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Quem chega à posição de líder, ou rei, passa sempre por dificuldades e desafios. Vem isto propósito do nome do nosso filho, acabado de nascer, em Lisboa, na Maternidade Alfredo da Costa. Já vos explico.

No último mês do ano passado, quando chegámos a Portugal, apesar de todos os problemas por que passámos, ainda estávamos a pensar que nome daríamos ao bebé que ia nascer em breve na nossa família. Sabíamos apenas que nosso bebé era um menino e que ele estava bem de saúde. Não sabíamos quando e nem onde ele nasceria.

Na cultura afegã, desde os tempos antigos, os nomes são escolhidos pelos anciãos da família com base em diferentes religiões e métodos, e geralmente um nome familiar e significativo é escolhido para o bebé. Sabíamos que isso não iria acontecer: não íamos ter os votos dos nossos pais (eles estão longe, noutros lugares para onde foram também para fugir do Afeganistão).

Passando por vários nomes achámos que deveríamos escolher um nome com significado. Este bebé passara por todos os problemas e, durante 30 duras semanas estivera no ventre da sua mãe, no Afeganistão, que pensávamos que ia ser a sua terra natal. Quando a Roya soube que estava grávida nada disto estava no nosso horizonte. Mas o destino mudou e os últimos meses da gravidez foram passados em viagem, em fuga do nosso país, da nossa casa, da nossa pátria.

Encontrámos a palavra Zaeim no Corão. Vimo-la pela primeira vez, nunca tínhamos reparado neste nome antes, mas pareceu-nos interessante também porque descobrimos que é uma palavra árabe e significa líder ou rei. E aí decidimos dar o nome de Zaeim ao nosso bebé. Ele, aquele que viveu as agruras no ventre da mãe durante a viagem de Cabul a Lisboa, mas que por isso estava destinado a algo maior.

Nascimento antecipado

Pelas conversas e consultas que tivemos com o primeiro ginecologista que a Roya consultou, Zaeim deveria nascer no dia 16 de janeiro de 2022. Mas isso não aconteceu. A 7 de janeiro tivemos uma consulta na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, e o médico sugeriu que Roya fosse internada: o nascimento de Zaeim podia estar próximo. Como estávamos sempre todos juntos em todas as consultas que tínhamos, naquele dia, Sama, a minha filha de 4 anos, e eu decidimos ir para casa – no Centro de Refugidos, na Bobadela, enquanto a mãe ficava internada.

Estávamos nervosos, à espera, e a distância não ajudava. Eram exatamente 23h50 quando recebi um telefonema de Roya: “Zaeim vai nascer muito em breve”, disse. Acordei com pressa, e preparei a Sama para irmos ao hospital. Fiquei logo preocupado com a Sama: o que devia fazer com ela se o hospital não a deixasse entrar. Não tinha com quem a deixar.
A solidariedade entre compatriotas funcionou: liguei para um amigo afegão chamado Atiq Kakar que mora também no centro de refugiados – e pedi que ele fosse ao hospital connosco.

Leia a primeira crónica de Zaiem e a sua história aqui:

O problema a seguir era o táxi: na área em que estávamos, como é longe do centro da cidade e longe do centro da Bobadela, não havia táxis. Tivemos que esperar uma hora e até a Sama adormeceu novamente. Fiquei preocupado porque não sabíamos nada sobre Roya. Finalmente um táxi chegou. Ao longo do caminho pensei como é difícil um emigrante longe dos amigos, da família e principalmente longe dos pais. E rezei para que tudo ficasse bem com Roya.

No Hospital, como esperado, Sama e Atiq não foram autorizados a entrar. Era meia-noite e o tempo estava frio, mas eles ficaram a noite toda numa esquina do lado de fora, esperaram o nascimento de Zaeim… o que não aconteceu naquela noite. Às 5 horas da manhã, como não havia notícias do nascimento, voltamos para casa.

Eu ligava a Roya a cada 20 minutos. No sábado à noite, o médico sugeriu uma cesariana se o bebé não nascesse em algumas horas. Quando soube que Roya ia fazer uma cesariana, o meu stress aumentou. De facto, e apesar de todas as dores de Roya, o bebé não nasceu.
Eram 23h58 quando recebi um recado de Roya: “A operação vai acontecer daqui a meia hora”. Mais uma vez acordamos com pressa e pedimos um táxi e novamente enfrentamos o mesmo problema com o táxi.

Uns 40 minutos depois, chegamos ao hospital e Sama perguntou, como um menina crescida que é: “Devo esperar do lado de fora do hospital de novo?” Abracei-a e disse-lhe: “Sim, porque não podes ir comigo mas vou ao hospital trazer o teu irmão e a tua mãe e depois vamos todos juntos para casa”.

Sama ficou em silêncio e caminhou devagar e parou no canto onde havia passado a noite anterior. Mas encontrei o guarda do hospital e pedi que deixasse Sama e Atiq sentarem-se na sala de espera porque o tempo estava frio e poderia levar várias horas para o nosso bebé nascer. O guarda do hospital ficou em silêncio por um momento e depois permitiu que eles se sentassem na sala de espera.

