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Já aqui escrevi em passagem de um parágrafo. Escrevo agora em crónica inteira: a Infante Ruivo, constituída por meia-dúzia de pessoas nas quais me incluo, é o escritório onde pintamos, cantamos, fazemos teses de doutoramento, surfamos e analisamos os requisitos da Taxa Croquete©, cuja exegese fica para daqui a nada.

Cheguei à Infante Ruivo, que fica na Espazo da Avenida Infante Dom Henrique perto do Cabo Ruivo, no final de 2017 pela mão de Simão Lucas Pires, génio do mal. Ele é o responsável por essas e outras sevícias. Aí cheguei, sozinho, numa noite em que disseram para me amanhar com as chaves guardadas no quadro de electricidade. E na sala vazia de tanta parede branca despejei as minhas caixas, que levava directamente da Editorial Presença, com esperança de que ali – e de mim – nascesse qualquer coisa como um livro.

Conhecia os infantes, não conhecia os infantes. Os infantes conhecem-se depois de anos de conhecimento, com muitos almoços na sala dos académicos, no Comidinhas, no Lidl e no Pingo Doce. Conhecem-se quando a amizade nos dá para o silêncio, e quando vemos a ruína do Baptista Russo, a cem metros de nós, transformar-se num Decatlhon, e essa transformação, com a promessa de um restaurante no último piso, ser um dos temas da nossa amizade. Não houve restaurante, os demais infantes fartaram-se de eu louvar o Decatlhon – sítio de ideais nobres em que corpo são leva a mente tal e tal –, mas a amizade manteve-se.

Escrevo para os apresentar antes que eles me apresentem. Isto tem algo que ver com controlo de narrativa, mas garanto que parte do lugar bom de quem viu nascer uma coisa boa: é que já é possível estabelecer a Taxa Croquete© dos meus amigos infantes. Quando digo que a Infante Ruivo é o escritório onde pintamos, cantamos, fazemos teses de doutoramento, escrevemos e surfamos, o plural é verdadeiro. Nunca foi tão pouco majestático.

Vou sentar o plural à mesa da sala dos académicos, onde costumamos almoçar, e apresentá-los enquanto nos servimos. Eu, de uma mistela barata que comprei no Lidl por menos de três euros. Queixo-me sempre mas agradeço sempre ao Lidl por não vender ração humana, decerto escolha irresistível para mim.

Na cabeceira, perante um Tupperware, está Simão Lucas Pires, o génio do mal. João Pedro Vala trata-o assim porque sabe, e eu sei e todos sabemos, que tamanha constância, sabedoria e rectidão só podem ter motivos obscuros. Ainda não conhecemos a sua estratégia para o domínio mundial, que não passa certamente pela literatura. Isso, a literatura, é o que ele faz nas horas livres de ser boa pessoa: acaba de escrever um livro de contos maravilhoso – o livro é tão bom, e ele tão bom contista, que não passará muito tempo sem que uma editora lhe pegue.

Na outra cabeceira, senta-se Isabel Campos. Eu acho que ela é a melhor de nós, os outros que me perdoem, e este achar é uma posição filosófica. Ela é o nosso Antero de Quental no sentido de santa que é um génio. Isabel tanto nos ensina a dizer Kierkegaard (assim, vá: quierquegôo) como declara amores por João Baião, que de certa maneira integra uma mundividência muito própria, muito pop e no entanto muito substancial, porque parte duma vaga de fundo. Essa vaga de fundo, em Isabel Campos, é a inteligência que tanto lhe dá para o sorriso trocista sobre o último filme do não sei quantos, como para o olhar mais compassivo sobre o que vai dentro do ser humano. Quando diz, Isabel quer dizer, e ninguém fica a achar que não queira.

Entre estes dois ficamos nós, os outros. Eu, que também mereço um lugar à mesa, apesar de ainda não ter um novo romance depois do Pão de Açúcar, de escrever aqui e ali umas crónicas, de fazer umas coisas e de achar isto ou aquilo. E Tomaz Fidalgo, que aparece sempre vindo ou a caminho do mar – nele, a praia é pensamento, uma espécie de síntese entre o pensar e o agir; quanto mais surfa, mais escreve a tese de doutoramento em filosofia, quanto mais escreve, mais surfa.

