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Raoul Ruiz, chileno por nascimento, refugiado em França depois do golpe de Pinochet, estabeleceu com o produtor português Paulo Branco uma frutuosa colaboração. Trabalhou em numerosas co-produções franco-portuguesas, e rodou no nosso país alguns títulos, entre eles este “Os Mistérios de Lisboa”, uma das suas obras mais elogiadas por todo o mundo.

Camilo Castelo Branco é uma das glórias literárias de Portugal. Escritor do século XIX, prolífero, de obra diversificada e vastíssima, foi dos raros casos em Portugal a conseguir viver, explicava ele que mal, apenas do que escrevia.

E escreveu de tudo, traduziu e compilou, adaptou e improvisou, deixou romances e novelas, contos e poesias, narrativas e prosas diversas, folhetins e teatro e muitos artigos variados.

Romântico, místico, exilado na província (na sua bela casa de São Miguel de Seide, onde partilhou o amor que o levou ao adultério e ao cárcere), mas não escondendo a vaidade de possuir um título nobiliário, assinou obras-primas de fervorosa paixão e intenso fulgor sentimental, como o sempre citado “Amor de Perdição”, cujo título só por si é um programa, e já justificou várias adaptações ao cinema e à televisão, em Portugal e no estrangeiro.

A escrita alvoroçada de Camilo brota com uma claridade e um arrojo formal que ainda hoje entusiasmam os seus leitores, mesmo os menos arrebatados pela sua imagética redentora e a inquieta tormenta passional. Em Portugal, Manoel de Oliveira aproximou-se com rigor e precisão deste universo tumultuoso, de “funestos amores” e trágicos destinos, com o qual mantinha muito curiosas afinidades.

Coube a vez ao chileno Raoul Ruiz estabelecer encontro com Camilo, tendo para o efeito escolhido o mais óbvio para este realizador que principiou a sua carreira no cinema colaborando em telenovelas e folhetins televisivos no país natal.

Nada melhor que “Os Mistérios de Lisboa”, uma obra inicialmente publicada em folhetins no jornal do Porto “O Nacional” (entre o número 52, de 4 de Março de 1853, até ao número 25, de 31 de Janeiro de 1855), mais tarde editada em volume, ou melhor em três volumes, que reuniam um indescritível enredo de peripécias diversas, todas elas rodando à volta de um jovem, de nome supostamente João, que mais tarde se sabe ser Pedro, aparentemente filho de pais incógnitos, mas a quem finalmente aparece uma mãe redentora. Sabe-se igualmente que poucos anos depois, Ernesto Biester adaptou o romance para teatro, a que chamou “A Penitência”, tendo a peça sido estreada no palco do D. Maria II.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (nascido em Lisboa, a 16 de Março de 1825, falecido em São Miguel de Seide, a 1 de Junho de 1890) encontrava-se por essa altura no dealbar da sua carreira literária, já com alguns pontos ganhos (como “Anátema”, de 1851), mas ainda oscilando entre a poesia, o teatro, a novela, o romance e o jornalismo.

Espírito inquieto e irrequieto, polemista brilhante, amante fogoso, casado e descasado, pai de filhos que ia deixando pelo caminho, até arrimar a Seide, foi este Camilo impetuoso que se abeirou de uma obra que, em muitos aspectos, também recorda o tom e o estilo de Victor Hugo e os seus “Miseráveis” (que, todavia, só irá aparecer dez anos depois, 1862, mas que contém o espírito do tempo).

Na época, estes “Mistérios” eram frequentes na literatura de várias nacionalidades. Herdeiros do “teatro de cordel” ou dos folhetins que se vendiam na rua, de porta em porta, tiveram em Eugène Sue (Paris, 20 de Janeiro de 1804 – Annecy, 3 de Agosto de 1857), escritor francês, um dos seus mais celebrados cultores (autor, entre outros, de “Les Mystères de Paris” ou “Le Juif Errant”).

“Les Mystères de Paris” iriam mesmo influenciar muitos outros autores pelo mundo fora, não só Camilo em Portugal, mas também Eça de Queirós, que, em parceria com Ramalho Ortigão, nos deu “O Mistério da Estrada de Sintra”, outro folhetim, este publicado no “Diário de Notícias”, em forma de cartas anónimas, alguns anos mais tarde, entre 24 de Julho e 27 de Setembro de 1870, aparecendo a primeira versão em livro somente em 1884.