Eu também tinha que esperar porque a Roya estava na sala de cirurgia e a operação estava em andamento. Esperei que meu nome fosse chamado. “Agora pode ver o seu filho e a sua mulher, a operação foi feita com sucesso”. Eu estava desorientado, não sabia que caminho seguir para chegar ao segundo andar, mas ainda antes de entrar no quarto onde ia ver o meu bebé, ouvi o choro dele. Entrei na sala, os meus olhos fixaram-se na criança ao colo da minha mulher. Olhei para ele, perguntei à Roya, de forma atabalhoada: é nosso bebé? Ela disso, num sorriso: “Sim, ele é o nosso rei”.

Zaiem em Lisboa

Beijei Zaeim e disse: “Bem-vindo!” Foi um momento que não consegui expressar em mais palavras. Enviei uma foto do Zaeim para o Atiq mostrar à Sama. Ela estava feliz.

Finalmente, Ahmad Zaeim Seerat nasceu em 9 de janeiro de 2022 às 1h22 na Maternidade Alfredo da Costa. Abriu os olhos para o mundo em Lisboa. Desejamos saúde e sucesso a Zaeim por toda a sua vida, e esperamos que um dia ele se torne um verdadeiro líder e possa ajudar seus compatriotas e emigrantes. Eu e minha mulher gostaríamos de agradecer a todos os funcionários da Maternidade Alfredo da Costa que nos ajudaram e nos apoiaram.

Zaeim é a primeira criança refugiada afegã que deverá obter a cidadania portuguesa em breve.

Estamos felizes por hoje vivermos em Lisboa, uma cidade onde as pessoas são muito boas. E estamos esperançosos de nos tornarmos cidadãos deste país e continuamos a viver nesta cidade.

Foi muito difícil para nós emigrar no início, e hoje estamos felizes por termos conseguido superar as dificuldades e por vivermos num país pacífico. Porque nunca nos sentimos paz no nosso país, em mais de 30 anos. As nossas vidas. Hoje sentimos paz e sabemos o significado da paz e esperamos que tudo o que nos aconteça neste país seja bom e possamos ter uma ótima vida.

Hoje, o sonho de todos os afegãos no Afeganistão é mudarem-se para outro país e viver em paz, o que é claro que é muito difícil e às vezes é impossível. Espero e desejo que todo imigrante que vive em qualquer lugar do mundo e longe de sua terra natal não enfrente dificuldades e viva em paz.

A história e a nossa decisão de emigrar começaram quando sentimos que o Afeganistão já não era um lugar para viver e que a verdadeira paz nunca viria. Vou escrever sobre isto nos próximos episódios.


* Samim Seerat é refugiado afegão em Lisboa, onde chegou em novembro de 2021 com a mulher e a filha. Foi pai, novamente, em janeiro. Em Cabul trabalhava como executivo de media no grupo MOBY detentor da Tolo News.  É também fundador de uma start up chamada Paiwast Health Services. Escreve na Mensagem sobre a sua experiência em Portugal todos os meses.

Samim ainda está à procura de um emprego em Portugal, na zona de Lisboa. Se tiver alguma ideia ou sugestão, envie:


O casal à saída da maternidade.

Our king was born

Every person who reaches the position of a leader or king goes through difficulties and challenges. In the last month of last year, when we arrived in Portugal, despite all the problems and controversies we went through, we were thinking what should we name the baby who was going to be born soon in our family.

In terms of Afghan culture, since ancient times, baby’s names have been chosen by family elders based on different religions and methods, and usually a name which is familiar and meaningful is chosen to the baby.

We only knew that our baby was a boy and that he was in good health. We did not know when and where he would be born. Going through several names we thought we should choose a meaningful name for our baby but we could not get the votes of our parents (they are away, in other places where they went also to escape Afghanistan). This was a special occasion, he had gone through all the problems and spent 30 weeks in the womb of his mother in Afghanistan, which we thought would be his homeland, but that did not happen: the destination changed and the remaining months were spent on journey.

We started looking for a name that had a good meaning. We came across the word Zaeim. We saw it for the first time, we had never heard such a name before, but it was very interesting to us. Then we searched and found that it is an Arabic word and it means leader or king. And right there we decided to name our baby Zaeim, he, the one who has lived through the hardships on his mother’s womb during the journey from Kabul to Lisbon.

A chegada ao Centro de Refugiados.

According to the conversations and appointments we had with the gynecologist, Zaeim was supposed to be born on January 16, 2022, but this did not happen.

On January 7, 2022, we had an appointment with the hospital. Suddenly the gynecologist suggested my wife (Roya Sarwari) to be admitted the same day, because of the possibility that Zaeim’s birth was near. Since we were all together in all the appointments that we had, on that day Sama, my daughter of 4 years, and I decided to go home while my wife got admitted to the hospital.

