Campo de Jogos, Caselas, Polidesportivo, Junta de Freguesia de Belém
Os vizinhos do Bairro de Caselas têm manifestado a sua oposição ao projeto de um Polidesportivo que substituirá o Campo de Jogos onde as crianças do bairro se juntam para brincar. Foto: Inês Leote

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Elisenda Pérez foi uma das responsáveis por juntar cerca de 300 assinaturas de vizinhos, quando se soube que o campo de jogos do bairro passaria a ser pago. Nada havia sido comunicado sobre a empreitada que aí vinha. A vizinhança ficou a saber quando uma moradora foi surpreendida, no meio de um passeio, em janeiro, por trabalhadores que efetuavam marcações no piso do campo. Só então se soube que a Junta de Freguesia de Belém previa instalar uma cobertura no campo, transformando o campo de jogos do bairro num polidesportivo de utilização restrita.

A empreitada estava adjudicada e o empreiteiro selecionado. Os moradores, contudo, de nada haviam sido informados.

O projeto, classificado pela própria como “um dos grandes investimentos da Junta de Freguesia de Belém” – 330 mil euros – prevê a requalificação do piso do campo e a instalação de uma cobertura e de uma portaria, que funcionaria, também, como bilheteira. De campo de jogos do bairro, aberto a todos, a Polidesportivo de Caselas – disponível apenas a quem o alugasse, pagando.

Acidentalmente descoberta pelos moradores num passeio de rotina, a intenção da Junta surpreendeu. E mexeu com a comunidade.

Elisenda, que mora exatamente em frente ao campo polidesportivo de Caselas, juntou-se a outros vizinhos para concertar uma posição comum. Numa reunião promovida pela junta de freguesia, ouviu a intenção de “rentabilizar [o campo] a partir das seis da tarde e até às dez da noite”, através do aluguer da estrutura desportiva.

Os vizinhos que mantêm o campo “onde se aprende a andar de bicicleta”

“Quero que o campo seja para uso de todas as crianças do bairro. Que esteja aberto e que cuidem dele. Não quero mais nada”, diz Elizenda.

O bairro de Caselas é referido pela própria comunidade como uma “aldeia em Lisboa”. Está em Lisboa, mas afastado do centro. Está, também, no Restelo e na freguesia de Belém, mas separado pelo Parque Florestal de Monsanto, que o envolve num bosque. O campo de jogos é, para aquela comunidade, um dos poucos espaços públicos de encontro e fruição.

Os encontros fortuitos de vizinhos, sem prévia marcação, que acontecem diariamente no campo de jogos de Caselas, podem estar à beira do fim.

O Bairro de Caselas, e o campo de jogos (identificado a azul). Fonte: Google Earth

Bernardo Queirós mora duas casas acima da vizinha e os filhos são utilizadores do campo. É com outros moradores e com fundos que saem do próprio bolso que tem vindo a concretizar melhorias e reparações no espaço.

Se não fosse a ação dos vizinhos, “não havia nada”, garante Bernardo, dizendo que da parte da Junta “não há qualquer manutenção, não há qualquer cuidado”. Desde que se lembra, que são os vizinhos quem cuida do campo desportivo.

“Há aí abraçadeiras que fui eu que pus, para não se entrar pela grade, [e] está ali uma tabela de basquete que instalei para os meus filhos e para todos os outros moradores jogarem”, conta. Há 15 anos que vive na “aldeia” que existe no meio da cidade e, garante, desde que ali mora, que o campo se encontra “ao abandono”.

Pelo campo, na sua vedação e no seu interior, veem-se sacos do lixo pendurados. “Foram postos por moradores e [são] levantados por moradores”, conta Bernardo. Os cuidados que se anunciam com a empreitada “só [os] vão ter agora se for uma fonte de receita.”. O que é contraditório: “Se for uma fonte de receita, não é para o bairro, [que] deixa de o poder usar”.

Bernardo garante que, mesmo sem manutenção por parte da junta, o campo “está condigno. Não é um campo com piso moderno, mas está limpo, coisa que eles não fizeram”.

Os moradores querem uma requalificação, mas não aceitam perder o acesso ao equipamento público.

