Foto: Estúdio Horácio Novais - 25 de Abril de 1974 Fonte: Flikr

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Paulo Cuiça desfralda uma folha de papel e exibe os frondosos ramos das árvores genealógicas dos reis, rainhas e outros nobres de Portugal. O mapa é um item fundamental para entender as raízes das principais revoluções portuguesas, no passeio que este mediador cultural vai guiar, em 90 minutos, percorrendo seis séculos de traições e acordos palacianos, bispos defenestrados e tanques nas ruas, da Crise Dinástica de 1383 ao 25 de Abril.

O povo está na rua! é a atividade sugerida pelo Museu de Lisboa para o 25 de Abril, uma caminhada pela Lisboa histórica, do Teatro Romano à Praça do Comércio, com desvios pelo Rossio e a Praça do Município e, se o ritmo dos participantes permitir, uma esticada até o Largo do Carmo.

O mediador cultural do Museu de Lisboa, Paulo Cuiça: guia do passeio com direito a um suposto antepassado conspirador. Foto: Líbia Florentino.

1. Teatro Romano – Alfama

Embora o Teatro Romano seja apenas o ponto de encontro para os participantes, Paulo não perde a oportunidade de lembrar que as revoluções acompanham a história da cidade desde os tempos dos Césares.

“Os gladiadores, apesar do glamour da ficção, eram propriedade de alguém, eram escravos, portanto”, lembra, sobre o facto de, à época, Lisboa até ser a Felicitas Julia, mas não necessariamente feliz para todos.

2. Centro de Estudos Judiciários – a primeira revolução popular

O prédio do Centro de Estudos Judiciários, onde antes do terramoto estava o Paço dos Infantes. Foto: Líbia Florentino.

A cem metros do teatro, os séculos passam e da Lisboa romana já se está em 1383, a primeira escala das revoluções do roteiro. Onde hoje se avista o prédio do Centro de Estudos Judiciários, antes do terramoto estava o Paço dos Infantes, palco da chamada Crise Dinástica de 1383-1385, a primeira revolução de relevo popular lisboeta.

A referida crise foi provocada pela vacância no trono de Portugal, após a morte de D. Fernando I, em 1383, o último monarca português da Casa de Borgonha. Também conhecido como “o Formoso” ou “o Inconstante”, a junção das duas alcunhas resultou no casamento com Leonor Teles, mesmo sendo Leonor… já casada, e num matrimónio sentimentalmente pouco constante.

As batalhas contra os espanhóis durante a Crise Dinástica de 1383-1385. Pintura de Constantino Sobral Fernandes (1878-1920)/Museu de Lisboa.

Entre a formusura e a inconstância, D. Fernando I não teve tempo para gerar herdeiros e a morte dele acabou por deixar um vácuo no trono. O interregno, claro, fez soar o alerta, pois os espanhóis logo se animaram em preencher esse vazio, estimulados pela simpatia de D. Leonor à ideia de que o genro, D. João I de Castela, casado com a filha, D. Beatriz, fosse coroado.

A simpatia de Leonor Teles pelos espanhóis estendia-se ao Conde Andeiro, um fidalgo galego que teria tido um tórrido romance com a rainha.

A simpatia de Leonor Teles pelos espanhóis ia além do genro de Castela e estendia-se ao Conde Andeiro, um fidalgo galego que as más línguas da época garantem ter tido um tórrido romance com a rainha, inclusive, aquecendo o leito real enquanto o rei agonizava no aposento ao lado. Após a morte de D. Fernando I, a frágil discrição mantida entre os amantes teria sido sepultada com ele.

Estava, então, armada a tempestade perfeita.

“A ameaça de um amante espanhol ocupar o trono desagradava a burguesia e a nobreza, que passou a apoiar o Mestre de Avis”, explica Paulo, desfolhando mais uma vez as árvores genealógicas, lembrando que o Mestre de Avis era na verdade D. João I, que viria ser o décimo rei de Portugal, o primeiro da Casa de Avis.

Filho de D. Pedro I com uma de suas amantes, D. João I foi alçado a rei nas cortes de Coimbra em 1385, e partiu para Lisboa com o propósito de vingar a maculada honra de D. Fernando I, o seu meio-irmão. E assim o fez, assassinando o Conde Andeiro, o amante de D. Leonor, no Paço dos Infantes.

O rei casar-se-ia dois anos depois com Filipa de Lencastre, estabelecendo o Tratado de Windsor, entre portugueses e ingleses, a aliança mais antiga da história.