Ultimamente, as suas investidas à Infante Ruivo são roubadas pelo novo projecto na área do surf, mas têm sempre a eficácia de quem escreve como quem domina a onda. E Vasco Cordovil Cardoso, que busca em Chesterton uma maneira de ser, tanto quanto uma maneira de escrever – Vasco tem um quê de anarquista e um quê de banqueiro, casando-os na perfeição quando lança um tema polémico que vai desfiando com gosto e propriedade. E com um sorriso que olha para cima, que é ele em busca de energia para mais. E Pedro Lito: no início da Infante Ruivo, treinava para bombeiro voluntário; agora, longe do escritório, representa-nos no mundo empresarial e no mundo do fogo, cuja psicologia conhece a mais de 451.º Fahrenheit. É responsável pelo salvamento de várias pessoas e pela plantação cuidada de anonas.  

Entretanto acabou de chegar Zé Maria Souto Moura, que se sentou abrindo um Tupperware que cheira a música: preparou-o no dia anterior, provavelmente enquanto puxava da garganta um fado. O fado sai-lhe sempre que é necessário o fado sair: quando ganha o Quem Quer Ser Milionário, enquanto pinta uma tela na cozinha – onde a luz é a luz de pintar telas –, ou quando está nos estúdios da Valentim de Carvalho a gravar o álbum de estreia no microfone da Amália. É muita arte para uma única pessoa, dá raiva que os dons tenham sido tão mal distribuídos, mas nós perdoamos. O álbum de estreia sai daqui a umas semanas com a chancela do Museu do Fado – e eu garanto que ele canta ainda melhor em estúdio do que na nossa cozinha.

Por último, há o Vala, o João Pedro Vala. «Eu tenho estas qualidades, desculpem não ter outras», parece dizer. Estes escrúpulos seriam excessivos, não fossem parte das suas qualidades: nascem de um sítio nada inesgotável que é o humor autodepreciativo, sinal de uma inteligência madura que nunca se assume como tal. Vala é um mendigo das suas próprias qualidades, o que lhe dá à-vontade para os voos da imaginação. Tanto fala do masoquismo em Proust como das características mais peculiares das pessoas da nossa praça. Entre as suas qualidades está a escrita, que nele tem nome de dom. O seu Grande Turismo, que sai dentro de dias pela Quetzal, é ele enquanto personagem de si mesmo. Diz na capa, à la JPV, que provavelmente é um romance – eu digo que certamente é boa literatura.

Pegamos nesta gente, fechamo-la no escritório e pomo-la à mesa como agora. De que falamos nós? Uns de Quierquegôo, outros de masoquismo em Proust, alguns de Pascal e uns quantos da felicidade inquestionável de João Baião. Mas todos sobre a Taxa Croquete©, conceito criado por JPV de acordo com um credo particular descrito pelo próprio da seguinte maneira: «A Taxa Croquete©, na sua acepção original, é um índice que mede a probabilidade de um determinado alimento não ser satisfatório se pedido num qualquer estabelecimento sem antes ser visto o seu aspeto. Com o tempo, passou a aplicar-se também a outros produtos. O seu nome deve-se ao facto de um croquete ter uma Taxa Croquete© bastante baixa.» 

Eu traduzo: embora, como se vê, as origens do conceito sejam complexas, tendo em conta que a probabilidade de um croquete ser muito bom ou muito mau é alta, firmou-se entre nós a Taxa Croquete© como o grau de probabilidade de determinada coisa ser boa ou má de acordo com o seu historial. Tal coisa tem uma Taxa Croquete© alta se o grau de probabilidade de ser muito boa ou muito má for elevado, à semelhança do dito croquete. Neste particular, a doutrina não diverge.

E eis-nos à mesa na sala dos académicos a estabelecer a TC© do Lidl, a TC© do Comidinhas, a TC© da escritora X e do escritor Y, a TC© da ventoinha, a TC© do primeiro-ministro, a TC© do líder da oposição e a TC© daquela música trazida pelo Pingo Doce que já ninguém consegue ouvir. Resta-nos estabelecer a TC© de nós mesmos, mas esse é assunto polémico que não cabe aos infantes: temos aí os nossos livros, os nossos álbuns de estreia, as nossas teses de doutoramento, as nossas ondas surfadas, os nossos incêndios apagados. A TC© há de ser o que os outros entenderem.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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