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Lembro-me de um cão tenso que só abocanhava a comida posta no nariz quando o dono lhe dizia «morde». Antes de ouvir a voz de comando, naquela antecipação de patas e músculos e nervos ávidos – o bicho todo fome, todo vontade de comer –, babava-se, gemia baixinho, arriscando-se a apanhar; na verdade, queria sobretudo abocanhar, mastigar, comer. Essa fome de animal, ele compacto e potente (uma antecipação de coisas mortais), pendia sobre nós, que estávamos na sala.

Nós na sala éramos eu, adolescente de dezasseis anos, os meus pais e o grupo que chegava para jantar, tirar as guitarras portuguesas dos estojos e cantar fados que seriam baladas – quer dizer, que seriam serenatas a namoradas de antigamente.

E nós na sala éramos sem tirar nem pôr uma única pessoa, as atenções centradas nela. Ao contrário do cão, que cheirava a comida fresca no focinho e desejava perdê-la dentro de si, nós também tínhamos a Teresa algures na nossa fronte, tensos nós e ela, por sabermos que, ao mínimo sinal do dono, um animal faminto a abocanharia.

Antes de dizer o animal, quero dizer a Teresa – que era enfermeira em bastantes aspectos da vida (o cuidado que punha nas coisas pequenas), e algo baixa mas de estatura muito proporcionada. Lembro-me especialmente da voz, uma voz de barrar manteiga.

Amiga da minha mãe, prima do meu pai, era sinónimo dos dias na barragem, dias de lagostins e de Verão, e mais tarde sinónimo dos dias na Arrábida, dias de parede de serra e «Puerto Rico» tocado alto na varanda. Para mim, a Teresa significava a vida a cheirar a terra quente, a caruma de pinheiro e ao odor vago a cloro de piscina. Mais ou menos o mesmo que felicidade.

Mas, entretanto, o animal preparava-se para abocanhar. Meses antes, fora-lhe diagnosticado um melanoma com metáteses no cérebro. Isso, o cancro, pingara-lhe de morte no cérebro e começava a apagar-lho – primeiro, as dores de cabeça; depois, as dores de se extinguirem as ligações que, dentro de nós, nos fazem nós. E tu, quem eras? E tu, quem já não és? Aquela ali sou eu?, começava a dizer-lhe a mente, dando voz às manchas de devorar que tinham o nome científico de metáteses. Começara os tratamentos, não frívolos mas apenas de adiar, e ela, que era magra de cara, agora esta inchara-se-lhe por causa da cortisona. Esmurrada por mão invisível.

As más notícias passam rapidamente de pessoa em pessoa, qual ferro quente que nos queima as mãos se não o atirarmos para as dos outros. E chegaram a um antigo namorado da Teresa, que era cantor. Namoro de adolescência, penso eu. Quarenta anos de afastamento agora resumidos num telefonema em que o cantor lhe disse: faço em tua casa uma noite de fados, cantamos-te uma serenata.

A sala tinha mármore a mais – lajes brancas, extensas –, decerto demasiado mármore para acolher a voz do cantor e da fadista que este trouxera consigo. Nós à volta a assistir. As duas vozes quentes, que agora começavam a serenata a uma mulher terminante, embatiam no chão, iam às paredes, ecoavam como preces numa caixa de frieza.

Porém, as vozes, os fados que se seguiam uns aos outros, iam aquecendo a sala, juntando-nos ombro a ombro como sempre faz a boa música – e bem víamos que, aos poucos, a Teresa, essa rapariga de dezassete anos cujo namorado lhe dedicava versos, voltava à adolescência. Brevemente eterna.

Hoje, quando me lembro dela, esforço-me por estendê-la como roupa lavada. Que o melhor dela na vida antes do cancro fique perante mim limpo e reluzente, a mover-se sob o vento fraco de Verão. E que não haja nessa brancura a mancha preta que tantas vezes, além de matar, tolda a memória, tende a reduzir a vida de quem nela toca ao recipiente de uma doença.

E tento também fugir do calafrio que senti quando a noite de fados começou. Chegara o cantor, haviam chegado os músicos. A minha mãe recebeu-os à porta de modo a poupar o esforço à Teresa. E o cantor, não se lembrando da cara da antiga namorada, atirou-se aos braços da minha mãe como se fosse ela a doente – como se ela, a minha mãe, estivesse marcada pelo melanoma. E isto assustou-me, a mera sugestão do engano, a possibilidade nenhuma de estar ela, a minha mãe, em cima de um focinho com fome.

Chegada a noite ao fim, o mármore da sala aquecera, e a Teresa esquecera-se certamente, pelo menos num ou noutro fado dedicado a si, que a cara inchara de cortisona e que, daí em diante, não haveria uma batalha para perder. O cancro não era o oponente que coubesse a ela derrotar. Era uma fatalidade, coisa do acaso, uma pintalgada de células desordenadas. Um fado desafinado.

E sim, eu sabia, todos sabíamos: um imenso cão cuja única vontade é morder e consumir a refeição seguinte.

* O tema desta crónica surge na senda do desafio do IPATIMUP, que está a promover a iniciativa «Tratar o cancro por tu». Mais informações em facebook.com/ipatimup


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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