Também aqui a disputa Camilo-Eça não deixou de dar os seus frutos, sendo que os “Mistérios” do primeiro são mais genealógicos e passionais, enquanto os dos segundos progridem mais no terreno do policial. Um mais romântico, os outros mais realistas.

Diga-se ainda que estes “Mistérios” iriam passar ao cinema sob diversas formas, desde os “serials” norte-americanos, como “As Aventuras de Pauline”, até às rocambolescas séries “Fantômas” (1913), “Les Vampires” (1915) e “Judex” (1916), do francês Louis Feuillade, um dos cineastas mais interessantes desta época do cinema mudo.

Com mais de cento e dez filmes contabilizados na sua filmografia (o que também o aproxima de Camilo, até em termos quantitativos: Camilo escreveu para cima de duzentas obras, entre originais e traduções, e etc.), Raoul Ruiz é um cineasta irregular, capaz do muito bom e do menos interessante, que tem percorrido o mundo, desde que se estreou na realização, no seu Chile natal, com uma curta-metragem chamada “La Maleta” (1963).

Aí permaneceu até 1974 (“La Expropriación”), deixando obra de sublinhar, como “Três Tristes Tigres” (1968), antes de se exilar em França. Um dos seus títulos mais justamente citados é “L”Hypothèse du Tableau Volé” (1979). No seu exílio europeu rodou em vários países, entre os quais, por diversas vezes, Portugal, onde dirigiu “O Território” (1981), “Treasure Island” (1985), “Les Trois Couronnes du Matelot” (1983), “A Cidade dos Piratas (1983), “Fado, Majeur et Mineur” (1994), “Três Vidas e uma Só Morte” (1996) e “Genealogias de um Crime” (1997), se não nos faltou nenhum. Regressou depois com o apoio da mestria de Camilo.

Os seus derradeiros filmes são desequilibrados (“Combate de Amor em Sonho”, “Klimt”, “O Tempo Reencontrado”), mas com “Mistérios de Lisboa” acerta na “mouche”. O filme é um belíssimo fresco de quatro horas e meia, que se vê sem enfado, contando com algumas felicíssimas contribuições, a começar desde logo pelo trabalho de Carlos Saboga na adaptação do romance ao cinema, mantendo-se fiel ao essencial da emaranhada história, mas procurando construir uma linha de progressão dramática que clarificasse o cruzar de narrativas e a confluência de peripécias. O que não era tarefa fácil.

Depois temos que sublinhar a magnificência dos cenários naturais, quase todos rondando a região de Sintra (alguns dos quais bem conheço, pois por lá rodei muito da “Manhã Submersa”), e que permitem um clima romântico de grande intensidade.

Curiosamente, os “Mistérios” são de Lisboa, mas Raoul Ruiz consegue convencer-nos que estamos muitas vezes na capital, sem nos mostrar ruas ou avenidas, apenas quintas e jardins. O efeito é, todavia, bem conseguido e o resultado final, ao nível do ambiente, é excelente, quer em exteriores, como em interiores (o palácio de Seteais é, por exemplo, mais uma vez, muito bem aproveitado).

Fotografia, montagem, música, direcção artística só merecem saudações especiais, mas é no domínio da representação que temos o prato forte destes “Mistérios”, com uma não só competente, mas inspirada, interpretação global de um elenco onde quase ninguém destoa e onde alguns sobressaem a muito nível.

Poster do filme “Os Mistérios de Lisboa”, de Raoul Ruiz, estreado em Portugal, em 2010.

Particularizando, Adriano Luz é brilhante, Maria João Bastos excelente, Ricardo Pereira muito bem, dividido entre dois papéis muito diferentes, mas unidos num ramo comum, Léa Seydoux deslumbrante, entre muitos outros igualmente dignos de referência. Na verdade estamos na presença de um magnífico trabalho de actores, que é certamente valorizado pela segura direcção, mas igualmente pela matéria-prima de que os mesmos são feitos.

