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O Comidinhas é mais centro do mundo do que restaurante. E mais café, churrasqueira e gelataria do que restaurante. Aí trabalham o Namer, o Lutador e a Tribalista, que são os nomes que a Infante Ruivo lhes atribuiu pelo carinho de comer bem. A Infante Ruivo, constituída por meia-dúzia de pessoas nas quais me incluo, é o escritório onde pintamos, fazemos teses de doutoramento, escrevemos e analisamos os requisitos da taxa croquete, cuja exegese fica para depois. Mas digo que a taxa croquete do Comidinhas, tal como a da Infante Ruivo, é relativamente baixa.

Na semana passada, ninguém me acompanhou. A sós numa mesa do restaurante, solto comigo mesmo, imaginei que a sala mais babilónica da Torre de Babel deve ter sido assim, um imenso restaurante em que cada um comia na sua língua. Um enorme Comidinhas de mesas corridas com gente estafada por subir as escadas até àquele piso, gente farta de discutir, pessoas querendo sopa e bife. Ombro a ombro, comendo a refeição quente em silêncio.

Já imaginava a logística das cozinhas, as leguminosas içadas pelas traseiras em cordas de cânhamo, os pedidos dos empregados, a algaraviada dos cozinheiros e o lume brando que é a conversa desfiada dos comensais (agora todos se compreendiam, já que todos falavam a língua da fome), quando ouvi um «Olha desculpa, faz favor, não leves a mal».

E na mesa ao lado sentou-se um homem de cinquenta anos com uma voz que poderia ser a do retrato de Dorian Gray, límpida mas conspurcada.  «Não leves a mal eu dizer-te isto. É que não suporto pessoas que bebem café sem açúcar. Considero-as azedas.»

Logo vi que a tragédia alheia se aproximava devagar, a bordo de uma chávena de café. E eu, que acabava de o beber sem açúcar, respondi-lhe: «Esteja descansado, que eu não levo a mal».

O homem endireitou as costas, acabou de misturar o açúcar no café, misturou-o bem, azedamente, e bebeu de um trago, xarope o suficiente para deixar a boca doce. E disse: «Tu não leves a mal, mas, pior do que o café, só quem está demasiado apegado aos pais. Conheci gente assim, apegada aos pais como doentes à cama. Eu não vou muito à bola com isso. Tu não ligues, mas vou-te contar. Eu detesto os meus pais. E tenho-lhes dito isto na cara, não estou aqui com nenhum segredo.»

Eu repeti o meu «Esteja descansado, que eu não levo a mal», agora anzol para peixe de águas profundas. O homem subia à superfície, a água desturvava-se-lhe, aí vinha um tamboril sedento de se mostrar.

Ansioso, como à espera de que terminássemos uma conversa que não tínhamos começado, o empregado que a Infante Ruivo intitulou de Lutador entregou-me a conta. «Estava tudo bem, obrigado», disse-lhe. Mas o homem comentou: «Nesta vida, nada está tudo bem, se formos a ver. A mim, depois do diagnóstico, fez-se luz. Nunca tudo bem, nunca». O Lutador, a pessoa mais delicada de Marvila, voltou para o balcão a coçar a cabeça, talvez fazendo contas ao bom e ao mau, mas atrapalhando-se com os dedos, que não eram suficientes para semelhante matemática.

«Comigo é assim», continuou o homem. «Tu não leves a mal, mas eu tenho a minha menina de vinte anos que não me dirige a palavra. Mais valia ela falar estrangeiro. Um pai ter de aturar uma filha daquelas. Uma vergonha, eu tê-la gerado. Só que nunca sabemos onde nos metemos, não é assim?»

«Esteja descansado, que eu não levo a mal», disse-lhe.

«Pois é mesmo assim. Tu não leves a mal, mas a pior de todas é a minha ex. Ainda pior do que a miúda. Fode-me o juízo, é assim mesmo, fode-me todo. Sempre a telefonar. Sempre a menina isto, sempre a menina aquilo. Eu quero lá saber daquelas duas.»

«Esteja descansado, que eu não levo a mal», disse-lhe.

Depois calou-se. Ouvia-se no Comidinhas o murmúrio dos restaurantes, com as vírgulas das gargalhadas, as facas estridentes mal apontadas no prato, a televisão de fundo, os pedidos declamados à cozinha, as conversas de amor, de ódio, de circunstância. E o homem, cuja voz tinha o desconsolo dos adolescentes, sentiu-se certamente e de súbito sozinho.

O Lutador voltou, deu-me o troco e disse ao homem: «O senhor desculpe-me o que lhe vou dizer», depois calou-se. E estalando os dedos: «Estive a fazer as contas. Acho que não concordo consigo, nesta vida não está tudo mal, se formos a ver. Nem sempre tudo mal!» Satisfeito por ter acertado na dose de palavras, voltou para a cozinha, onde o esperava um churrasquinho à Comidinhas, que leva costeletas, meio frango, salada de tomate e muito arroz e batata frita muita.

O homem inclinou-se para mim, passou a mão pela cara como se tentasse limpar a marca de Caim, e disse-me: «Eu explico e explico e explico, cai sempre em saco roto. Raios partam, assim a gente não se entende! Ao menos tu não levaste a mal.»

E eu – que me falta a resposta pronta – saí do restaurante de Babel sem lhe explicar que não levei a mal porque nem sequer falamos a mesma língua. Mas é imperdoável, gostar-se de café com açúcar.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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