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As crianças despertam lentamente da sesta e espreguiçam-se na lona sobre a relva, tendo a copa das árvores como teto. Os feixes dourados cortam o arvoredo e iluminam a sanita portátil onde um miúdo faz serenamente o que tem que fazer, ao ar livre, separado pelos arbustos dos colegas que trepam um sobreiro. O termómetro marca 15 graus, mas o dia é soalheiro. Mas se não fosse, não haveria problema: nesta escola, o banho de chuva faz parte das aprendizagens.

A funcionar desde julho de 2020 na mata da Quinta das Conchas, a escola Lá Fora é tudo o que o nome sugere, uma vivência pedagógica que desafia pais e filhos a trocarem o tradicional modelo de ensino entre quatro paredes pela liberdade de uma “sala de aula” no meio da natureza, onde todas atividades decorrem, das oito e meia da manhã às seis e meia da tarde, chova ou faça sol.

A ideia de implementar em Lisboa o modelo escandinavo do Forest School foi de duas profissionais lisboetas, cansadas da rotina no sistema convencional de ensino na creche onde trabalhavam. Viram na imersão dos alunos na natureza a oportunidade de “mudar o chip” de determinados comportamentos das crianças.

“Se chovessem três pingos, já pensavam que iriam constipar-se”, diz a diretora pedagógica, Ana Galvão.

As mentoras da escola Lá Fora em Lisboa, Ana Passos e Sousa, Ana Galvão e Nádia Morais: aposta na autonomia dos alunos. Foto: Inês Leote

“Sentíamos que as crianças estavam presas, sem a possibilidade de aprenderem com o próprio corpo. Não só na questão do medo da chuva, mas também do receio da sujidade e do contacto com a natureza”, continua Ana Galvão. “Aqui, no meio da mata, elas são obrigadas a mudar o chip e lidar com o risco, mesmo que seja um risco controlado”, completa.

Forest School nasceu há 80 anos, na Dinamarca

A psicóloga Ana Passos e Sousa é a diretora técnica da escola Lá Fora e observa à distância um dos alunos, de cinco anos, que se esforça na missão de trepar um pinheiro. “Parece simples, mas subir a uma árvore é uma forma de a criança desenvolver suas competências”, explica. Faz parte da aprendizagem que os educadores não ajudem os miúdos na escalada. “Precisam de aprender a fazê-lo por eles próprios.”

A regra aplica-se à própria filha de três anos, que sozinha tenta equilibrar-se sobre as raízes de uma árvore caída. Ela é uma das 46 crianças entre os três e os seis anos que atualmente se dividem pelas três turmas da escola, a funcionar num modelo semelhante ao pré-escolar e que exige aos pais a disposição tanto para deixar os filhos o dia inteiro numa mata como para pagar os 450 euros de mensalidade.

Um valor que pode soar estranho tendo em consideração que se trata de uma escola sem cadeiras, mesas, portas, tetos e alguns custos fixos, como eletricidade. “Pela natureza do nosso modelo, contamos com mais profissionais envolvidos”, explica Ana Passos. “Enquanto numa escola tradicional, uma sala tem 25 alunos e dois educadores, nós trabalhamos com 18 crianças por turma e três educadores”, explica.

A luta dos educadores é para que o Ministério da Educação reconheça o modelo Forest School

A originalidade da proposta e o valor da mensalidade não parecem assustar os pais, os portugueses que compõem a maioria dos encarregados de educação dos alunos matriculados na Lá Fora, e os imigrantes, brasileiros e da Europa. Um número que ainda não é maior devido aos entraves da legislação.

A escola mantém turmas com menos alunos e mais educadores do que nos sistemas tradicionais de ensino. Foto: Inês Leote

Apesar de a Câmara Municipal de Lisboa ter estabelecido um protocolo para o funcionamento de uma escola na mata adjacente ao parque Quinta das Conchas, no Lumiar, o Ministério da Educação ainda não reconhece o modelo Forest School, o que impede a Lá Fora de se constituir como uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) e praticar descontos de acordo com o escalão dos pais.

O pedido feito ao Ministério da Educação detalhava as linhas do sistema Forest School, que até pode ser uma novidade no soalheiro Portugal, mas é uma octagenária tradição que remonta os anos 1950 na nublada Dinamarca. Apesar da falta de reconhecimento, já há uma rede de estabelecimentos em território português, sob o guarda-chuva da Associação Escola da Floresta em Portugal.

“Já insistimos com o Ministério para que reconheça o nosso modelo pedagógico, mas ainda sem sucesso. Estamos a reorganizar a documentação para uma nova tentativa após as Legislativas”, conta a diretora pedagógica Ana Galvão, que assim como as outras mentoras da Lá Fora, passaram por uma formação, realizada no Reino Unido, a fim de obter a certificação.

A corrida contra o tempo é para dar um passo a mais e ampliar o número de turmas, pois apesar do valor da mensalidade, as vagas costumam esgotar-se no mesmo dia em que são abertas, sem necessidade de publicidade.

Atividades também nas férias e para os bebés

Muitos dos futuros alunos da escola são oriundos das atividades de férias realizadas em julho e agosto, e durante as férias da Páscoa e do Natal. É a oportunidade para as crianças dos sistemas tradicionais de ensino travarem contacto com a escola e também de se desarmar o receio dos pais com uma experiência, a princípio, aparentemente radical. Há ainda outras oportunidades para conhecer melhor a proposta pedagógica.

“Estas crianças fazem parte do nosso Play Group”, explica a terceira sócia da escola, a diretora de comunicação Nádia Morais, apontando para um pequeno grupo de bebés, entre os zero e os três anos, acompanhado pelos pais numa clareira da mata, afastada dos meninos e meninas maiores.

