O primeiro dos dez sensores foi colocado esta semana no Jardim da Amnistia na freguesia de Campolide. Faz parte do projeto “Sensing Campolide” que pretende recolher de forma inteligente dados sobre a qualidade do ambiente. Os sensores estarão colocados em pontos escolhidos estrategicamente e vão captar informação sobre o ar, as partículas, o ozono e o ruído, que serão partilhadas através de uma rede sem fios de baixo consumo – e que servirão para obter uma melhor informação da situação do bairro.

A ideia foi posta em prática pela NOVA Cidade – Urban Analytics Lab da NOVA IMS, vizinha do bairro e vai ter no terreno um exército de jovens a ajudar, a começar pelos alunos de 12º ano da Escola Profissinal de Ciências Geográficas, do curso de Técnico de Gestão de Ambiente.

“Isto é como quando dizemos às crianças que se queixam da matemática: ‘Um dia vais precisar disto’. Neste caso, é a ciência a aproximar-se dos cidadãos e os cidadãos a perceberem a sua importância”, explica Cristina Sousa, da área de Inovação da Junta de Freguesia.  

Tudo começou numa confluência feliz de ideias. Por um lado, os projetos que os alunos da EPCG apresentaram para a sua Prova Aptidão Profissional (PAP) e nos quais os professores Carlos Caeiro e Elsa Ferreira se aperceberam que, de facto, muitas das ideias dos alunos dependiam de dados. Dados que não existiam. “Houve mesmo um aluno que decidiu que ia analisar a qualidade da água e do solo do Jardim da Amnistia”, conta Carlos Caeiro. Não havia maneira de o fazer.

Por outro lado surgiu a ideia do professor Miguel de Castro Neto, docente da NOVA IMS (Nova Information Management School) e especialista em dados urbanos. Caroline Gilman Wentling (mais conhecida por “Callie” por estas bandas), que trabalha com ele, explica que o projeto “pretendia ser sensorial, de ciência cidadã, com crianças e com uma dimensão sobre a qualidade do ambiente”.  

Juntaram-se às vontades, do NOVA Cidade e da AD NOVA IMS, da Liga para a Proteção da Natureza (LPN) e da Escola Profissional de Ciências Geográficas (EPCG), o apoio da Junta de Freguesia de Campolide e co- financiamento do Fundo Ambiental.

A partir da próxima semana todos os sensores estarão a funcionar e, de dez em dez minutos, vão “acordar” para recolher informação e enviá-la para o portal de dados da NOVA IMS, voltando a seguir a “dormir”, como descreve Callie no seu sotaque norte-americano.

A construir pequenos grandes cientistas

O projeto não se fica só pelos dados captados pelos sensores. Os dados sobre o solo e a água são também fundamentais, e a EPCG desenvolveu mochilas com kits para recolha de amostras do solo e da água. Pousadas num banco do café do Jardim Amnistia, parecem mochilas absolutamente normais, mas, dentro delas, cabe o mundo da sabedoria. “São mochilas à Sport Billy”, diz Carlos Caeiro, recordando o desenho animado da sua infância que guardava equipamento desportivo numa mochila mágica.

Dentro das Lab Backpack, temos “laboratórios móveis sobre a água e o solo”, descreve Elsa Ferreira: reagentes, protocolos e tubos de ensaio.

As Lab Backpack, “laboratórios móveis do solo e da água”. Foto: Orlando Almeida

Para já, são só alunos mais velhos que têm o projeto em mãos, mas está a ser preparada a inclusão da Escola Básica Marquesa de Alorna, também em Campolide. E a ideia seria distribuir 40 sensores móveis pelos alunos de 3º ciclo que recolheriam dados sobre o ambiente nos seus percursos – de casa para a escola, da sala de aula para o recreio.

Este seria um projeto a implementar na disciplina de Educação para a Cidadania, já que a sustentabilidade é um dos temas trabalhados nestas aulas, e contaria com ações de formação por parte da Liga para a Proteção da Natureza (LPN).

Do resto da comunidade, o “Sensing Campolide” pede também à comunidade que contribua com observações diárias. “Podem deixar observações sobre o que veem no dia-a-dia e a equipa da LPN vai validá-las para ficarem disponíveis no portal”, explica Callie.

Dados sobre árvores, plantas, animais… tudo é bem-vindo. E é este convite aberto à comunidade que permite trilhar caminho no âmbito da “ciência cidadã”. Já não estamos só no domínio dos alunos, mas de todos os moradores de Campolide e, quem sabe, um dia, de toda a Lisboa: “Campolide é piloto, mas gostava que o projeto crescesse”, diz Cristina Sousa com um grande sorriso.

“O portal está aberto. Queremos que as pessoas juntem dados, usem os dados, sugiram ideias, desenvolvam produtos e serviços”, explica Callie. Aliás, a NOVA IMS já falou com a EPAL (Empresa Portuguesa das Águas Livres), e equaciona também incluir dados da EMEL (Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa) para que o portal cresça e o projeto ganhe mais e mais terreno.

Criar sinergias em Campolide

Numa freguesia com tantas pessoas – em que cada uma é um “poço de conhecimento” -, Cristina Sousa acredita que este é o projeto ideal para a partilha dessa sabedoria entre alunos e cidadãos. E é a primeira a dizer que quem mais “ganha” com tudo isto é a Junta: “O conhecimento do território ajuda-nos a nós e aos decisores a tomar medidas de ordenamento do território, de autorizações de algumas atividades, de gestão do espaço público”.

A equipa que está a instalar o projeto na freguesia de Campolide. Foto: Orlando Almeida

Os dados recolhidos permitirão melhorar a qualidade de vida da freguesia, e, em alguns casos, alertar as autoridades para situações mais graves. Aliás, um dos lugares onde será colocado um sensor é o Liberdade Atlético Clube, que se situa junto a uma linha de comboio. Neste clube há aulas de teatro, yoga e futsal, e o ruído do comboio perturba muitas vezes.

“O Liberdade Atlético Clube já veio abordar a Junta de Freguesia, mas isto não é da nossa competência”, explica. Com estes dados e a sua “prova cabal”, será mais fácil intervir.

Em janeiro, o “Sensing Campolide” chega ao fim, com os alunos do curso profissional e do ensino básico reunidos numa feira para comemorar a sua grande experiência científica, mas todos querem que este seja apenas um começo. Um começo que impulsione a curiosidade pelo meio ambiente, pela sustentabilidade e pela criação de sinergias nas comunidades.

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 24 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna.

Entre na conversa

1 Comentário

  1. Ana daqui de Lisboa a Av, de Berna desfigurada,,,,tenho aqui o mesmo na minha rua em Pedrouços,,,mal -concebidas,,,historias sao uma forma bonita de contar a vida com os outris que nos inspiram,,,Isabel LS

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *