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Vem do bairro 6 de maio, na Amadora, e tornou-se um ícone do pop nacional que também está a conquistar o mundo. Tudo o que vive e viveu vira música – e isso inclui a infância muito difícil que o obrigou, diz, a ser precoce e a “pensar como adulto”.

Vado Más Ki Ás é o rapper que deixou de lado uma carreira no motociclismo para fazer companhia à mãe que acabou por morrer aos 55 anos – tinha ele apenas 13. Tirou da dor a garra, o carisma e a inspiração para cantar e contar as histórias da sua vida, sempre a pensar em motivar os outros.

Foi no Kova M Estúdio, onde aprendeu a rimar, que marcou a entrevista – na Cova da Moura, bairro na Amadora, vizinho do dele. Chegou sempre a sorrir e a cumprimentar toda a gente. Fixou um ar nostálgico ao percorrer o espaço, agora renovado. E na sala de gravação improvisou em freestyle o que, se fosse gravado, talvez fosse mais um hit. Porque é só o que Vado Más Ki Ás sabe fazer desde os 12 anos, quando compôs a sua primeira música, em homenagem ao irmão mais velho (que também perdeu).

E é curioso que nada nessas memórias dolorosas o impede de sorrir. Foi o que fez toda a entrevista.

“Rosas e Espinhos” é o novo álbum de Vado Más Ki Ás.

Hoje lança “Rosa e Espinhos”, o EP que traz uma visão diferente do artista, incluindo géneros musicais que vão além do rap ou das sonoridades do trap e do drill, abrindo espaço para ritmos como o afropop, mas sobretudo no que se refere aos conteúdos que realçam a importância das mulheres e transmitem a essência positiva de Vado, que entre altos e baixos sempre guardou o carisma e o transformou em mensagens que motivam.

Vado Más Ki Ás. Este nome carrega uma mensagem. Porque o escolheste?

Vado é o meu nome de casa e Más Ki Ás é o nome da família que me inspirou para fazer música: sete amigos que formavam o grupo Más Ki Ás, na altura Nigga Suzi e Baby Dog. Eu fiquei com o legado, entrei na família e ganhei o nome Vado Más Ki Ás.

Família musical?

Família musical e família mesmo em casa, família do bairro. Do bairro 6 de Maio.

Qual é o significado do bairro 6 de Maio na tua música?

É onde cresci, onde aprendi, e para onde os meus pais foram muito cedo. A minha mãe esteve a vida inteira no mesmo bairro, os meus irmãos cresceram lá, então a minha vivência foi toda no 6 de maio. É o melhor bairro do mundo pra mim. Foi também onde tive a minha primeira filha e a segunda também. Só a terceira é que não nasceu no bairro e não conheceu a casa da avó. Mas o bairro tem muita importância pra mim.

Os teus pais nasceram cá ou vieram de Cabo Verde?

Vieram do Tarrafal, Cabo Verde, ilha de Santiago.

Em que altura?

Não te sei dizer porque minha mãe faleceu aos 55 anos e eu não cresci com o meu pai. Mas vieram muito cedo porque a minha mãe com vinte e tal anos já estava em Portugal.

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Vado Más Ki Ás a falar da sua infância que “foi boa em parte e má noutra”. Aos 26 anos, é pai pela terceira vez. Vídeo: Nuno Mota Gomes

Como é que foi a tua infância?

Minha infância foi boa em parte e má noutra. Tive muito apoio familiar, cresci com a minha mãe e os meus irmãos e tive sempre uma boa educação. Eles deram-me o melhor para eu ser o homem que sou hoje. Aos 12, perdi um irmão e aos 13, a minha mãe. A partir daí fui viver com a minha madrinha até aos 17 e aos 19 fui pai pela primeira vez. Aos 21 pela segunda vez e agora aos 26 estou a ser pela terceira vez.

Tudo isso ajudou a que descobrisses o teu talento? Quando?