A obra de Camilo parte de um artifício bastas vezes utilizado em literatura: às mãos do escritor chega, via correio endereçado do Brasil, da parte de um “cordial amigo, F”, as memórias autobiográficas de alguém que se confessa e que leva Camilo a afirmar “não ser um romance: é um diário de sofrimentos, verídico, autêntico e justificado.”

Segundo Alexandre Cabral, no seu “Dicionário de Camilo Castelo Branco”, “Os Mistérios de Lisboa”, “produto de uma imaginação truculenta e incontrolável”, narram “Os enredos – múltiplos e diversificados – entrelaçam-se no conjunto dos três volumes, sendo os seus protagonistas personagens estranhas que têm em comum a faculdade exótica de mudarem de nome com a mesma facilidade como quem muda de camisa.

Assim, Pedro da Silva, conhecido por João, chamar-se-á também Álvaro de Oliveira; o “Come-Facas” usava os seguintes pseudónimos: Barba-Roixa, Leopoldo Saavedra, Tobias Navarro e Alberto Magalhães, e Sebastião de Melo faz-se passar pelo padre Dinis Ramalho e Sousa e duque de Cliton.

Por outro lado, a vastidão do mundo (Portugal, França, Bélgica, Inglaterra, África, Japão e Brasil) é o cenário onde se desenrolam os conflitos ficcionais, marcados por vectores que perdurarão na novelística camiliana: a vingança, o anátema, o amor de mãe, a passionalidade, que se confunde com a ganância, a perversidade e a santidade. De permeio, indícios vários de reminiscências biográficas do autor.”

Nesta obra “em que os pecadores podem ascender à virtude e a virtude se conquista através de sofrimentos e lágrimas”, a personagem central é João (aliás Pedro), órfão de 14 anos quando a narrativa do filme se inicia, e que vai descobrindo, no decorrer da vida, a sua identidade e as trágicas histórias em que se enredam familiares e tutores, como esse paciente e diligente padre Dinis ou o estranho e dúbio Alberto Magalhães, passando por dezenas de outras personagens (que o filme reduz ao essencial) cujo destino com o seu se cruzam.

O clima é, pois, pesado, denso, carregado de ameaças, mas igualmente redentor, não havendo o que se possa considerar personagens intrinsecamente más, mas seres a que o destino vai dando segundas oportunidades para se resgatarem. Esta perspectiva cristã que era timbre de Camilo, é assumida por inteiro por Raoul Ruiz que, no excelente prefácio que antecede a recente edição da obra (ed. “Relógio d’ Água”), faz uma judiciosa análise do romance donde parte o seu filme, desenvolvendo curiosos paralelismos entre o folhetim novecentista e a actual telenovela.

Na verdade, a construção da telenovela, tal como a conhecemos hoje, não é mais do que o prolongamento até à exaustão das regras do folhetim do século XIX, que aceitava como acção central um determinado bloco dramatúrgico e o ia conjugando com novas acções, paralelas ou transversais, que criavam a teia conflituosa que sustentava toda a obra, lhe dava consistência e a permitia desenvolver-se quase “ad infinitum”.

A diferença está na facilidade com que hoje se constroem essas intrigas, e na qualidade temática e estilística com que eram executados os melhores folhetins de outrora. Pelo menos, aqueles que perduraram na memória literária. O mesmo se passa em relação à obra de Ruiz. O ponto-chave da possível querela não está na estrutura folhetinesca e melodramática que assume deliberadamente, mas na forma como a mesma é transposta para o ecrã, com um rigor plástico e uma contenção de estilo invulgares.

De uma construção folhetinesca pode resultar uma obra de arte de altíssimo valor, ou uma rotineira produção que enche chouriços para passar o tempo, quando não mesmo uma pimbalhada desprezível.

Camilo, e agora Raoul Ruiz, optaram pelo caminho mais difícil, que nem por isso deixa de ser popular: basta recordar o êxito que os folhetins tiveram nos leitores de então, ou o próprio sucesso mundial desta obra de quatro horas e meia, que tem recebido encómios por onde tem passado.

Falando da duração do filme, cumpre ainda informar que, em simultâneo com a sua rodagem, se produziu uma série televisiva com seis episódios e outras tantas horas. Série que conta com desenvolvimentos não previstos no filme (e com algumas cenas a menos, como por exemplo a excelente na cela museu de recordações do Padre Dinis).

