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Num dos mais belos poemas de amor da língua portuguesa, Mário Cesariny escreve sobre dois amantes que andam a pé pela cidade sem serem vistos por ninguém, “excepto, claro, pelos porteiros”. “É da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros”, acrescenta.

Mesmo que isso não mude nada na leitura de De Profundis Amamus, quase apostaria que a cidade do poema é Lisboa, pois em nenhuma outra vi tantos porteiros. E, embora seja proverbial a bisbilhotice dessa classe de profissionais – a reputação de estarem sempre demasiado atentos à vida dos inquilinos para depois a irem contar a toda a gente –, a verdade é que para mim os porteiros e os seus familiares sempre foram de grande ajuda nas mais diversas situações.

Logo na infância, no prédio de esquina onde vivíamos, com duas entradas independentes, tínhamos do nosso lado o simpático senhor Maximino, de bigode e cabelo grisalho, que ficava todo o dia sentado atrás de um balcãozinho e saía quando batiam as seis. Ao contrário do porteiro permanente – o senhor Abel, corpulento e com má cara –, o senhor Maximino era um amor: não só me ia buscar à porta da carrinha da escola para eu não me transviar, como subia sempre comigo no elevador; primeiro, porque eu era demasiado leve e estava sempre a ser puxada para outros andares; depois, porque um suposto pedófilo entrou um dia comigo no elevador e começou a perguntar-me se o médico já tinha ido à minha escola e a dizer-me que era melhor apalpar-me a barriga – e a minha sorte foi o elevador parar no andar do consultório médico e eu desatar a correr escada acima para ir contar tudo à minha mãe. Como nunca se apanhou o homem (o médico contou que, embora estivesse à espera de um delegado da propaganda médica, este não chegou a aparecer) e o senhor Maximino ficou com a consciência pesada por ter deixado o crápula subir, passou a levar-me até lá acima pelo menos até eu ganhar uns quilos e reclamar que já não tinha idade para tanta protecção.

Quando fui viver sozinha, instalei-me num prédio sem elevador (menos um problema); mas, como viajava muito e às vezes por várias semanas, via-me obrigada a subir e descer as escadas com malas às vezes extremamente pesadas (um novo problema). Um dia, vendo-me o porteiro a abrir a mala cá em baixo para transportar a tralha às pinguinhas, decidiu que aquilo não fazia sentido e chegámos a um acordo: eu ligava-lhe sempre que fosse ou chegasse de viagem, e ele transportava-me a bagagem para cima e para baixo. Pagar-lhe foi apenas uma exigência minha – e tive de teimar… Este mesmo porteiro também me avisava quando eu deixava o vidro do carro aberto, o que aconteceu mais de uma vez.

Além do marido de uma porteira transmontana magnífica que tive no prédio onde vivo desde que me casei – que nos vinha mudar lâmpadas, pôr tomadas, substituir torneiras e até “arrombar” a porta quando deixámos a chave dentro de casa no minuto em que estávamos a partir para férias –, gozamos da generosidade da actual porteira que, quando ficámos sem empregada durante uns meses por causa de uma cirurgia, se ofereceu logo para nos dar uma mão – o que foi um sossego para mim, que odeio cozinhar, embora ela fizesse comida para um batalhão…

Mas a melhor de todas as minhas histórias com porteiros passou-se há muitos anos, ainda eu vivia sozinha num velho andar da Penha de França onde às tantas tive de fazer obras na casa de banho. Num dos dias em que ficara de me encontrar lá com o empreiteiro, quis saber se já tinham tirado os mosaicos partidos do chão e levantei uma espécie de oleado que lá tinham deixado. Vi então uma barata preta daquelas patudas e enormes e, como tenho fobia de insectos, desci imediatamente à cave, onde morava a porteira, para ver se ela me ajudava a livrar-me do animal, pois não era capaz de ficar ali sozinha enquanto o soubesse vivo.

Abriu-me a porta o genro, que eu conhecia mal mas a quem pedi sem preâmbulos:

– Podia por favor ir lá cima matar-me um bicho?

Só percebi como estava a ser ridícula quando ele, com um ar meio embatucado, me respondeu:

– Bem, se for um coelho ou uma galinha, eu também não consigo…


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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