Uma marcação recente, realizada pelo empreiteiro da obra. Foto: Inês Leote

É ali que, nos finais de tarde, se juntam crianças e jovens do bairro, em jogos e brincadeiras. Para Gonçalo Matos, uma das caras do grupo de cidadania Vizinhos de Belém e delegado do subnúcleo do bairro de Caselas, o campo de jogos tem tido a função de “suprimir deficiências que há no bairro”, como a falta de um ponto de encontro. A infraestrutura, diz, é “uma zona onde se brinca, onde as pessoas conversam e estão enquanto os filhos se divertem, onde se aprende a andar de bicicleta”.

A intervenção que estará prestes a iniciar-se, explica Gonçalo, “vem na sequência dos chamados contratos de delegação de competências da câmara e das juntas de freguesia”, que permite que determinadas intervenções avancem “sem que haja qualquer tipo de divulgação prévia, ou posterior, à população”.

Uma petição, o reforço do “sentimento de vizinhança” e uma “incógnita”

Por cima da vedação do campo, os vizinhos puseram um crtaz onde se lê a frase: “Melhorias, Sim; Polidesportivo, Não”. Até ao momento, aproximadamente 300 dos cerca de 800 moradores assinaram a petição – e tudo começou graças à mobilização de um pequeno grupo de vizinhos.

Petição Contra a obra no campo de jogos de Caselas, promovida por um grupo de moradores do bairro.

A mobilização, visível nas reuniões abertas da Junta de Freguesia, que acontecem nas últimas terças-feiras de cada mês, mas também nas conversas de bairro e por via da assinatura da petição lançada pelos próprios moradores, já surtiu alguns efeitos. O projeto inicial, que previa a transformação do atual campo de jogos no Polidesportivo de Caselas, através da instalação de uma cobertura com 12 metros de altura em pleno Parque Florestal de Monsanto, poderá, agora, estar prestes a sofrer um recuo.

A estrutura, que, segundo os moradores, causaria sombra sobre as primeiras linhas de moradias, poderá, agora, ser relocalizada, para servir uma escola da freguesia.

Segundo Gonçalo Matos, “os únicos espaços da freguesia para onde a estrutura pode ser relocalizada são de escolas: a secundária do Restelo e a [Escola Básica de] Paula Vicente”, que não dispõe de condições para a realização de aulas de Educação Física em dias de chuva. A decisão aguardará, agora, parecer da Direção Municipal de Cultura, responsável pela pasta da educação no concelho.

Contactada nos dias 11 e 14 deste mês, a Junta de Freguesia de Belém não respondeu ao pedido de entrevista enviado pela Mensagem.

Perfil do Polidesportivo de Caselas, tal como apresentado em projeto de arquitetura. Fonte: Junta de Freguesia de Belém

Por esclarecer continua a principal exigência dos moradores: a garantia da manutenção do usufruto público do campo de jogos do bairro, após a empreitada de requalificação. Segundo nota publicada no sítio web da Junta de Freguesia de Belém, a empreitada tem “o objetivo de tornar ideais as condições para a prática desportiva neste espaço, com especial foco no apoio aos clubes e coletividades locais ligadas ao desporto, como o Clube de Futebol “Os Belenenses”, Clube Sportivo de Pedrouços e Caselas Futebol Clube”.

Segundo Gonçalo Matos, num relato que é confirmado por Elisenda, Ana Margarida e Bernardo, a Junta confirmou, na última reunião aberta realizada, que “não está previsto abdicar de dinamizar o campo”. Para o representante do grupo Vizinhos de Belém, “isto pode ser interpretado de muitas formas…”.

O que vai agora acontecer permanece “uma incógnita”. Mas os moradores não vão desistir do campo de que cuidam. E a ação coletiva já serviu para unir a comunidade.

Ana Margarida Ribeiro, residente junto ao campo, considera que a união recente dos moradores em torno do equipamento público serviu para criar “a consciência do sentimento de vizinhança. Ele sempre existiu e acho que ganhámos consciência dele com esta situação, porque nos unimos”. E ganharam a sensação de viver, de facto, na aldeia que Caselas parece.

Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 30 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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