Quando deixei de fazer corridas de mota, descobri o meu talento, na verdade. Praticava motociclismo, fazia corridas com o Miguel Oliveira, na altura era na categoria mini GP. Mas como minha mãe não gostava muito que eu andasse de mota, escolhi a música. Foi aí que a música entrou na minha vida. Nessa altura, perdi o meu irmão mais velho e a minha mãe já estava com problemas de saúde e não gostava de ficar sozinha. Então decidimos parar, eu e outro irmão. Eu queria continuar, mas apareceu este problema e a música veio para curar tudo isso.

Vado Más Ki Ás não acha que o crioulo esteja na moda. “Acho que é algo que já tem a sua identidade e temos de a realçar. É ser o que se é”. Foto: Orlando Almeida

Isso aconteceu quando?

Eu tinha 12 anos quando escrevi a primeira música. Aconteceu por influência dos Más Ki Ás, precisamente. Gostava muito da música que faziam, ouvia-os muito e sentia a realidade de que eles falavam. A história do bairro e a minha história. E isso despertou em mim a inspiração para fazer música. Como estava sempre em associações, acabei por chegar à Cova M (Cova da Moura). Vim parar ao workshop do Moinho da Juventude e foi onde tudo começou. Eu já frequentava muito o Instituto de Apoio à Criança no 6 de Maio e eles tinham uma ligação com a Associação Moinho e nessa altura escolheram alguns jovens para fazer workshop e eu fui escolhido. Sou grato por isso. Fiz a minha primeira letra aqui e tudo foi surgindo, tudo foi acontecendo.

Veja aqui o workshop do Moinho da Juventude em 2009

Foste escolhido pelo teu talento?

Não foi pelo meu talento. Havia jovens com interesse. Na verdade, eu já tinha interesse pela música e daí terem-me escolhido. Tudo aconteceu naturalmente e nunca com a esperança de que ia ser um grande rapper ou artista nacional ou mundial. Nunca tive isso em mente. Foi tudo natural. Sempre tive gosto pela arte apesar de ter tido formação em informática e multimédia. Esses “mambos” todos. Nessa altura criei o bicho pela música.

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O rapper Vado Más Ki Ás a cantar e dançar uma das suas músicas mais recentes, “Superstar”, que faz parte do novo álbum “Rosas e Espinhos”. Vídeo: Nuno Mota Gomes

Começaste a compor canções ou rap?

Foi rap, a contar histórias da minha vida. A primeira música que fiz foi para o meu irmão, quando o perdi. Foi de onde veio a inspiração para querer escrever, desabafar algo. Foi a minha primeira.

Estas perdas tornaram-te mais forte?

Sim. Um jovem de 13 anos ainda precisa de um lar e então eu tive de crescer. Tive de ser homem muito cedo, com pensamentos de adulto, não de criança. Não senti que aproveitei bem a minha infância apesar de brincar, mas sempre correndo atrás daquilo que poderia gostar e de seguir como carreira. Seguia aprendendo sempre a lutar e a conquistar.

Estar com cantores americanos que já ouvia e fazer música com eles… foi inédito para mim. Estar na Times Square e ver que eu também posso lá estar um dia…

Vado Más Ki Ás

Há uma vertente motivacional na tua música?

Esta é a esperança que procuro transmitir, porque a vida não é fácil. Toda a gente tem dificuldades, mas tem também o momento em que se celebra. Só que é na pior fase que a gente pensa e dá mais valor às coisas.

Qual é a tua música favorita?

Todas. Escrevo com o mesmo amor todas as músicas.

“Mulata” é uma das músicas do novo álbum “Rosas e Espinhos”, de Vado Más Ki Ás

Quais é são as tuas maiores influências?

Michael Jackson, Tupac, Snoop Dogg, Valete, Sam [The Kid] e tantos outros. Saía da escola e ia para casa só para ver a MTV.

E de repente alcanças o sucesso… o que é que significou para ti?

Que é possível. Quando a gente acredita, quando a gente trabalha, quando a gente respeita o espaço, respeita as pessoas que trabalham connosco, quando a gente ama mesmo aquilo que a gente faz e acredita mesmo sem olhar para trás. Não estamos nunca à espera do tipo “hoje vai acontecer isto!”. Não estou à espera disto, mas estou a espera que dê certo. Na minha vida tem dado muito certo e sinto-me grato por isso. Tenho me sentido abençoado. Todos os dias. Trabalho praticamente 24 horas por dia.

