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A noite prometia ser marcante, preparei um jantar especial com a típica Sopa de Pedra numa versão vegana e o nortenho Bacalhau à Zé do Pipo numa versão sem fugir um milímetro à pronúncia do Norte. Antes ainda, já nos havíamos testado contra a epidemia que ainda dura, mas a segurança de que o concerto no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém ia mesmo decorrer deu-nos força para um brinde especial. A nós, à noite, a Jorge de Palma e às suas sete décadas de amor, de poesia, de música e de resistência.

Jorge Manuel d’Abreu Palma que a 4 de junho de 2020, em plena pandemia, completou 70 Voltas ao Sol, nasceu em Lisboa e a partir dos seis anos, assim que começou a ler e a escrever, começou a estudar música e a aprender piano para, aos oito, fazer a sua primeira audição no Conservatório Nacional.

A vida deu-lhe muitas luas e antes da abrilada portuguesa já ele andava com Ary dos Santos numa aprendizagem dessa alquimia de usar as palavras, torná-las poesia e criar música. O seu primeiro EP, A Última Canção, é gravado em 1973 e testemunha esta relação discípulo-mestre que Palma havia estabelecido com Ary dos Santos. Chamado para se alistar na Guerra do Ultramar, Jorge Palma foge para a Dinamarca onde permanece em asilo político.

Tudo o resto são notas biográficas que nos fazem lembrar as grandes datas, os grandes álbuns e o longo percurso do alfacinha Jorge Palma até à consagração plena como poeta, músico e compositor, cujo último trabalho, gravado no Castelo de São Jorge com uma Orquestra de Câmara dirigida pelo Maestro Cesário Costa, deu origem a um álbum editado em CD e LP, apresentado no nosso mariano bairro de Belém.

Acompanhado pela Orquestra de Câmara, em vinte temas foi desfiando o tear da vida, com mais voltas à lua do que ao sol, com mais amor e dor entregues às sombras do que aos raios de claridade, com a poesia vigilante de um piano a tentar não perder o voo noturno das imponentes cordas na orquestra, num jogo íntimo para atingir o predestinado pel’ A Mensagem. E assim, num concerto memorável, Jorge Palma provou que, se o bastante fosse a sua poesia, nada ficaria por cumprir, saciando a urgência do tanto que ainda falta dar cumprimento.

O concerto abre com um intro pelos afilados músicos nas cordas, sopros e metais e arranca com Jorge Palma a servir-nos de bandeja a primeiro prato da solidão, com o tema O Meu Amor Existe, canção do álbum (1991), para depois nos tirar de lugares seguros com Quem És Tu, De Novo, feito de intervalos e de seguimentos, com arranjos cheios, encorpados, interpretados por uma Direção de Orquestra sempre em crescendo.

Uma volta e o tema Bairro do Amor a fazer lembrar-nos o sentido que faz cantar os bairros, senti-los, enchê-los de vida em comunidade, em cada rua, a cada esquina. Uma pausa para Palma agradecer a dois grandes nomes da nova geração de pianistas e compositores, Filipe Melo e Filipe Raposo, e seguir pela poesia adentro, desta feita a de Herberto Helder, numa interpretação clandestina em que primeiro deixa que entre o piano, depois a voz e finalmente a Orquestra.

O quinto tema foi, indiscutivelmente, um dos pontos altos do concerto. Ela, A Canção de Lisboa, vestida tal como se apresentou, tornou-se arrebatadora, competindo apenas com os temas Frágil e Portugal, Portugal, apresentados mais adiante. Majestosa, A Canção de Lisboa deixa que entrem primeiro os diáconos através de uma interpretação da 1.ª Sinfonia de Gustav Mahler que abre com as cordas no comando, seguidas dos sopros e ao compasso marcado da percussão até que irrompe a voz de Jorge Palma e as luzes da cidade dão uma secura romântica ao canto.

Sempre acompanhado pela orquestra, no fim de cada verso há um fatalismo fúnebre que dá a volta à lua para apanhar o espírito revisteiro, circense, estival, tosco à noite e fiel ao dia, com uma rotação cirúrgica na perseguição das quadras “Mamã, mamã/ Onde estás tu, mamã?/  Nós sem ti não sabemos, mamã/ Libertar-nos do mal”. E novamente o abismo, Jorge Palma bem tinha avisado, primeiro virá Mahler e só depois mergulharíamos n’ A Canção de Lisboa. E que mergulho! Jorge Palma a mostrar saber que é preciso descer ao mais fundo dos infernos para subir ao mais alto dos céus. Uma volta completa ao Sol e à Lua num tema com arranjos magistrais. 

Mais dois temas e aterramos em Frágil. Eu, crente de que o melhor já tinha sido servido, deixei-me enganar pela moderação, esquecendo-me que Jorge Palma é um poeta obreiro, perfura pedra e faz gritar alto a broca de metal que é a intensidade da sua música e, por isso, em Frágil tinha de apresentar-se com toda a sua força.

