Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Começo por avisar que o tema desta crónica é para leigos. Bem, talvez não seja apenas para estes, até porque tenho ouvido da parte de alguns aspirantes a fadistas uma certa confusão sobre o assunto. Tentarei não ser demasiado técnico e aborrecido. Até porque o Fado é tudo menos isso 😊.

Então aqui vai: o que é o Fado Tradicional? Sim, Tradicional com maiúscula… e já explico porquê.

Primeiro, é importante perceber que considero que existem dois tipos de Fado: Tradicional e Canção.

Atenção, caríssimos leitores, Fado Vadio não é um tipo de Fado! Refere-se simplesmente aos locais onde o Fado é essencialmente amador, sem programação específica, onde quem quiser pode cantar… mesmo que não tenha rigorosamente jeito nenhum!

Muito resumidamente, o primeiro – para alguns mais fundamentalistas, o único – o Tradicional, é um conjunto de melodias (sem letra associada) com métrica específica e regular, sem refrão e com uma “linguagem” musical muito própria.

O segundo, o Canção, é composto de temas que foram sendo assimilados pelo repertório fadista, em que melodia e letra normalmente não se dissociam, geralmente com refrão e por vezes com uma “linguagem” musical que se aproxima mais de outros géneros. Nestes, também se podem incluir, por exemplo, as Marchas.

A confusão reside fundamentalmente no termo “tradicional”, que no caso do Fado se escreve com maiúscula, pois funciona aqui como substantivo e não como adjetivo. Muita gente tende a achar que Fados Tradicionais são os clássicos, fados mais antigos e populares, mas não. O Fado Tradicional é a base de sustentação do próprio Fado e a sua forma mais “pura”.

É um conjunto de perto de duzentas melodias, geralmente pouco complexas, cuja principal finalidade é servir musicalmente a letra ou poema.

Esta lista não é estanque, felizmente. Tanto que têm vindo a ser criadas, nos últimos anos, algumas melodias de cariz tradicional, que vão ajudando a manter o Fado em constante evolução.

Um bom exemplo é este “Fado Daniel”, de Daniel Gouveia, criado para o projeto “Lisboa em vários tons” (com letras de Carlos Baleia), e que tem vindo a ser muito cantado nos “antros” fadistas:

A verdadeira beleza dos Fados Tradicionais é precisamente essa aparente simplicidade, que oferece ao fadista toda a liberdade necessária para melhor interpretar os versos que canta.

Pressupõe-se, aliás, que um/uma fadista que se preze, nunca cante o mesmo Fado duas vezes da mesma forma. A razão é simples: se o Fado é o canto da alma, da emoção, do sentimento, ninguém sente exatamente o mesmo duas vezes, pelo que a sua interpretação de cada Fado deve ser irrepetível.

A métrica dos versos dos Fados Tradicionais é regular – ou seja, é sempre a mesma ao longo de todo o tema – e pode ser de sete, dez ou doze sílabas.

As estrofes, também elas regulares, podem ser compostas por quatro (o mais comum), cinco, seis ou dez versos. Não existem, portanto, sonetos no repertório do Fado Tradicional. Já a forma de rimar depende principalmente do Fado e da sua estrutura, sendo que existe alguma exigência no que toca ao ritmo das próprias palavras, da sua acentuação.

O caso do “Fado Triplicado” (José Marques) é paradigmático, sendo os segundos e quintos versos de cada estrofe “quebrados” em duas partes e rimando entre si e com os primeiros e quartos versos. Serve isto para ir ao encontro do ritmo da própria melodia.

Um belíssimo exemplo de um poema perfeitamente adaptado ao “Fado Triplicado” é o “Princesa Prometida”, de Aldina Duarte:

Existem algumas exceções a esta regra, ou seja, Fados Tradicionais que fogem ao que acima expliquei e que têm uma métrica própria.

Veja-se o caso do “Fado Modesto”, de Júlio Proença, que parece ter refrão, mas na verdade não tem, já que não há repetição da letra.