Montaste um estúdio em casa…

É o meu lugar favorito. Não podia ter outro lugar melhor.

O que é que pessoas como tu, Julinho KSD ou Dino D’Santiago fazem para mudar o paradigma do que as pessoas pensam sobre bairros sociais ou comunidades como a do 6 de Maio ou Cova da Moura?

Eu acho que já fizemos essa mudança. Estamos a fazê-la e vamos continuar a fazê-la. Estes nomes e tantos outros que vêm do bairro e que representam a cultura Hip Hop e a arte vão mudar mentalidades que estão ofuscadas. De mentalidade aberta estamos a abrir portas levando a língua crioula, fazendo as pessoas conhecerem a nossa história, aquilo que sentimos. É muito importante mostrar tudo isso para as pessoas poderem perceber melhor a nossa vivência. Se calhar, mesmo nós não tínhamos essa visão que hoje está a mudar. Nesta geração, mudou muito. Vemos no Julinho, vemos no Dino e vemos no Vado Más Ki Ás e em muitos mais!

Crioulo. Vocês estão a levar a língua e a cultura crioula para o país e para o mundo. Achas que é moda que vai passar ou veio para ficar?

Eu não acho que o crioulo está na moda. Eu acho que é algo que já tem a sua identidade e temos de a realçar. É ser o que se é. É natural e não temos que mudar para agradar. Não se trata disso. É colocar os pontos onde devem se colocar.

O rap crioulo já conquistou Portugal?

Sim!

Tu cantavas em crioulo e agora estás a cantar também em português. Porquê?

Porque vivo em Portugal e quero que a minha mensagem chegue a mais pessoas. E mesmo o meu crioulo procuro escrever para que seja percetível! Faço-o de maneira que todos possam entender.

Olhando para o panorama do pop mainstream em Portugal, vê-se cada vez mais negros e pessoas que vieram das periferias. Isso é visto como um sinal positivo de mudança. Achas que é fundamental na luta contra o racismo, também?

Não gosto muito de falar de racismo. Não porque finjo que não estou a ver, já passei por isso. Para mim o importante é o amor. Amar o próximo. A minha música “Amor próprio” transmite isso. Amar a si próprio, o próximo, respeitar o outro. Transmite a mensagem de luta, de vitória, da resistência – da mulher ou do homem. Mas valoriza sobretudo a parte feminina. Amor próprio fala da mensagem de reconciliação e de esperança. De amar mesmo com força e não desistir nunca.

Por falar em altos e baixos, tens um EP novo que se chama “Rosas e Espinhos”.

Tem uma visão diferente. Trago muita novidade para a mulher guerreira, que luta, que vai atrás, que sofre, que mantém os sentimentos puros e às vezes assuntos um bocado delicados. Nós rappers geralmente olhamos para a mulher de forma diferente, então tentei mudar e trazer uma nova linguagem sobre ela, tanto no rap como noutros géneros que estou a fazer, resgatar a esperança e dar a conhecer mais o lado feminino.

Como foi a tua experiência nos Estados Unidos?

Foi surreal e inédita. Aquilo que se calhar só vejo nos filmes e na televisão consegui ver ao vivo. Senti o calor enorme. É possível a gente chegar seja onde for. Foi ver aquele público todo a gritar por mim e a cantar a minha música do início ao fim. Estar com cantores americanos que já ouvia e fazer música com eles… foi inédito para mim. Estar na Times Square e ver que eu também posso lá estar um dia…

Futuro?

Muitas coisas, muitos projetos. Vamos fazer muitos projetos, muitos concertos e sim uma carreira internacional. Sem pressa.

“Também tenho recebido muito carinho dos PALOP”, diz Vado Más Ki Ás. Foto: Orlando Almeida

Olhando para o teu percurso, o que é que tu mudarias?

Não mudaria nada, mas acrescentava muitas coisas.

