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Nasceram e cresceram no Alentejo. Trabalharam nas Minas de São Domingos, mas quando estas fecharam, em 1968, tiveram de procurar emprego noutros pontos do país. Muitos deles, ainda jovens, acabaram por desaguar em Sacavém, a cidade industrial onde havia trabalho e outros alentejanos, nos limites de Lisboa.

Mesmo estando rodeados de outros alentejanos, ou, se calhar, apesar disso mesmo, sentiam falta daquilo que dizem estar-lhes no ADN: o convívio. Começaram nos cafés, nas tabernas e na rua, onde se “trauteavam” as modas alentejanas. E, em 1976, juntaram-se e formaram o rancho coral da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos, em Sacavém.

Manuel Martins foi um dos fundadores do grupo. “Fui à procura dos cantadores da minha terra, uns moravam no Barreiro, outros em Caxias, outros em Sacavém, outros no Prior Velho.” Inicialmente, o grupo tinha cerca de 30 membros, todos eles provenientes da Mina de São Domingos. Atualmente, é constituído apenas por 21 homens. À medida que o tempo foi passando, alguns dos membros mais antigos foram dando lugar a gente de outras regiões do Alentejo.  

Passaram mais de 40 anos. O nome já não é o mesmo – são agora o Grupo Coral de Cante Alentejano da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos -, mas se há coisa que não muda é a paixão que sentem cada vez que cantam a terra que os viu nascer.

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Veja aqui um excerto do ensaio do Grupo Coral de Cante Alentejano da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos, em Sacavém. Vídeo: Inês Leote

Um a um, vão entrando na sala de ensaios e tirando as boinas. Instala-se o burburinho. As conversas cruzadas e as gargalhadas começam a surgir, acompanhadas de uns bolinhos típicos alentejanos e uns copinhos de ginja para aconchegar a alma.

Reúnem-se todas as quartas-feiras, num antigo posto da GNR, para afinar a voz e treinar as “cantiguinhas do costume”. Alguns conhecem-se há mais de 50 anos. O abraço caloroso entre dois dos membros mais antigos do grupo evidencia o companheirismo.

Fernando Vaz, presidente da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos, e dirigente desde 1979, explica melhor esta história que conta tanto da saga dos alentejanos em Lisboa.

Na segunda metade do século XX, Sacavém era uma zona industrial e esse foi um dos motivos pelo qual a maioria da população do concelho de Mértola, empregada nas minas, veio para aqui. Além disso, como explica Fernando, “onde havia um amigo ou familiar era mais fácil a integração e foi isso que foi acontecendo aqui. Daí que, na altura, Sacavém tenha sido ocupada maioritariamente por alentejanos”.

Fernando Vaz é o atual presidente da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos e é dirigente da mesma desde 1979. Foto: Inês Leote

Face a este fluxo migratório, sentiu-se a necessidade de criar a Liga dos Amigos da Mina de São Domingos, uma associação que tinha como objetivo, à época, criar um espaço de convívio e partilha entre o povo alentejano. A ideia de formar esta coletividade surgiu em 1973, num jantar de convívio na Casa do Alentejo, em Lisboa.

No entanto, a constituição da Liga enfrentou várias adversidades, por ser considerada uma ameaça à ditadura. Só um ano depois da Revolução de Abril, a 15 de abril de 1975, foram aprovados os estatutos da Liga. A 17 de fevereiro de 1976, passado quase um ano da fundação da Liga, surge o Grupo Coral da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos.

“A gente quando nascemos, na barriga da mãe, já ouvíamos cantar alentejano”

“O cante é como pão para a boca”, diz Manuel Martins. E Manuel Horta confirma, ele que veio para Lisboa com 12 anos e não esquece os momentos em que o companheiro ia mostrando os seus dotes artísticos pelas ruas de Sacavém e do Prior Velho.

“Este rapaz não fazia outra coisa que era cantar. Passados uns 15 dias de eu estar aqui, ele mais outro, ali no Prior Velho, andavam a cantar e eu andava com uma boina a pedir moedas e as pessoas davam dinheiro, porque gostavam…”

Ambos faziam parte do grupo coral infantil da Mina de São Domingos. Mas ao contrário de Martins, Horta não teve como objetivo a música. Dedicou grande parte da sua vida ao futebol. Foi só quando deixou os relvados que decidiu experimentar o cante, também para voltar a recuperar as memórias de infância. “Quando começamos a cantar, a nossa vida é isto, não há problemas”, diz Manuel com um brilho no olhar de quem, por instantes, recorda uma infância feliz.

António Luís Batista, o membro mais antigo deste grupo, com quase 87 anos, confirma. “A gente quando nascemos, na barriga da mãe, já ouvíamos cantar alentejano. As modas alentejanas eram o resultado dos trabalhos do campo: dos camponeses, das ceifeiras, das mondadeiras, dos almocreves, dessa gente.”

A maior parte das modas cantam as vivências de um Alentejo cheio de encantos por descobrir, mas com muitos espinhos… É mais ou menos a vida de Manuel Martins. Veio viver para Lisboa, aos 11 anos, para junto da irmã e do cunhado, e começou a trabalhar como marceneiro. Tinha 8 irmãos e todos eles, quando terminavam a quarta classe, tinham de se “fazer à vida”. Uma vida de miséria, onde muito se trabalhava, mas pouco se ganhava para comer.

