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Com a entrada para a faculdade, a minha vida passou a ser dividida entre Lisboa e o Cacém; o Almirante Reis transformou-se num Bom Amigo para juntar à lista. O meu roteiro quotidiano tornou-se diferente e as vistas também. Ao invés das pachorrentas tardes em que descrevia percursos sinuosos entre prédios e jardins urbanos sem grande preocupação, passei a levar um livrinho na mochila ou simplesmente resumos e sebentas para revisitar no comboio suburbano para a faculdade.

Sempre no mesmo lugar, todos os dias de manhã: sempre as mesmas caras. Estas nunca me dizem “bom dia”. Ao princípio, enérgico, jovem e bem-disposto, ainda tentei dizê-lo, mas olharam para mim com um ar de sono e confusão tal que me arrependi instantaneamente.

Não gosto de me levantar cedo. Prefiro trabalhar ou estudar até tarde, com menos distrações e menos barulho. Estar numa estação de caminhos de ferro exemplifica bem esta minha aversão às manhãs. Há sempre alguém a correr para apanhar um comboio suburbano. Nunca sei se é o meu, mesmo que saiba que o apanho sempre à mesma hora, todos os dias, e que ainda faltam cinco minutos para chegar.

A estação é escura e suja. Há talões das máquinas da CP, daqueles com a parte de trás verde, por todo o lado. Cartazes colados nas paredes a informar sobre festas, ofertas de trabalho, quartos para alugar ou cultos religiosos. De vez em quando, há pessoas a dar panfletos que querem estabelecer contacto de forma constrangedora. (Também eu já os dei.) Os autocarros do tempo do escudo passam a fumegar na gare. Ouve-se sempre alguém a gritar “espera” ou “vá, anda lá”.

A pressão para chegar ao emprego a horas – maior e mais palpável aqui do que na imprevisibilidade do engarrafamento, porque é comunal – imbui um polo de transportes alegadamente indistinto de adrenalina e cortisona. Quem aqui chegue por estas horas não vai encontrar nada de diferente de qualquer outro local onde proletários tenham de embarcar para os locais de trabalho. Há algo em comum por todo o mundo nestes espaços: a urgência que transmitem.

À tarde, os papéis mudam. Pode ainda haver quem corra à saída do comboio suburbano: quem não pode perder o autocarro para casa, que parte da gare em momentos. O espaço é, contudo, mais pacato. Já não há gritos, apenas conversas. À porta da estação, cá em baixo, as mesmas senhoras vendem sempre peixe seco, milho cozido e outros produtos tradicionais. O interior da estação continua fracamente iluminado, mas agora a falta de luz parece acalmar. Ainda há quem dê panfletos de telecomunicações.

A estas horas, a estação de Agualva-Cacém parece a sobreposição perfeita dos dois mundos contidos neste território: o lisboeta e o cacenense. Invertamos a fórmula da “zona-dormitório” e consideremos os nossos locais de trabalho e estudo como “zona-laboratório”. Depois do trabalho, todos partilhamos este local de vida. Usufruímos das suas infraestruturas e dos seus espaços de atividade económica.

Na estação de comboio suburbano, após o dia na “zona-laboratório”, chegam os homens e as mulheres e as vivências justapõem-se: o rapaz que toma o lanche no café ao pé da estação; a senhora que vai à farmácia aviar receitas; a pessoa que vai ao ginásio aliviar o stress de um longo dia sentado numa cadeira… É neste contacto que surge a mélange de cultura da cidade com a do espaço suburbano, a criatividade concedida a quem se desloca de forma humilde entre dormitório e laboratório colocando à prova as experiências de ambos.

Uma vida vivida no Príncipe Real ou na Baixa é uma receita cultural comprovada, sendo Pessoa-Bernardo Soares o seu expoente. Por certo, também o Cacém tem o seu passado cultural mais ou menos remoto: Ribeiro de Carvalho fez desta localidade, na Quinta da Bela Vista, a sua casa; Matias Aires encontrou a sua eterna residência na Quinta da Fidalga.

A mistura, contudo, apenas recentemente – e seguindo a história do desenvolvimento e exploração económicos e históricos de Portugal – tem vindo a dar frutos, conhecidos já de todos nós. Não foi à toa que o Kalaf Epalanga disse que Cavaco era “inventor da kizomba”.

O fim da tarde pode ser dedicado a ver a cidade voltar ao status quo ante bellum: o Parque Linear da Ribeira das Jardas é um agradável espaço de passagem, com pessoas de todas as idades; um riacho que se pode reencontrar na Fábrica da Pólvora e, mais tarde, em Santo Amaro de Oeiras; muita sombra e equipamentos de exercício urbano. É uma pequena nesga de verde entre as torres de betão armado e as vastas estradas que a ladeiam, muito apreciada pelos locais.

Sugere-se uma passagem pela Quinta da Bela Vista, cujo exterior é facilmente acessível pelo parque, para averiguar o seu estado de degradação. A vista pode ser bela, mas está longe de ser a melhor do Cacém por estas alturas: o pôr-do-sol atrás da Serra de Sintra com o Palácio da Pena a recorte pode ser vislumbrado a partir de Mira-Sintra ou do Alto do Cacém.

Sob a luz de Sintra, de um lado, e a noite de Lisboa, do outro, erguem-se os inúmeros prédios que albergam o, grosso modo, meio milhão de pessoas que compõem a manta populacional da Linha de Sintra. A vida quotidiana de uma porção substancial desta imensa multidão rege-se pelo movimento pendular entre casa e local de trabalho, dormitório e laboratório.

Em surdina, deslocam-se às centenas de milhar diariamente, completando ao longo de um ano incontáveis viagens da Terra à Lua na sua totalidade. O carro, autocarro ou comboio suburbano são os seus meios preferenciais de transporte. Cá no Cacém, ninguém dá por eles quando estão fora. Há mais lugares para estacionar no bairro. Lá em Lisboa, ninguém dá por eles quando estão dentro.

Muitos são os rostos invisíveis que garantem o funcionamento das atividades económicas da cidade: construtores, estafetas, professores, enfermeiros, auxiliares de todo o tipo e especialização, etc.. Na sua ausência do subúrbio, a cidade é tomada por quem nela fica, dos jovens aos pensionistas. É aqui que se formam sensibilidades.

No fim do dia, contudo, o sol põe-se por trás da Pena e sobe a lua no céu. Nesses momentos, com o que sobra da força de trabalho, residem a cultura, a criação, a troca e a surpresa. Embora cada vez mais atomizados – e com cada vez menos tempo para olhar para o céu – continuamos a viver uma vida com traços unificadores.

O subúrbio, essa comunidade imaginária frequentemente descrita em tom pejorativo, devia unir-nos positivamente. A identidade suburbana é renegada por muitos que nela não se reveem – e frequentemente com conotações racistas! – eu proponho, por meu lado, o oposto. Que abracemos o subúrbio como nova resposta à pergunta “de onde és?”! Que não hesitemos em admitir que gostamos do sítio onde crescemos, lugar de produção artística e humana! Que possamos investir as nossas comunidades da vida urbana edificadora que merecem, dando-lhes as condições para a habitação sem carências nem dificuldades na realização dos seus desejos.


* Aprendiz de médico cacenense em Lisboa. Adepto de transportes coletivos. Militante pela defesa da imprensa estudantil e apaixonado por Saúde, ética, política e o que sobra. Sou mais interessante ao vivo.

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