O que é que darias às crianças do teu bairro?

Conselhos. Transmitir valores como ouvir sempre o mais velho. Ser feliz, alegre. Ser aquilo que é. Dava também educação e formação. A presença é muito importante. Eu tive muita ausência, mas não por culpa da minha mãe. Não sei qual seria a solução para as mães de hoje, mas a minha mãe encontrou a solução que foi lutar para nos sustentar, educar-nos e fazer-nos homens.

E a essas mães de hoje o que dizes?

Que continuem na luta. Quero o melhor para as nossas guerreiras. Nós faremos de tudo para que elas estejam bem e sejam as mais felizes do mundo como as nossas “baby mamas”. Eu tenho três filhas e vou dar tudo como pai como homem. As minhas filhas têm a presença do pai, graças a Deus. A presença, o falar e o amor. É isso que quero dar às crianças, ao meu povo, à comunidade, aos meus fãs, família, amigos, pessoas que trabalham comigo. Quero dar positividade.

Onde é que vais buscar toda a energia que tens, seja no dia a dia e nos concertos?

Sou uma pessoa com muita energia, muito alegre (risos) e acho que tenho de a gastar. A minha energia vem lá de cima, mano! O de cima é que dá toda a energia.

Qual é tua Lisboa?

A minha Lisboa é toda a Lisboa. Tanto o bairro como a cidade. Não consigo sair de Lisboa. Não me vejo noutras cidades europeias. Aqui conheço quase toda a gente. Lisboa é nossa. Os melhores verões são em Lisboa, as melhores festas, os melhores concertos, os melhores momentos no bairro… para teres uma ideia, há pessoas que vêm de França e passam duas semanas na Cova M ou na Damaia e nem vão ao centro da cidade. Também tenho recebido muito carinho dos PALOP. Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe. Recebo muitas mensagens que também vêm do Senegal.


Vado Más Ki Ás xintadu dianti di mural di Puto G ku Dany G, na Kova M Estudio Foto: Orlando Almeida

Vado Más Ki Ás: “N’ka gosta di papia di rasismu. Ê ka Pamódi n’ka kré odja ma ê ta isisti, dja n’pasa pa el. Ma n’ta atxa ma kusé ki ta n’porta ê amor…”

Ê bem la di bairu 6 di maio, na Amadora, ê bira algén grandi na pop purtugês, i tanbé ê sta ta konkista mundu. Tudu kêl ki ê vivi ta bira musika – i kelâ ta inklui sê mininesa ki foi mutu difísil i ki fasêl, sima ê ta flâ, ta “pensa moda algén mas grandi”.

Vado Más Ki Ás ê kêl rapper ki dêxa carera di motociclista pa kumpanha si mãe ki móri ku 55 anu di idadi – êl ê tinha só trêzi anu. Di dor ê trâ balentia, koraji ku inspirason pa kanta ku konta stória di si bida, senpri ta pensa na djuda ôtu algén ku si mensajen. 

“Cova Estúdios” foi undi ki ê kumêsa ta prendi rima, i undi ki ê marca intrivista ku nôs ekipa – na Cova da Moura, visinhu di 6 di maio. Ê tchiga kontenti senpri ta ri, ta flâ tudu algén mantenha. Ku rostu ta mostra ma ê ten sodadi, ê entra ê fika ta djôbi kêl kasa tudo renovadu. Na sala ê kumêsa ta improvisa na freestyle um kantiga ki – si ês gravaba – ta binha ser ôtu hit. Pamódi ê só kelâ ki Vado Más Ki Ás sâbi fasi desdi ki ê tinha 12 anu di idadi, kantu ê fasi si primeru kantiga, ki ê didika si irmon más grandi (ki ê perdi tanbé).

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Mensagem di Vado Más Ki Ás pa kumunidadi kriolu. Vídeo: Nuno Mota Gomes

Ma nada di kês mimória tristi ka trâl surisu di rostu. Ê kelâ ki ê fasi duranti tudu intrivista. Só ta ri.  