Em círculo, os adultos conversam enquanto observam as crianças a brincarem com paus e ramos – os brinquedos tradicionais são proibidos na escola – ou a darem os primeiros passos sobre a relva.

“Em rigor, os alunos fazem aqui tudo o que é feito no modelo convencional. Só não fazem numa mesa, mas numa lona”

Ana Galvão

Ao contrário do pré-escolar, os encontros acontecem durante duas horas, pela manhã ou à tarde. “É um espaço de apoio aos pais e cuidadores, para que saiam de casa com os bebés para um programa diferente, saudável e seguro. Também é a oportunidade para muitos deles, que costumam passar os dias sozinhos, entrarem em contacto com outros adultos e partilharem as suas experiências”, conta Nádia.

As poças secas esperam pelas chuvas para a brincadeira preferida. Foto: Inês Leote

É possível também trazer as crianças para atividades extracurriculares, no horário não letivo, das quatro e meia às seis e meia da tarde, numa espécie de ATL na floresta.

Além de garantir uma receita operacional extra – tanto na modalidade Play Group como na extracurricular, a sessão de duas horas custa 40 euros – as variações permitem que pais e filhos desmistifiquem as rotinas de uma escola ao ar livre.

De dias de chuva à Porquinha Peppa

Rotinas como ir à casa de banho decorrem também entre árvores e arbustos. A reluzente retrete portátil de plástico branco é só um dos vários equipamentos transportados diariamente de um pequeno depósito no parque para a mata e depois arrumado novamente no fim do expediente.

A casa de banho portátil entre arbusto e ao pé de uma árvore. mas só para o “número 2”. O chichi faz-se na moitinha mais próxima. Foto: Inês Leote

O vai e vem é feito no atrelado de uma bicicleta elétrica. “Além da casa de banho, trazemos água, as lonas e as caixas com equipamentos didáticos”, explica Ana Galvão. Materiais que são o que de mais próximo a Lá Fora tem com uma escola tradicional. “Em rigor, os alunos fazem aqui tudo o que é feito no modelo convencional. Só não fazem numa mesa, mas numa lona”, exemplifica.

A lona é um equipamento indispensável e multitarefa. Tanto faz as vezes de mesa como de cama para as sestas dos mais pequenos ou ainda como de cobertura para os dias chuvosos, quando os alunos vestem os impermeáveis e calçam as galochas para saltarem nas poças, à Porquinha Peppa. “O nosso lema aqui é que não há mau tempo, há mau equipamento”, ilustra Ana Galvão.

As galochas e os impermeáveis são parte da lista de material escolar, assim como casacos, fatos-macaco e jardineiras.

A exceção são os dias muito ventosos, por questões de segurança, sob o risco de queda de árvores. É o único motivo para a suspensão das aulas. O bom tempo neste inverno tem mantido afastados os ventos fortes, mas também tem suspendido as chuvas, adiando a diversão preferida dos alunos, embora as marcas das poças permaneçam visíveis no saibro, à espera de água.

As galochas e os impermeáveis são parte da lista de material escolar, assim como casacos, fatos-macaco e jardineiras. Alguns dos itens são solicitados aos pares, pois é inevitável que as roupas se sujem com frequência. Pendurado nos ramos como um móbile, o calendário marca o dia da semana e data do ano, enquanto as primeiras lições do abecedário ilustram um cartaz fixado no tronco de uma árvore.

A bicicleta que diariamente traz e leva os materiais para a realização das aulas ao ar livre. Foto: Inês Leote.

“Foi ideia dos alunos escreverem um aviso aos frequentadores da mata nos fins de semana para não deixarem o lixo na escola deles”, conta Ana Passos e Sousa. A sensibilização dos utentes do espaço funcionou e a tarefa diária de limpar toda a área da mata utilizada pelas crianças tornou-se mais fácil às segundas-feiras.

“Uma atividade que vai ao encontro dos nossos objetivos de formar pessoas com autonomia e que transformem o meio-ambiente”, comemora a diretora.

Uma alternativa em tempos de pandemia

Para além dos desafios climatéricos, as mentoras da escola tiveram que enfrentar um obstáculo ainda mais poderoso: a pandemia. “Pedimos demissão da creche onde trabalhávamos em novembro de 2019 e quando nos sentámos para planear a abertura da escola, em fevereiro de 2020, surgiu a covid-19”, lembra Ana Galvão.

As primeiras palavras são em forma de um apelo aos utentes do parque para que não deixem lixo na sala de aula na floresta. Foto: Inês Leote

A sócia Ana Passos e Sousa temeu pelo pior. “Cheguei a pensar que era um azar descomunal”, conta. A perceção, porém, começou a mudar quando a convivência ao ar livre passou a ser valorizada como medida profilática da contaminação. A grande procura pelas atividades nas férias de julho e agosto de 2020 confirmou a suspeita de que a Lá Fora havia chegado no tempo certo.

Ao contrário do que se tem visto na rede escolar tradicional, ainda não houve casos de contaminação.

Coincidência ou não, a reabertura das atividades em 2022 tem sido tranquila e, ao contrário do que se tem visto na rede escolar tradicional, ainda não houve casos de contaminação entre os alunos do pré-escolar. Nem de covid-19 e nem de gripe.

Para já, não houve necessidade de isolamentos – o que, convenhamos, seria impraticável numa mata – e as tardes de sesta, com os miúdos deitados na lona sobre a relva e as copas das árvores como teto, seguem harmoniosas, como os sons dos pássaros que marcam o início e o fim de mais um dia de aula Lá Fora.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comentário

  1. Iniciativa muito interessante. Pena não ser acessível a todos, sob o ponto de vista financeiro. Parabéns às mentoras pela ousadia !!!! E a Álvaro Filho pela reportagem !

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