“Eu tenho uma fotografia lá em casa, que me tiraram em miúdo, e praticamente estou descalço. Andava com uns sapatos do meu pai, que já estavam todos rotos”, recorda Manuel. Hoje vive no Seixal e vem todas as quartas-feiras do outro lado do rio ensaiar o grupo. “Tenho ofertas perto de casa para ensaiar outros grupos a ganhar dinheiro, mas este grupo para mim é mais importante. É um sentimento muito forte de ligação à minha terra.”

Há uns anos, enquanto viajava de comboio para o trabalho, começou a “trautear” uma música. “Cheguei a casa e comecei a escrevê-la, continuei e passado três semanas comecei a compô-la.” Cantamos a tradição, foi assim que lhe chamou e, já concluída, ofereceu-a ao grupo coral da Mina de São Domingos.

Uma moda inédita, que meses mais tarde foi levada a concurso e, embora não tenha ficado em primeiro lugar, foi para Manuel o verdadeiro prémio, o reconhecimento do grupo. “O Manelito é uma pessoa influente no cante alentejano. Uma pessoa com muito valor mesmo”, diz Manuel Horta.

A gratidão é um sentimento comum a todos os que são ensaiados por Manuel Martins. Reconhecem o homem que é, respeitam-no e admiram-no. Por tudo aquilo que já fez pelo cante alentejano, e também pelo legado às gerações seguintes, que começa pelas duas filhas.

“Costuma-se dizer que filho de peixe sabe nadar. Desde pequeninas que as pus logo nos grupos onde estava”, conta Manuel. Sara, a mais nova, tem 21 anos, está a terminar a Licenciatura em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa e já é ensaiadora do grupo das Cantadeiras de Essência Alentejana, em Almada.

O cante tem futuro

Em 2014, o cante alentejano foi elevado a Património Imaterial Da Humanidade. Mas continua a enfrentar diversos obstáculos, o mais recente de todos a pandemia. Manuel acredita que é preciso sacrífico para se fazer parte de um grupo de cante e uma “carolice” muito grande para que este continue a existir. “Os grupos sempre viveram com muita dificuldade. O Fado também é património, mas num carro de nove lugares vai coluna e tudo. Este grupo não cabe num carro de nove lugares.”

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Oiça um excerto do ensaio do Grupo Coral de Cante Alentejano da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos, em Sacavém. Vídeo: Inês Leote

Quanto à preservação do cante alentejano por parte das gerações futuras, a conclusão é unânime entre os membros do grupo. Acreditam que, no Alentejo, irá haver uma continuidade por parte dos mais novos, mas reconhecem que na grande Lisboa a tradição pode ter os dias contados.

Para o evitar, de há dois para cá, Fernando Vaz, o Presidente da Liga, tem feito tudo para contrariar a tendência: apresentou uma proposta à Câmara de Loures, para um acordo entre o grupo coral e o Agrupamento de Escolas Eduardo Gageiro, em Sacavém com a finalidade de preservar o Cante e divulgá-lo entre dos mais jovens.

“Os grupos corais na região da Grande Lisboa são compostos por pessoas de idade avançada e visa-se com este acordo, que as crianças ganhem o gosto pelo cante alentejano para posteriormente integrarem o grupo sénior”, explica Fernando Vaz.

Para além da componente de preservação do cante, o projeto também tem uma vertente social, uma vez que o Agrupamento de Escolas Eduardo Gageiro está integrado no programa TEIP – Territórios Educativos de Intervenção Prioritária -, implementado em escolas com uma população desfavorecida do ponto de vista socioeconómico, com o objetivo de diminuir o insucesso e o abandono escolar precoce.

A inclusão das crianças no projeto tem vindo a comprovar a sua pertinência e importância. “Temos um miúdo que canta de forma excelente, um miúdo que antes não falava com ninguém, as professoras ficaram pasmadas”, diz o presidente da Liga, que explica que o projeto, conta, ainda, com diversas atuações que juntam o grupo sénior e o grupo mais jovem, promovendo, assim, uma intergeracionalidade que dá frutos e que incentiva os pais dos alunos a estarem presentes e a acompanharem de perto, não só o percurso letivo dos filhos, como também os seus interesses extracurriculares.

E, se há quem pense que o cante alentejano só agrada a quem já tem uma “certa idade”, está muito enganado. António Luís Batista recorda a história de um menino que sem saber muito bem como nem porquê, ficou emocionado ao ouvir um grupo de cante alentejano. Talvez o porquê estivesse na melodia ou nos versos ou até na voz dos homens que cantam estas modas sobre a terra, a vida, o trabalho e, acima de tudo, sobre as saudades do que deixaram para trás.

Quem conhece estes homens, percebe o sentimento de pertença que têm ao lugar onde nasceram e foram criados. “Se pudéssemos não era aqui que estávamos, era lá”, dizem eles.


* Ana Beatriz Pereira nasceu em Lisboa há 20 anos. Peniche, a capital do surf, é a sua outra casa e é no mar que encontra refúgio. A terminar a Licenciatura em Ciências da Comunicação, da FCSH-UNL, foi quando entrou para a universidade, que descobriu a cidade e as histórias que havia por contar. E depois, num estágio na Mensagem de Lisboa. Este artigo foi editado por Catarina Pires.

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