Ôji ê lansa Rosa e Espinhos EP ki “trâsi un vison diferenti” di artista, ki ta inklui jénerus musikal ki ta bai, alén di Rap, ku sonoridadi sima trap ku drill, mas ki tanbé ta abri kaminhu pa afropop, i riba di tudu kelâ, na kêl ki ka toka ku konteúdu, ê rialsa kêl inpurtansia di mudjêr i ê ta transmiti kêl isênsia pusitivu di Vado ki na meio di kês “altos e baixos” sénpri ê guarda kêl karisma ki ê ta transforma na mensagen ki ta mutiva tudu algén.

Vado Más Ki Ás. Kêl nomi têni un mensajen. Pamódi ki bu skodjêl?

Vado ê nha nomi di kasa i Más Ki Ás ê nomi di família ki inspiran pa n’kanta   pa n’fasi musika: seti amigu ki ta fasêba parti di grupu Más Ki Ás, na altura Nigga Suzi ku Baby Dog. Ami n’fika ku sês herança, n’entra na família n’rasêbi nómi Vado Más Ki Ás.

N’ta pratikaba motociclismo, n’ta fasêba kurida ku Miguel Oliveira, na altura era na katiguria mini GP

Vado Más Ki Ás

Família ki bu ta flâ ê família musikal?

Família musikal ku família di kasa, família di bairu. Bairu 6 de maio. 

Kusé kê bairu 6 de Maio na bu músika?

Bairu di undi ki n’bem, undi ki n’prendi tudu kusa, pa undi ki nha pai ku nha mãe bai mutu sedu.  Nha mãe vivi tudu si bida na kêl bairu, nhas irmons kria la, n’ton tudu nha bida foi na kêl bairu. Ê midjor bairu di mundu pa mi. Ê undi ki ntêvi nha primeru fidju fêmea ku nha sugundu fidju fêmea. Só terseru ki ka nanci la, ki ka kônxi kasa di sê dona. Ma kêl bairu ê kusa grandi pa mi.

Bu pai ku bu mãe nanci li ou ês ben di Caoberdi?

Ês ben di Tarrafal, Caoberdi, ilha di Santiago.

Na ki altura?

N’ka sâbi flâ na ki altura pamódi nha mãe móri ku 55 anu, âmi n’ka kiria ku nha pai. Ma ês ben mutu sedu pamódi nha mãe ku vinti i tal ánu dja ê staba ta mora na Purtugal.

Vado Más Ki Ás: “N’tinha 12 anu kuandu n’skrêbi nha primeru kantiga”. Foto: Orlando Almeida

Modi ki foi bu mininesa?

Nha mininesa foi bon ma tanbé foi mau. N’têvi txêu ajuda di nha família, n’kria ku nha mãe, ku nhas irmon i n’rasêbi un bon idukason. Ês dan tudu di midjôr ki ês podia daba mi pa n’ser ómi ki mi ê ôji.  Kantu n’tinha 12 ánu n’perdi nha irmon mas grandi, i ku 13 anu n’perdi nha mãe. A partir di kêl data n’ba mora ku nha madrinha ti 17 ánu… ku 19 ánu n’têvi nha primeru fidju, ku 21 n’têvi sugundu fidju i gôsi li ku 26 n’têvi nha terseru fidju.

Ê tudu kêli ki fasêbu diskubri bu talentu? kuandu?

Sim, kuandu n’dêxa di fasi kurida di mota, n’diskubri nha talentu, di verdadi. N’ta pratikaba motociclismo, n’ta fasêba kurida ku Miguel Oliveira, na altura era na katiguria mini GP. Ma sima nha mãe ka ta gostaba txêu pa n’fasi kurida di mota, n’skôdji musika. Foi na kêl mumentu ki musika entra na nha bida. Na kêl altura n’perdeba nha irmon mas grandi, nha mãe ka staba drêtu di saúdi i ê ka ta gostaba di fikaba êl só. N’ton nu disidi ma nu ta pára, mi ku nha ôtu irmon. Nta gostaba di kontinuaba, mas bem parsi ês problema, i musika bem kura tudu kelâ.

Kêli kuandu ki kontisi?