MISTÉRIOS DE LISBOA

Título original: Mistérios de Lisboa ou Misteres de Lisbon ou Mysteries of Lisbon

Realização: Raoul Ruiz (Portugal, França, Brasil, 2010); Argumento: Carlos Saboga, segundo romance homónimo de Camilo Castelo Branco; Produção: Paulo Branco; Música: Jorge Arriagada; Fotografia (cor): André Szankowski; Montagem: Ruy Diaz, Carlos Madaleno, Valeria Sarmiento; Casting: Patrícia Vasconcelos; Direcção artística: Isabel Branco; Decoração: Paula Szabo; Guarda-roupa: Tania Franco; Direcção de Produção: João Matos, Ana Pinhão; Assistentes de realização: Emídio Miguel, João Pinhão, José Maria Vaz da Silva; Som: Ricardo Leal, Vladan Nedeljkov, António Pedro Figueiredo, Tiago Romão, Aleksandra Stojanovic; Companhias de produção: Clap Filmes; Intérpretes: Adriano Luz (Padre Dinis / Sabino Cabra / Sebastião de Melo), Léa Seydoux (Branca de Montfort), Melvil Poupaud (Ernesto Lacroze), Ricardo Pereira (Alberto de Magalhães / Come-Facas), Clotilde Hesme (Elisa de Montfort), José Afonso Pimentel (Pedro da Silva Adulto), Catarina Wallenstein (Condessa de Arosa), Maria João Bastos (Ângela de Lima), Lena Friedrich (Moçoila), Filipe Vargas (D. Paulo de Albuquerque), Malik Zidi (Visconde Armagnac), Joana Pinhão Botelho (Criadita), Albano Jerónimo (Conde de Santa Bárbara), Carloto Cotta (D. Álvaro de Albuquerque), Margarida Vila-Nova (Marquesa de Alfarela), Miguel Monteiro (Médico da Hospedaria), Marco D’Almeida (Conde de Viso), Joana de Verona (Eugénia), São José Correia (Anacleta dos Remédios), Luciano Neves (Burglar), João Baptista (D. Pedro da Silva), Sofia Aparício (Condessa de Penacova), Ana das Chagas (Deolinda), João Villas-Boas (Criado), Ricardo Aibéo (Cavalheiro), João Arrais (Pedro da Silva Criança), Maria João Pinho (Condessa de Vizo), Cleia Almeida (Francisca), Julien Alluguette (Benoit), Rui Neto (Azarias), Afonso Lagarto (Guarda), Rui Morrison (Marquês de Montezelos), António Fonseca (Moisés Pereira), Paulo Pinto (D. Martinho de Almeida), Marcello Urgeghe (Médico Veneziano), João Ricardo (D. Teotónio de Mascarenhas), Sofia Marques, Dinarte Branco (Diletante), Martin Loizillon (Padre Dinis Jovem), Nuno Távora (Diletante), Helena Coelho (Marquesa de St. Eulália), Duarte Guimarães (Escrivão), Beatriz Leonardo (Dona Antónia), Carlos António (Pescador), Martim Barbeiro (Filho do enforcado), Bruno Ambrósio (Miúdo Líder Escola), Sofia Leite (Prelada), Ana Sofia Campos (Maria Amália), António Simão (Pescador), Raquel Dias (Adelaide), Martinho Silva (José Salema), José Manuel Mendes (Frei Baltazar da Encarnação), Vânia Rodrigues (Dona Antónia), Pedro Carmo (1º Cavalheiro), Américo Silva (Meirinho do Tribunal), José Airosa (Bernardo), Leonor Figueiredo (Emília do Coreto), Dinis Gomes (Joaquim), André Gomes (Barão de Sá), etc. Duração: 272 minutos; Distribuição em Portugal: Clap – Produção de Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal 21 de Outubro de 2010; Locais de filmagem: Sintra, Portugal.


*Lauro António é realizador e crítico de cinema – lendário em Portugal. Lisboeta de gema, foi a cidade que também cunhou o seu gosto pelo cinema, e ele próprio mudou a história do seu cinema.

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1 Comentário

  1. Muito interessante o artigo de Lauro Antonio sobre os “ Mistérios de Lisboa”. Eramos “colegas de café” faz-me falta a presença dele.

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