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Fado de Santa Catarina

Por Vasco Graça Moura



No peitoril da janela
uma caprichosa orquídea
verde, castanha, amarela,
sinal da tua perfídia.

Quero a luz leve e vibrante
da Lisboa ribeirinha
quero uma casa bem minha
e a vida menos errante,
quero a gaivota distante
que o meu olhar atropela,
quero o rio que revela
como se fosse um espelho
algum quadro do Botelho
no peitoril da janela.

Quero a traça pombalina
de uma casa antiga e nova,
quero pôr o fado à prova
junto a Santa Catarina.
Já vi que a casa fascina
a Mafalda, a Berta, a Lídia:
quando é de dia divide-a
fronteira de sombra e luz
e num copo de água pus
uma caprichosa orquídea.

Se à noite as rosas lhe dão
um esquisito perfume,
a lua dá-lhe o volume
musical da solidão.
Mas sobre as tábuas do chão
vê-se inda a sombra daquela
orquídea curva e singela,
flor das nossas tentações
e das minhas condições,
verde, castanha, amarela.

E tu alta madrugada
podes vir devagarinho,
sobre a mesa há pão e vinho
e a porta fica encostada,
não é preciso mais nada.
Creio que amas sem insídia,
e a vida é tua, decide-a,
mas se achas que isso a atrasa
fico eu de olhos em brasa,
sinal da tua perfídia.




Gaivota

Por Alexandre O’Neill

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro
dos sete mares andarilho
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


Não disse nada amor

Por António Lobo Antunes

Não disse nada amor, não disse nada
Foi o rio que falou com a minha voz
A dizer que era noite e é madrugada
A dizer que eras tu e somos nós

A dizer os mil rostos de Lisboa
Ao longo do teu rosto, se te beijo
À luz de um pombo, chamo Madragoa
E Bairro Alto ao mar, se te desejo

Não dissse nada amor, juro, calei-me
Foi uma voz que ao longe se perdeu
Cuidei que era Lisboa e enganei-me
Pensei que éramos dois e sou só eu


Madrugada

Por Fernando Pinto do Amaral

Foi numa noite gelada
Já rompia a madrugada
No momento em que te vi;
Não soube dizer-te nada
Nessa hora alucinada
E fiquei a olhar para ti

O Amor no Fado por Nuno Saraiva

Andei pelas ruas à toa
P’las vielas de Lisboa
Cada esquina sem ninguém
Quando o amor nos abençoa
Há uma luz que perdoa
Tanto mal que nos faz bem

Nunca soube de quem era
Esse rosto que eu quisera
Guardar bem dentro de mim
Talvez fosse uma quimera
Que ali me deixou à espera
Naquela noite sem fim

Passou o tempo e agora
Volto a viver essa hora
Na cidade adormecida
Mas quase rompendo a aurora
Há uma guitarra que chora
Saudades da minha vida


Conjugar Lisboa

Por Rosa Lobato de Faria

Nesta Lisboa princesa
Filha estrela da mãe d’água
Alfama minha tristeza
Chafarizo a minha mágoa

Bato sonhos em Castelo
No Desterro do cansaço
Com Pontinhas de cabelo
No Terreiro onde passo

Restelos do que vivi
Bem ficam noutras Mercês
Quando Rossio por ti
Portelo Cais de Sodrés

Mas quando tu me Xabregas
Não me deixo Saldanhar
Só te Tejo se navegas
Nas ondas do Lumiar

E porque Politeamo
Picoas cada vez mais
À janela me moiramo
A ver se és tu que Olivais

Eu Areeiro, tu Chelas
Se ela Parque, Amoreiras
Mas se Intendente dou por ela
Que Marvila, tu Telheiras

Ando a conjugar Lisboa
A ver se o Salitre passa
Pois nada nos Madragoa
Se é feito com ar de Graça


Balada de Lisboa

Por Manuel Alegre

Em cada esquina te vejo
Em cada esquina te vais
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo
Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo

Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs da tua ausência
Tão perto de mim, tão longe
Tão fora de seres presente
Teu rosto de sol e Tejo
Tão doente da viagem
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Esta é a cidade onde estás
Como quem nunca mais vem
Tão longe de mim, tão perto
Ninguém assim por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais
Esta é a cidade onde estás
Como quem não volta mais


Em todas as ruas te encontro

Por Mário Cesariny

Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco


de profundis amamus

Por Mário Cesariny

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


O amor nas escadas do metro

Por Armando Silva Carvalho

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.

Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.

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