N’tinha 12 anu kuandu n’skrêbi nha primeru kantiga. Kontisi ku influénsia di Mas ki Ás, prisisamenti. N’gostaba txêu di musika ki ês ta fasêba, n’ta ôbiba ês txêu, n’ta xintiba rialidadi ki ês ta papiaba na sês kantiga. Stória di bairu, nha stória. Kelâ pon ta inspira pa fasi músika. Sima n’ta staba senpri na asosiason, n’kaba pa tchiga na Cova M (Cova da Moura). N’ben pa workshop di Moinho da Juventude undi ki tudu kumêsa. N’ta frekuentaba txêu Instituto de Apoio à Criança na 6 di maio i ê tinha ligason ku asosiason Moinho i na kêl altura ê skôdji alguns joven pa fasi workshop i ês skodjên. Ami n’ta agradêsi txêu. N’fasi nha primeru letra li i tudu ba ta kontisi di manera natural.

Ês skodjêu pamódi bu talentu?

Ês ka skodjên pamódi nha talentu. Tinha txêu joven ku interesi. Di verdadi âmi djâ n’tinha interesi pa musika, i ês skodjên pamódi kelâ. Ma tudu ba ta kontisi di manera natural, nunka ku speransa ma n’ta binha ser un grandi rapper, artista nacional ou mundial. N’ka tinha kelâ na nha kabesa. Tudu ba ta kontisi di manera natural. Sénpri n’gosta di arti, apisar ki n’studa informátika ku multimédia. Kês “kusa” pa la. Na kêl épuka n’kria na mi kêl bitchu di musika.

“Nu Ta Perdoa”, di “Rosas e Espinhos”

Bu kumêsa ta skrêbi kantigas ou rap?

N’kumêsa ku rap, ta konta stória di nha bida. Primeru musika ki n’fâsi foi pa nha irmon, kantu ki n’perdêl. I foi di lâ ki n’trâ inspirason pa skrêbi, pa n’disinfada nha alma. Foi si ki n’kumêsa.

Bu bira mas forti ku kês perda?

Sin. Un joven di 13 anu inda ta mesti un lar, i mi ntêvi ki bira grandi antis di tenpu. N’bira ómi mutu sédu, ku pensamentu di algén grandi, nau di mininu. N’ka xinti ma n’proveta nha mininesa, apisar di n’ter brinkadu txêu, mas sénpri ta kóri trás di kêl ki n’tinha na kabesa, ma ta binha ser nha carera. N’ba ta bai, ta kâi, ta lanta, ta konkista.

Ten un parti mutivasiunal na bu músika.

Kêli kê speransa ki n’ta kré transmiti, pamódi bida ê ka fasil. Tudu algén ten difikuldadi, ma també ten mumentu sábi ki nu ta silebra. Ma ê na kês pior mumentu ki nu ta pensa i ki nu tâ prendi dâ kusas valor.

Vado Más Ki Ás: “N’ka atxa ma kriolu sta na moda. N’atxa ma dja ten un identidadi ki nu ten ki pôi la riba”. Foto: Orlando Almeida

Kâl di bû músika ki bû ta gosta más?

Tudu ês. Nta skrêbi tudu nhas musika ku mesmu amor.

Kênha kê bu influénsia mas grandi?

Michael Jackson, Tupac, Snoop Dogg, Valete, Sam [The Kid] i un monti dês. Nta saíba di skóla ta kóri pa kasa pa ba djôbi MTV.

Di repenti bu bira konxêdu …kusê ki kêli ta signifika pa bô?

Significa ma ê pusível. Óra ki bu akredita, óra ki bu trabadja, óra ki bu respêta spásu, bu respêta gentis ki ta tarbadja ku bó, óra ki bu áma di verdadi kêl ki bu ta fasi, ki bu ta akredita sem djôbi pa trás. N’ka tâ spêra tipu ma “ôji ta kontisi kêli ou kelâ”. N’ka ta spêra kelâ, mas n’ta spêra ma tudu ta kóri drêtu. Na nha bida tudu sta ta kóri drêtu i n’ta agradêsi txêu. Nhor Deus ta bensuan tudu dia. N’ta tarbadja kuasi 24 óra tudo dia.