É o caso do tema “Antigamente”, de Frederico de Brito, aqui cantado por Amália Rodrigues:

Há outro exemplo curioso, em que a mesma melodia oferece tal liberdade ao cantor, que nela podem cantar-se letras ou poemas em quadras, quintilhas ou sextilhas (sempre com versos de sete sílabas métricas).

Refiro-me ao muito cantado “Fado Pedro Rodrigues” (sim, é mesmo o nome do autor). Deixo três bons exemplos: em quadras, “A Minha Cor” de Manuel de Andrade, cantado por João Braga; em quintilhas, “Pressentimentos” de Tiago Torres da Silva, na voz de Linda Leonardo; em sextilhas, “Duas Lágrimas de Orvalho” de Linhares Barbosa, interpretado por Carlos do Carmo.

O mesmo Fado, três estruturas diferentes.

Tenho que referir ainda os três Fados mais simples do repertório fadista. Simples, por terem apenas dois acordes. Mas aí reside também a sua enorme complexidade. São Fados que não têm melodia, sendo esta “criada” no momento pelo/pela fadista. São também, por isto mesmo, os mais difíceis de cantar.

O Menor. Aqui com Sara Correia e Maria Emília – Poema de Vasco de Lima Couto:

O Corrido. Aqui com Fernando Maurício – Letra de João Linhares Barbosa:

O Mouraria, Aqui com Alfredo Marceneiro – Letra de João Linhares Barbosa:

Em suma, os Fados Tradicionais são melodias sem refrão, de métrica regular e sem letra. Ora aqui reside também uma das grandes belezas do Fado.

A possibilidade que oferece aos cantores de facilmente criarem o seu próprio repertório, bastando para isso que encontrem ou escrevam uma letra original ou inédita e a combinem com um Fado que lhe sirva. (Daí espantar-me que alguns se recusem a fazê-lo, preferindo ir buscar quase em exclusivo o repertório de outros… ou outras),

Atenção que o “servir” a letra não é apenas que a estrutura de melodia e letra sejam coincidentes. Há que ter atenção ao ritmo das palavras, ao teor do poema, à rima… mas quando tudo isto é bem conseguido, então temos Fado.

Tudo o mais dependerá sempre da interpretação do/da fadista e músicos.

Para quem quiser debruçar-se um pouco mais sobre este tema, aconselho alguns bons sites/blogues sobre Fado Tradicional:

fadosdofado.blogspot.com/, do meu querido amigo José Fernandes Castro

fadotradicional.wixsite.com/fadotradicional

youtube.com/user/4FadoLisbon

youtube.com/user/zedaviolaporto/featured


Rodrigo Costa Félix

É lisboeta, fadista com trinta anos de carreira, letrista, produtor, agente e coproprietário do restaurante Fado ao Carmo. Tem quatro discos editados, vários prémios e distinções – nacionais e internacionais – e uma vida inteira dedicada à promoção e divulgação da “canção de Lisboa”.

Entre na conversa

6 Comentários

  1. Bela análise e resumo da essência do Fado, nas suas principais vertentes.
    Bem e picado e exemplificado.
    Obrigado 👍👍

  2. Até que enfim que alguém consegue falar de Fado Tradicional sem falar de Marceneiro, é de mestre, qual versículo, qual cravo, qual … qual etc..

  3. Rodrigo, cultura, muita cultura, gratuitamente passada desta arte tão genuína nossa e genuína. Muito bem ensinado, aprendi muito. Parabéns!

  4. Parabéns Rodrigo, pelo trabalho de compilação, qualidade e pela postura imparcial, que não é muito vulgar no mundo fadista.
    Um abraço

  5. Muito interessante e bem fundamentada, esta explicação, descrição do Fado nas suas variantes, e ilustrada com excelentes exemplos.

    Obrigado e Parabéns ao Rodrigo Costa Félix.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.