, é médico e apaixonado por teatro. É dele a ideia da obra “Une histoire bizarre”

Corria 2019, não era um ano diferente em números para as migrações que ali desaguavam, em Lesbos. Jovens, crianças, adultos, idosos, vindos de vários pontos do mundo, todos os dias. Mas, entre todos, Sebastião não hesita ao escolher a pessoa que mais o marcou. Ela, uma senhora, vinda do Congo, à procura de alguém que falasse francês. Ele, com o francês na ponta da língua, arranca: “Então, conte lá como chegou aqui”. “Uh”, terá suspirado. “Une histoire bizarre” (“uma história bizarra”), respondeu.

O momento daria título, dois anos depois, à peça de teatro que o jovem médico e entusiasta do teatro, Sebastião Martins, criou e que chega nos próximos dias 7 e 8 de maio, ao Auditório Santa Joana, em Alvalade. Uma obra que põe em palco histórias reais e interpretadas pelos seus verdadeiros protagonistas: 14 imigrantes chegados de nove países diferentes contam como encontraram em Lisboa um refúgio à guerra e à falta de oportunidades, e um lugar para os sonhos.

Entre eles, no palco, um menino que habitava naquele campo de Lesbos, sozinho, quando Sebastião lá esteve: Mahdi Qarbani, hoje com 17 anos, aos 14 fugido do Irão, sem a família.

Mahdi Qarbani, 17 anos, conta como fugiu aos 14 anos do Irão, deixando os pais para trás, por não acreditar num futuro naquele país. Foto: Rita Ansone

“Ter quem nos oiça pode ser transformador”

Depois do suspiro, a mulher do Congo com quem Sebastião se encontrou não demorou nada até responder realmente à pergunta dele. “Foi a primeira vez que ela encontrou um espaço para falar, um lugar seguro para contar a sua história. Marcou-me muito. Aquela mulher fez-me perceber como ter alguém só a ouvir pode ser transformador.”

A esta lição, juntaria uma das suas artes de eleição. “Quando cheguei a Portugal, uma parte de mim sentia que a missão continuava fora dos campos.” Então, em setembro de 2019, numa mesa de café na Cantina Velha (Universidade de Lisboa), sentou-se com o Julio Martín (encenador) para, juntos, pensarem numa peça de teatro que contasse histórias reais de migrações e imigrantes.

Em palco, cada um destes imigrantes vai contar a sua viagem até chegar a Portugal. Foto: Rita Ansone

O palco não lhe é estranho. Afinal, Sebastião Martins tocou violino no Conservatório desde os quatro anos, tinha grupo de teatro com amigos na escola e alargou a paixão à faculdade, com pequenos projetos teatrais, onde conheceu o encenador Julio.

Daí até à concretização foi um pequeno passo. No início de 2020, ainda a pandemia não tinha rompido e já eles fechavam conversas com organizações que prestam apoio a refugiados e imigrantes em Lisboa, para lhes fazerem chegar futuros atores. Com ou sem habilidade, apenas com o requisito de ter uma história.

Chegaram 14. Cada um com a sua história bizarra.

“Estavam todos a chorar. Não percebo porquê”

Em contagem decrescente para o primeiro espetáculo em Lisboa, depois de um em Sintra e outro em Cascais, atores e equipa técnica juntam-se numa roda para limar detalhes. “No último espetáculo, senti que não queria sair do palco”, desabafou o jovem Mahdi. “Bem-vindo ao clube”, atira Helena Reis, uma das pessoas que os ajuda na interpretação, voz e música. Ela sabe bem o que o palco traz. É como uma droga: “dois gramas de palco, por favor”, ri Mahdi.

Para ele, nunca foi um sonho. É, sim, para Lana Alqarnwi, por exemplo. Esta mulher iraquiana de 34 anos que trabalhava como jornalista no país onde nasceu, até começar a ser ameaçada de morte pelos artigos que escrevia e ser obrigada a fugir, há três anos, para Portugal. Já tinha feito teatro no Iraque, nada demais, até porque a repressão contra as mulheres no seu país não deixa, mas o que ela quer é ser “uma atriz das famosas”.

Lana Alqarnwi, 34 anos, era jornalista no Iraque, de onde teve de sair depois de ter sido ameaçada de morte. Foto: Rita Ansonse

Já a Madhi Qarbani a fama parece não dizer muito. Do que ele gosta mesmo é da adrenalina que o palco lhe dá e como isso o faz sentir-se vivo, depois de tantas experiências que puseram a sua vida em risco.

Tinha feito 14 anos quando saiu do Irão, sem os pais. É filho de afegãos, mas foi no Irão que nasceu, depois de os pais terem fugido à guerra. Por isso mesmo, Mahdi nunca viu o Afeganistão senão em imagens na TV, mas era afegão que ele dizia ser, em honra das raízes que os pais foram obrigados a abandonar.