It was 11:50 pm when I received a call from Roya. “Zaeim is going to be born very soon.” I woke up in a hurry, and I and Sama got ready to go to hospital. I was worried about Sama, when I entered to the hospital: what I should do with Sama, the hospital will not allow her to enter, and I had no family in Lisbon?

I then called a recent Afghan friend named Atiq Kakar – he lives in this refugee-center with us – and asked him to go to the hospital with us. He got ready to went with us. But we needed a taxi – the reception guy picked up the phone and made a call to one of the online taxi companies, but the answer was that in the area we are in, as it is far from the city there currently were no taxis. So we had to wait for an hour.

45 minutes passed and no taxi came. Sama fell asleep again. And I was very worried because we did not know anything about Roya.

Finally a taxi came. Along the way we thought about how difficult it is to an emigrant away from friends, family and especially away from parents. And we prayed that everything would be fine with Roya.

Arriving at the door of the hospital, I hurried to go inside and wanted to enter the room where Roya was. But the hospital employees asked me to wait and Sama and Atiq were not allowed to enter to the hospital. It was midnight and the weather was cold. They stayed all the night in a corner of street outside the hospital and waited for Zaeim’s birth… which didn’t happen that night. At 5 o’clock in the morning, as there was no news of Zaeim’s birth, I went back home.

I was calling Roya every 20 Minutes, asking about her condition. On saturday evening the doctor suggested a C-section if the baby was not born in couple of hours. When I heard that Roya was going to have a C-section, my stress increased but at least I had to wait only for the exact time of the operation. A couple of hours passed by and despite all the pain my wife had, the baby was not born.

It was 11:58 pm when I received a message from my wife: “The operation is going to take place in another half an hour”. We got up in a hurry and asked for a taxi. We again faced the same problem with the taxi because we were far from the hospital address and it was weekend as well.

40 minutes later, we arrived at the hospital. Sama asked me: “Should I wait outside of the hospital again?” I hugged her and told her: “Yes, because you are not allowed to go to the hospital with me but I am going to the hospital to bring your brother and mother and then we all go home together”.

Sama was silent and walked slowly and stood in the corner where they had spent the night before. But I met the hospital guard and asked him to let Sama along with Atiq sit in the waiting room because the weather was cold and it might take several hours for our baby to be born. The hospital guard was silent for a moment and then allowed them to sit in the waiting room.

I was allowed to go in, but the hospital clerk told me that I had to wait because my wife was inside the operating room and the operation was ongoing. I waited for my name to be called, and when it did they told me: “Now you can see your child and wife, the operation was successfully done”.

I did not know which way to go to get to the second floor, the hospital guard guided me. Before entering the room where I was going to see my baby, I heard the baby’s cry. It was very pleasant, and I was in hurry to see him as soon as possible.
When I entered the room, my eyes fell on the child who was hugged by my wife. I reached our baby and looked at his face. I asked my wife, is he our baby? My wife said with a smile “Yes, he is our king”.

I kissed Zaeim and said: “Welcome!” It was a moment that I could not express in words. Then I took Zaeim’s photo and sent it to my friend Atiq, he shared the photo with Sama. She was happy.

Finally, Ahmad Zaeim Seerat was born on January 9, 2022 at 1:22 AM on Maternidade Alfredo da Costa. He opened his eyes to the world in Lisboa. We wish Zaeim health and success in his life, and hope that one day he will become a real leader and will be able to help his compatriots and emigrants. Me and my wife would like to thanks all the staffs of the hospital that helped and supported us.

Zaeim

Zaeim is the first afghan refugee child who is expected to get a portuguese citizenship soon.
We are happy that today we live in Lisboa, a city where the people are very good. And we re hopeful to become citizens of this country and we continue to live in this city like citizens of this country.

It was very difficult for us to emigrate in the beginning, and today we are happy that we were able to overcome the difficulties and we live in a peaceful country. Because we have never felt peace in our country over 30 years. Today we feel peace and we know the meaning of peace and we hope that everything that happens to us in this country will be good and we can have a great life.

Today, the dream of every Afghan who lives in Afghanistan is to move to another country and live in peace, which of course it’s very difficult and sometimes it’s impossible.
I hope and wish every immigrant who lives anywhere in the world and far from their homeland not face any difficulties and lives in peace.

The story and our decision to emigrate began when two month before the Taliban toke government of Afghanistan, we felt that Afghanistan was no longer a place to live and the real peace would never come. I will write in the next episodes.

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1 Comentário

  1. J am very cheerful to read your article on your new born son in Lisboa.J am italian from Rome and am able to read and speak both in portuguese and english.J guess you have been lucky to find a shelter in Lisboa. It is a welcoming city to all the foreigners and if you have good skills together with your wife surely sooner or later you will find your way down there. Next time J shall go to Lisboa J hope to meet you with your children. My nome is Francesco Delfino please send me your email address and if you wish we will be able to keep in contact with each other.

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