Bu monta studio dentu di bu kasa…

Ê kau ki n’gosta mas. Ka pudia ter ôtu lugar midjôr.

Kusé ki pesoas sima Julinho KSD ou Dino D’Santiago ta fâsi pa muda manera ki gentis ta pensa i ta odja bairu sosial ku kumunidadi sima Cova da Moura ou 6 di Maio?  

N’atxa ma djâ nu stâ tâ fâsi kêl mudansa. Nu stâ tâ fasi, nu ta kontinua tâ fasêl. Kês nómi i ôtus nómi ki ta ben di bairu i ki ta representa kultura Hip Hop ku arti, ês ta ben muda kêl mentalidadi. Ku mentalidadi abertu nu ta ben abri porta pa leba língu kriolu, pa fasi gentis kônxi nôs stória, kêl ki nu ta xinti. Ê mutu inportanti mostra kelâ pa gentis pôdi konxi nôs vivênsia. Talvês nen anôs nu ka tinha kêl vison ma nu staba ta trâsi tudu kêl mudansa. Na kêl jerason li, dja muda txêu kusa. Nu ta odja na Julinho, nu ta odja na Dino i nu ta odja na Vado Más ki Ás i na mutu mas!

“Stâ ku kês kantoris merkanus ki n’ta ôbiba i fasi musika ku ês… foi inéditu pa mi. Tanbé, stâ na Times Square ta djôbi fasi pa n’pensa ma mi tanbé un dia n’ta txiga lâ”

Vado Más Ki Ás

Kriolu. Nhôs stâ tâ leba língu kriolu pa Purtugal i pa mundu. Bu atxa ma ê un moda ki ta bem pasa ou ki ben pa fica?

Nau. N’ka atxa ma kriolu sta na moda. N’atxa ma dja ten un identidadi ki nu ten ki pôi la riba. Ê ser kêl ki nu é. Ê natural i nu ka ten ki muda pa agrada ningén. Ê ka kelâ. Ê pôi tudu pontu undi ki ten ki stâ.

Rap kriolu dja konkista Purtugal?

Sin!

Bu ta kantaba só na kriolu ma gôsi bu ta kanta tanbé na purtugês pamódi?

Pamódi n’ta vivi na Purtugal i n’kré pa nha mensajen txiga na tudu algén. I ti nha kriolu, n’ta fasêl di manera ki tudu algén tâ pôdi intendi.

Óra ki nu djôbi panurama di musika pop na Purtugal, nu ta odja ma ten kada dia mas negro, i gentis ki ben di bairu sosial.  Kêli ta odjadu sima un sinal pusitivu. Bu atxa ma kêli ê fundamental pa luta kontra rasismu tanbé?

N’ka gosta di papia di rasismu. Ê ka pamódi n’ka kré odja ma ê ta isisti, dja n’pasa pa el. Ma n’ta atxa ma kusé ki ta n’porta ê amor… Ama bu próximu. Nha música “Amor próprio” ta papia di kelâ.

Ama bu kabesa, ama bu próximu, respêta ôtu algén. Transmiti mensagen di luta, di vitória, di risistensia – di mudjêr i di ómi. Mas valorisa mas ki tudu,  parti fimininu. “Amor Próprio” ta papia di riconsiliason i di speransa. Di ama ku forsa i nunka disisti.

Sima nu stâ tâ papia di “altos e baixos”, bu ten un nobu EP ki bu txoma di “Rosas e Espinhos”.

Sin. Ê têni un vison diferenti. N’trâsi txêu nobidadi pa kêl mudjêr di lida, ki ta luta, ki ta kóri trás, ki ta sufri, ki ta guarda sentimentu puru i txêu bês mutu dilikadu. Anôs rappers, na maioria di bês nu ta djôbi mudjêris di manera diferenti, i mi n’tenta muda kêl leitura i linguajen na rap ku ôtus stilo di músika ki n’sta tâ fasi gósi, pa ba buska speransa, tanbé pa fasi gentis kônxi mas fundu kêl ladu di mudjêr.