Afegão que é afegão, no Irão encontra a vida dificultada, conta. São barrados no ensino superior, não podem comprar casa ou carro. “Não temos futuro nem vida boa”. Então, aos 14 anos, já dono de si, apresenta a proposta de fuga aos pais: “disse-lhes que tinha duas opções – ou ir para a guerra combater pelo Daesh (Estado Islâmico) ou ir para a Europa à procura de uma vida boa”. Era para lá que já tinham ido tantos dos amigos dele.

E os pais deixaram um filho de 14 anos sair do país sem eles? “Um rapaz de 14 anos afegão não é um rapaz normal”, respondeu.

Mahdi esteve um ano no campo de refugiados de Lesbos, na mesma altura em que Sebastião Martins lá esteve e lá formou a ideia deste espetáculo, sem imaginar que Mahdi faria parte dele. Foto: Rita Ansone

Através de um casal amigo da família, Mahdi preparou-se para sair do país – ilegalmente. “Lembro-me que eles avisaram os meus pais: ‘atenção que há muita gente que morre nesta travessia, não nos podemos responsabilizar pela vida do vosso filho'”.

Mahdi viu, de facto, muita morte até chegar a Portugal. “Mas era melhor tentar, porque viver no Irão era viver para nada.”

Passou pela Turquia, de carro, onde foi detido e acabou por dormir uns dias numa prisão. Dali, apanhou boleia de um barco que conta ser de nove metros e onde iam 40 pessoas a bordo. A julho de 2019, atracou na Grécia, onde esteve um ano: a dormir na rua e, depois, no campo de refugiados de Lesbos. Aí, já separado do casal que lhe deu boleia.

Um dia, na TV do campo, Mahdi foi surpreendido pela informação de que estavam a encaminhar jovens imigrantes menores para outros países. “Esperei todos os dias por ouvir o meu nome no altifalante.” Até que ouviu. Foi chamado e, numa mesa, estenderam-lhe o mapa mundo. “Escolhe”, terão dito. O “mais longe possível”, pediu-lhes. Em julho de 2020, um ano após a chegada a Lesbos, é em Portugal que entra, quando o mundo ainda aprendia a viver com uma pandemia.

Hoje, tem um quarto, está a ser acompanhado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, está a estudar informática no ensino secundário e diz estar “muito feliz”. Sobretudo desde que descobriu o prazer de subir a um palco.

Aqui, conta a sua história, ao lado de outros exemplos de superação. Mahdi falava agora com os colegas de cena sobre a reação do público aos outros dois espetáculos que já fizeram. Mostra-se impressionado com as lágrimas. “Estavam todos a chorar. Não percebo porquê.”

Imagens do espetáculo em Sintra

A ambição de ser mais do que um refugiado

Confiança é a palavra-chave para construir um espetáculo destes, diz Sebastião Martins. Tudo era novo, não podiam esperar que todos estivessem preparados para contar a história em palco. “Parte das histórias só as conhecemos depois de 4 meses com eles”, conta.

Outras chegaram há cerca de dois meses. Como é o caso da de Marina Burdieieva, ucraniana de 35 anos, chegada da guerra. A criação deste espetáculo acompanha o ritmo do mundo, das pessoas, das viagens de migração que fazem. E, neste caso, revela Sebastião, “é impressionante como parecia que havia um espaço para a história dela, desde o início.”

Jan Gomes, que presta apoio na expressão teatral e interpretação, dá dicas sobre o próximo espetáculo, este em Lisboa. Foto: Rita Ansone

O que vemos em palco é resultado de muita conversa e discussão de equipa. “Nem eu nem o Julio chegávamos ali com uma ideia para concretizar, decidíamos tudo em conjunto. Isso é confiança.” Confiança e compreensão: saber olhar o outro à imagem das suas vontades.

Há uma vontade que Sebastião diz ter concluído ser a de todos: “esta ideia de querer ser mais do que refugiado ou imigrante”.

Assim confirma Modou Lamin, 29 anos, vindo da Gâmbia com o sonho de entrar num filme e o sonho da “unificação”, como tantas vezes repete. E Bushra Shhadah, 35, uma mulher síria que sabe que só uma bolsa ou um contrato de trabalho a poderiam fazer sair do país de onde ninguém parece querer receber refugiados (conseguiu, viajou com uma bolsa para Portugal, há três anos). E Márcia Dava, 37, moçambicana. Ela que, formada em Direito, teve de largar tudo pela saúde da filha e vir viver para Portugal, à procura de tratamento. Trabalha em geriatria, longe de ser o que sonha, mas no país com que, afinal, sempre sonhou. “Cada vez que acordo, nem acredito que estou aqui.”

No palco, sentem que os sonhos, esses gigantes que não ficaram pequenos com a fuga para outro país, são finalmente ouvidos.

“Une histoire bizarre” está em cena em Lisboa, no Auditório Santa Joana, em Alvalade, nos dias 7 e 8 de maio. Depois, a 11 de junho, em Carnaxide, no Auditório Municipal Ruy de Carvalho.
Conheça toda a equipa por trás deste espetáculo aqui.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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