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“Independência ou morte!”, terá gritado D. Pedro IV nas margens do rio Ipiranga, na atual cidade de São Paulo, no Brasil, perante a notícia de que as cortes de Lisboa reduziam o seu poder enquanto príncipe regente. Este ano passam 200 anos desde esse acontecimento, símbolo de um ainda maior: a independência do Brasil.

E que melhor forma de o celebrar se não prestando tributo aos livros que contam a história desse país? Foi isso que a Folha de São Paulo fez, (o jornal parceiro da Mensagem no projeto de jornalismo em português), levando à prática um ideia original lançada pelo empresário José Manuel Diogo, fundador da Associação Portugal Brasil 200 anos e o Projeto República (núcleo de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), coordenado pela historiadora Heloisa Starling.

O objetivo: a criação de uma lista de 200 livros que melhor dessem a entender o Brasil. 

No dia Dia Mundial da Língua Portuguesa, a lista foi publicada. São 200 livros, cada um com uma “visão diferente, uma interpretação nova da realidade brasileira”, explica Naief Haddad, repórter especial da Folha de São Paulo e um dos coordenadores do projeto.

Na lista figuram autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Lima Barreto, Machado de Assis. E uma obra lidera: Quartos de Despejo de Carolina Maria de Jesus. Um livro que foi indicado por 29 dos 169 conselheiros que participaram no projeto, que selecionaram três ou mais livros e justificaram as suas escolhas.

Desses 169 conselheiros, três têm ligações à Mensagem: Ferreira Fernandes, Afonso Reis Cabral e Kalaf Epalanga.

Alguns dos livros contemplados na lista do projeto 200 anos, 200 livros. Foto: Gabriel Cabral/Folhapress

Historiadores, antropólogos, romancistas, economistas e juristas, maioritariamente do Brasil, mas também de Portugal, Angola e Moçambique, contribuíram para a seleção.

“O principal critério de escolha para os conselheiros foi a diversidade”, diz Naief Haddad. “Diversidade de raças, mas não só, também apostámos na diversidade regional, de países e de áreas”.

De um diário das favelas à descoberta do Brasil

Em 1958, o jornalista Audálio Antas passava pela favela de Canindé, em São Paulo, à procura de histórias. O que lhe aconteceu a seguir não segue o protocolo habitual: o jornalista encontrou a história já escrita.

Escrita nas palavras de Carolina Maria de Jesus, mãe solteira de três filhos e catadora de lixo, que lutava pela sobrevivência da família recorrendo a um aliado: o seu diário.

Carolina Maria de Jesus escreveu um diário enquanto vivia na favela que ocupa o 1º lugar na lista dos 200 livros que melhor dão a entender o Brasil. (18.11.1960. Foto: Acervo UH/Folhapress)

O diário virou reportagem na Folha de São Paulo e, em 1960, transformou-se em livro. Aquele que hoje surge em primeiro lugar nesta lista: Quarto de Despejo. Um relato das vivências na favela.

“Acho que foi uma grande surpresa, mas uma surpresa positiva”, conta Naief Haddad. “Este é um livro que já tem sido mais reconhecido nos últimos anos, mas a lista consolida-o como um dos mais importantes livros da literatura brasileira”.

Uma lista que parte das favelas e passa pela descoberta do Brasil, com a carta que conta o pouco que se sabe sobre a viagem de Pedro Álvares de Cabral ao Brasil a surgir em 50º lugar: A Carta de Pêro Vaz de Caminha de 1 de maio de 1500, publicada no Brasil em 1817 como parte da Coreografia Brasílica de Manuel Aires de Casal.

Pelo meio, figuram as Memórias Póstumas de Brás Cubas, um retrato da escravidão contado pela voz de um defunto e assinado por Machado de Assis, uma das escolhas do escritor Afonso Reis Cabral, O Genocídio do Negro Brasileiro, uma crítica ao racismo no Brasil com autoria de Abdias Nascimento, parte da seleção de Kalaf Epalanga, e Carmen, biografia de Carmen Miranda por Ruy de Castro, indicada por Ferreira Fernandes e a partilhar o 50º lugar com Pêro Vaz de Caminha.

São tudo obras que permitem entender o Brasil e que falam sobre a sua História e as suas memórias. Mas são também “livros que dizem muito sobre a relação entre o Brasil e Portugal”, especifica o repórter da Folha de São Paulo. Mais, são livros com significado para todos aqueles que falam a língua portuguesa.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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