Flánu di kêl speriênsia di bó na Merca, Estados Unidos?

Foi surial i inéditu. Kêl ki talvês n’ta odjaba só na filmi ku tilivison, n’konsigi odja ku nha ôdju. N’xinti gentis pertu. Ê pusível nu txiga undi ki nu kré. N’odja, gentis ta grita nha nómi, ta kanta nhas musika, di kumesu ti fin. Stâ ku kês kantoris merkanus ki n’ta ôbiba i fasi musika ku ês… foi inéditu pa mi. Tanbé, stâ na Times Square ta djôbi fasi pa n’pensa ma mi tanbé un dia n’ta txiga lâ.

Futuru?

Un monti kusa, un monti prujetu. Nu stâ ben fasi un monti prujetu, un monti konsertu ku karera internasional. Sen kóri txêu.

Si bu djôbi pa trás kusé ki bu ta mudaba?

N’ka ta mudaba nada, ma n’ta pôba un monti kusa ki n’ka pôi.

Kusé ki bu ta daba mininus di bu bairu?

Konsêdju. Nta n’xinaba ês ôbi gentis grandi. Ser filis, ser kontenti. Ser kêl ki ês é. N’ta daba ês idukason ku formason tanbé. Prisensa ê muto inportanti. Ami ntêvi mutu ausênsia, mas ka era culpa di nha mãe. N’ka sabi kal kê suluson pa kês mãe di ôji, mas nha mãe atxa txêu suluson ki foi luta pa sustentanu mi ku nhas irmon, idukanu pa nu ser ómi ki nu ben ser hoji.

Kusé ki bu ten pa flâ mães di ôji?

Pa ês kontinua ta luta. Ami n’kré midjor pa nôs mudjêris di lida. Nu stâ ben fasi di tudu pa ês xinti sabi. Sima nôs mãe pikinoti. Ami n’têni 3 fidju i n’sta ben dâ tudu pa ês, sima pai i sima ómi ki mi ê. Nha fidjus teni presensa di sês pai grasas a Diós. Prisensa ku amor. Ê kelâ ki mi n’kré dâ nha mininus, nha povo, nha kumunidadi, nhas fã, nha família, amigu, gentis ki ta trabadja ku mi. N’kré dâs pusitividadi.

Undi ki bu ta ranja tudu kêl bu inirjia na dia-a-dia ku na palku?

Ami ê un algén ku txêu inirjia. Ku txêu aligria. I n’atxa ma n’ten ki gastâs. Nha aligria ta ben lâ di riba, mano! Kêl ki sta lâ riba ki ta dan tantu inirjia.

Kal kê bu Lisboa?

Nha Lisboa ê tudu Lisboa. Tantu na bairu sima na sidadi. N’ka ta konsigi sai di Lisboa. N’ka ta odja nha kabesa na ôtus sidadi di Europa. Li n’konxi tudu algén. Lisboa ê di nôs. Midjor verão ê di Lisboa, midjoris festa, midjoris consertu, midjoris mumentu na bairu… pa bu teni un ideia, tem gentis ki ta ben di França ku Luxemburgo i ki ta fica dôs simana na Cova da Moura, na Damaia ka ta bai sidadi. També n’ten rasebêdu txêu mensagen di gentis di PALOP, Guiné, Caoberdi, Angola, Moçambique i di São Tomé e Príncipe. Txêu mensajen di Senegal tanbé.


Karyna Gomes

É a jornalista responsável pelo projeto de jornalismo crioulo na Mensagem, no âmbito do projeto Newspectrum – em parceria com o site Lisboa Criola de Dino D’Santiago. Além de jornalista é cantora, guineense de mãe cabo-verdiana, e escolheu Lisboa para viver desde 2011. Estudou jornalismo no Brasil, e trabalhou na RTP, rádios locais na Guiné-Bissau, foi correspondente de do Jornal “A Semana” de Cabo verde e Associated Press, e trabalhou no mundo das ONG na Unicef e SNV.

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