Para uma revolução completa, faltava a participação popular, o que foi resolvido pelos conspiradores Nuno Álvares Pereira e Álvaro Pais. “Eles espalharam pelas ruas que quem havia sido assassinado fora o Mestre de Avis e a população correu ao palácio, ameaçando incendiá-lo”, explica Paulo Cuiça.

A fake news funcionou e com o povo ao seu lado, D. João I conseguiu assegurar o trono de Portugal aos portugueses. O rei casar-se-ia dois anos depois com Filipa de Lencastre, estabelecendo o Tratado de Windsor, firmado entre portugueses e ingleses, desde então a aliança mais antiga da história, ainda em vigor até hoje.

Um final feliz, mas não para todos.

3. Sé – a defenestração lisboeta

A janela abaixo do relógio da Sé, onde os conspiradores atiraram o biso de Lisboa durante a revolução de 1383. Foto: Líbia Florentino.

Diante da Sé de Lisboa, a segunda paragem do passeio, o mediador cultural aponta para uma das janelas da catedral. “Durante a revolta popular, os lisboetas acabaram por atirar o bispo de Lisboa por aquela janela, que ainda viria a ser devorado pelos cães”, conta, revelando o fim dramático do catalão Dom Martinho de Zamora, o primeiro defenestrado de uma revolução portuguesa

Mas não o único.

4. Terreiro do Paço – muitas revoluções

A caminhada segue até a Praça do Comércio, testemunha das revoluções que se seguiram, como a Restauração da Independência, em 1640, novamente travada entre portugueses e espanhóis, com um detalhe importante em relação à Crise Dinástica: agora, os vizinhos ibéricos já ocupavam o trono de Portugal.

A Praça do Comércio testemunhou três grandes revoluções, desde os tempos que abrigava o Paço Real. Foto: Líbia Florentino.

Novamente, é preciso recorrer às árvores genealógicas na papelada de Paulo Cuiça para costurar os factos que se iniciaram com o desaparecimento de D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir, em 1578, e se seguiram com a União Ibérica e a dinastia filipina castelhana e suas numerações que divergiam ao cruzar da fronteira, o que fazia o Filipe II em Espanha ser o Filipe I em Portugal, e assim por diante.

A revolução que culminou na Restauração novamente contou com o apoio da população, estrangulada pelos altos impostos cobrados por Madrid.

A paragem na caminhada também é uma oportunidade para Paulo Cuiça descrever a origem da Praça do Comércio na sua versão pré-terramoto, como espaço de transação comercial dos tempos dos descobrimentos, vizinho ao Paço da Ribeira, a residência oficial da família real, posteriormente destruída pelo fatídico tremor de terra, em 1755.

Do palácio, restou apenas a referência que batizou o atual Terreiro do Paço.

Antes do terramoto, entretanto, em dezembro de 1640 quem fez a terra tremer foram os Quarenta Conjurados – que para não fugir à confusão aritmética da época, eram 50, integrantes da nobreza, do clero e militares – responsáveis por destituir como rei de Portugal Felipe III – em Espanha, Felipe IV, nunca é demais lembrar – dando fim a 60 anos de ocupação espanhola.

O Terreiro do Paço no século XVI, que posteriormente viria a ser a Praça do Comércio. Pintura de Dirk Stoop (1610-1686)/Museu de Lisboa.

A revolução que culminou na Restauração novamente contou com o apoio da população, estrangulada pelos altos impostos cobrados por Madrid, a fim de financiar a sempre custosa expansão de um império. Uma revolta que tinha um rosto, o do escrivão da Fazenda Miguel de Vasconcelos, um burocrata português com trânsito na corte de Espanha e carta branca para taxar os compatriotas ao seu bel prazer.

Novamente, Paulo Cuiça aponta para uma janela. É isso, mesmo. “Depois de invadirem o Paço Real, os conspiradores atiraram Miguel de Vasconcelos da janela”, confirma. A crónica da época relata que o escrivão podia até ser bravo na hora de taxar os portugueses, mas durante a revolta não pensou duas vezes antes de se esconder num armário. As dimensões diminutas do móvel, porém, acabaram por denunciá-lo.

Depois de invadirem o Paço Real, os conspiradores atiraram o escrivão da Fazenda pela janela.

Defenestrado, Miguel de Vasconcelos conheceu o mesmo fim do bispo Martinho: teve o corpo desmembrado pelos conspiradores e os restos mortais entregues aos cães.

A Restauração foi a maior revolução com palco na Praça do Comércio de antes do terramoto de 1755, que varreu a maior parte dos vestígios desse tempo, incluindo o já citado Paço Real. Em tom caricatural, Paulo Cuiça lembra que o tremor só não varreu também o rei D. José I por um capricho da rainha, Maria Ana da Áustria.