Entra a orquestra, falam as cordas, seguem-se os metais e finalmente a voz a sobrepor-se ao piano. Se pudesse definir os arranjos por detrás de tema pop rock Frágil diria que reinterpretaram o suspense. Eles surgem na forma de uma excelsa Sinfonia a envolver uma ópera-rock, entretidos em dar mais voltas à lua do que ao sol.

Jorge Palma só, com o seu piano, a remeter-nos para experiências sonoras de um recitativo a um tempo diferente, a introduzir, na ópera, uma ária só para ele, a respirar nos intervalos certos e a entoar cada uma das palavras que formam quadras “Está-me a saber mal/ Este whisky de malte/ Adorava estar in/ Mas estou-me a sentir out”. Este Frágil apresentado de forma tão diferente, mas ainda assim com a mesma verdade para com o álbum Bairro do Amor, colheita do ano de 1989, que pela primeira vez acolheu o tema.

Um poema de Al Berto dá corpo ao décimo terceiro tema e a orquestra abandona o palco para três mais uma expressões de música a fazer a sala, que nem Dido, cair em lágrimas. Canção de Vida, um tema maturado durante 20 voltas para depois ser oferecido ao seu dono, Carlos do Carmo, Valsa de Um Homem Carente, do álbum Norte, de 2004 e Estrela do Mar, a arrancar com Jorge Palma no sôfrego do piano para depois abraçar Cristina Branco num duo irrepreensível.

Não faltava nada, apenas que ele lhe desse a sua vida. Para isso, “no sentido de morrer”, entra a orquestra e Fernando Pessoa é chamado pelo seu heterónimo Álvaro de Campos para uma composição de Mário Laginha interpretada por Cristina Branco num dueto com Jorge Palma gravado para o álbum Khronos, esse senhor tempo que se revelou em 2009.

No álbum, a música já tinha “ais”, mas do título só constava Margarida. Foi Camané, pois que já cá faltava o homem com quem estas crónicas não vivem sem, que lhe colocou o “Ai” que já se sentia, cantava e dizia, mas escapou ao título. O assunto ficou resolvido na coletânea Camané O Melhor 1995 2003, que terminou o poema como Jorge Palma e a sua convidada especial, Cristina Branco, terminaram a canção, “Então filho nada feito/ Fica tudo sem efeito/ Nesta casa não se fia”.

Com o público em apoteose, Cristina Branco deixa o palco para Jorge Palma se aproximar, agora sim, de umas Voltas ao Sol. A felicidade no rosto de uma plateia inteira no balanço de Encosta-te a Mim, tema do álbum Voo Nocturno, que marcou o ano musical de 2007 e invadiu os alinhamentos das rádios nacionais até à exaustão obrigando a que, a certa altura, Palma informasse a navegação “Esta não é a minha primeira música, já cá ando desde os anos 70” ou qualquer coisa assim parecida.

O vigésimo tema traz-nos mais uma invenção notável, uns arranjos exímios, numa frescura revivalista de Portugal, Portugal, uma canção de Sérgio Godinho e Jorge Palma, que, bolas, continua no cisma da pergunta sem resposta “De que é que tu estás à espera?”. 

Jorge Palma, o Maestro Cesário Costa e mais duas mãos cheias de músicos despedem-se de um Grande Auditório com a lotação completa e o público a aplaudir, de pé, as 70 Voltas ao Sol que tantas vezes se fizeram à volta da lua. Os músicos agradecem o venerado público e saem de cena. Seguem-se mais de cinco irredutíveis minutos com o público, sem quebrar, a aplaudir de pé e Jorge Palma regressa diferente como sempre.

Munido de uma guitarra acústica, abre o encore com a estória cantada de Jeremias. Entretanto, recorda Sérgio Godinho, companheiro das tantas Voltas, e oferece-nos o ideário da identidade com Terra dos Sonhos e o desejo de podermos ser quem somos para terminar como era suposto terminar, com a Orquestra de Câmara a colocar a última ficha num intro e o tema dos temas, cantado em coro “Tira a mão do queixo, não pensas mais nisso/ O que lá vai já deu o que tinha a dar/ Quem ganhou, ganhou e usou-se disso/ Quem perdeu há de ter mais cartas pra dar”.

O CD e LP em vinil estão disponíveis nas lojas habituais e através destas duas edições absolutamente arrojadas, a combinar o clássico e o pop rock, com arranjos que acrescentam estrada andada e maturidade a cada um dos temas, ficamos com a certeza de que entre ventos e mar há vidas a navegar na Canção de Lisboa e que, pela resistência ocre desta cidade, A Gente Vai Continuar.

Uma obra única, com Jorge Palma a provar aos críticos mais incautos ser, como poeta, declamador, cantor, contador, pianista, músico e compositor, uma “obra-prima à escala mundial”.


* Ulika da Paixão Franco é mulher, negra, filha de Angola e sobrinha de Portugal. Na infância lia alto as palavras que saltavam dos manuais de português e na adolescência trocava as matinés no Crazy Nights, em Lisboa, pelo sofá a ler O Independente. A trabalhar entre a comunicação e a cultura, espera pelo dia em que o Arco-Íris marchar para contar com o título: «Homem Pisa Planeta onde as Pessoas são todas Iguais».

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