“No dia do terramoto, a rainha depois de tanto insistir convenceu o rei a passear por Belém, que acabou por não ser atingido pelo abalo”, conta. D. José I não escapou ileso do tremor de terra e acabou desenvolvendo uma fobia a edifícios de pedra e cal. Por causa disso, mandou construir umas tendas no Alto da Ajuda. “Depois, conhecidas como a Real Barraca da Ajuda”, complementa Paulo.

Uma prova de que os reis também têm o que temer.

O que se confirmaria na revolução seguinte.

Se D. José I acabou por escapar de uma tragédia, dois séculos depois outro rei de Portugal não teve a mesma sorte. A placa na esquina entre a Praça do Comércio e a rua da Alfândega lembra o regicídio de 1908, quando Carlos I e o filho, Luís Filipe, foram alvejados pelas balas e os interesses republicanos, disparados pelos conspiradores da Carbonária Portuguesa, uma organização secreta com laços estreitos à maçonaria.

A crónica da época narra o atentado com pormenores romanescos, incluindo a bala que perfurou o pulmão real e a atuação heroica do príncipe, que reagiu ao tiro levado pelo pai a disparar com o revólver em punho, antes de ser atingido letalmente na face, além da vã tentativa da rainha de se defender com um ramalhete de flores.

Os conspiradores também foram feridos e terminaram presos pela guarda real. Um deles, Manuel Buiça, guarda uma particularidade com o nosso guia através da história das revoluções. “Há na família quem diga ser um antepassado, tendo o sobrenome sido trocado de Buiça para Cuiça, por motivos óbvios”, revela, em tom conspirador.

5. Praça do Município – a República

A Proclamação da República na Praça do Município. Pintura de José Maria Veloso Salgado (1864-1945)/Museu de Lisboa.

O que não é segredo é que o atentado abriu caminho para a revolução republicana, dois anos depois. “Havia um sentimento de que a nobreza permitia uma interferência muito grande da Igreja no Estado”, revela o mediador cultural do Museu de Lisboa, diante do prédio da sede da Câmara Municipal de Lisboa, na Praça do Município.

Foi na varanda do prédio que acabou por ser proclamada a república, em 1910, após ser tomada pelos revolucionários que, aos gritos de “Viva a revolução! Viva Portugal! Viva a república”, sem notícias, desta feita, de que alguém tenha sido atirado das janelas da Câmara Municipal.

O fim da monarquia também decretou o fim de uma longa tradição.

Paulo retorna à Praça do Comércio, lembrando que o atual nome do espaço foi dado pelo Marquês de Pombal, responsável pela reconstrução do sítio após o grande terramoto, interessado em ressaltar o perfil mercantil do antigo Terreiro do Paço Real. Um dos prédios demolidos e reconstruídos pelo Marquês é o Torreão Poente, onde funcionava o Ministério do Exército nos idos dos anos 1970.

O torreão está entre os imóveis de um conjunto cedido pelos ministérios das Finanças e da Defesa à Câmara Municipal de Lisboa em 2016 e hoje compõe um dos prédios do Museu de Lisboa. Antes do terramoto, era lá, por exemplo, que os Filipes, que nunca chegaram a morar em Lisboa, hospedavam-se em visitas a Portugal.

6. Rua do Arsenal – o 25 de Abril

A estrutura finaliza um imenso bloco popularmente conhecido como o Arsenal da Marinha, que por sua vez dá nome à rua do Arsenal, por onde desfilaram as colunas militares e os blindados oriundos da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, capitaneados por Salgueiro Maia, na manhã de 25 de Abril de 1974.

O destino era o quartel da GNR no Largo do Carmo, para onde Marcelo Caetano havia se refugiado.

Não se sabe ao certo se Salgueiro Maia tinha noção do simbolismo de desfilar pelas mesmas vias que testemunharam a restauração da autonomia de Portugal diante dos espanhóis, a morte da monarquia e o nascimento da república, ou se simplesmente o capitão de abril havia tomado o caminho que melhor calhava rumo ao Largo do Carmo.

Paulo Cuiça observa a Praça do Comércio. Foto: Líbia Florentino.

Um simbolismo que fica evidente após o passeio proposto pelo Museu de Lisboa, na companhia de um mediador (de possível antepassado revolucionário), que com seu conhecimento, disposição, bom humor e árvores genealógicas, ajuda-nos a perceber que as transformações têm datas, motivos e nomes distintos, mas um só motor: o povo na rua.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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