Tenho um amigo chamado João. Tenho vários, felizmente, mas nenhum como este. Este João de que vos falo hoje é um dos grandes intérpretes de Fado de sempre. Mais do que isso, é um dos principais responsáveis pelo ressurgimento deste maravilhoso género musical após a perseguição a que foi sujeito nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974.

Já aqui falei deste tema, e não me irei repetir. Mas a maior prova disto que afirmo talvez tenha sido o efeito que tal perseguição teve na carreira e na vida de Amália Rodrigues, então – e sempre – a nossa figura maior.

E que tem o meu amigo João que ver com isto, perguntam-me? Pois, eu sei que poucos lhe reconhecerão tal feito, mas eu sim. Eu que o conheço bem e que de perto acompanhei a sua vida e carreira entre o início dos anos 90 e a primeira década deste século, sei do que falo.

João Braga. Foto DR

Falo-vos do João Braga. Então e porque será que o que ele fez pelo Fado não é reconhecido e valorizado pelos seus pares, menos ainda pela Comunicação Social? Bom, porque o João tem a maravilhosa qualidade (ou temível defeito) de dizer o que pensa, sem se preocupar com as consequências, usualmente mais nefastas para o próprio do que para os outros.

Depois porque politicamente nunca se enquadrou nos vários regimes que foram dominando a nossa sociedade: do Estado Novo foi fervoroso opositor, durante o PREC foi injustamente perseguido e forçado ao exílio (sem nunca disso ter feito bandeira), e tem – dado que pensa pela sua própria cabeça e não pela dos outros ou pelo que é conveniente – sido crítico feroz da política cultural (ou da ausência desta) dos vários governos da nossa ainda jovem democracia.

É mordaz, polémico, independente e imprevisível. Tudo o que não se “quer” ser nos dias que correm…

Vamos ao que o João fez pelo Fado, especialmente pela minha geração e o que daí resultou.

Numa época em que o Fado era mal visto e malquisto pela maioria da intelligentsia nacional, o João, o João Ferreira Rosa  e o Rodrigo apresentaram um programa de tv chamado “Fado Vadio”. Apesar de terem sido emitidos apenas quatro episódios de cada um, este programa teve bastante repercussão na comunidade fadista, e não só.

Os autores eram ambos já bastante populares, mas nesse programa deram voz a muitas e muitos artistas que não tinham, então, tanta visibilidade mediática.

Talvez tenha sido esse o início de uma tendência que mais tarde o João veio a aprimorar: a de dar palco a novos e emergentes talentos do Fado, dar-lhes a mão e transmitir-lhes muito da sua vasta experiência e conhecimento.

Foi essa a sua faceta que mais contribuiu para a renovação do Fado (expressão de que não gosto especialmente, mas que os media decidiram utilizar para explicar a proliferação de cantores e músicos que sucedeu na década de 90): ter dado visibilidade a muitas e muitos cantores da minha geração e até de gerações mais recentes. Nos seus concertos, alguns com transmissão televisiva, sempre teve a generosidade de convidar para com ele partilharem o palco inúmeros artistas que davam então os primeiros passos nestas lides.

Digam as más línguas (e são muitas!) o que disserem, sempre teve para com estes uma atitude cordial, correta, amistosa, procurando constantemente que com ele aprendessem, evoluíssem, amadurecessem. E mesmo que alguns de nós não fossemos ainda profissionais, sempre nos tratou como tal, pagando condignamente cada atuação.

Na morte de Amália Rodrigues, o meu amigo João foi desafiado por um canal de TV para organizar um espetáculo de homenagem à Diva, que resultou no programa mais visto até então nesse canal e um dos mais televisionados de sempre. A partir daí, foram inúmeras as solicitações que recebeu, nomeadamente da Câmara Municipal de Lisboa, para que organizasse tributos ao nome maior do Fado.

Nessas organizações, sempre complicadas, difíceis, trabalhosas, João sempre dedicou aos novos artistas um carinho muito especial, sabendo ele que para muitos, estes concertos foram as primeiras verdadeiras experiências em palcos de relevância, como foi o caso do Coliseu dos Recreios, CCB e São Carlos.

E que artistas são esses de que falo? Posso começar por mim, claro. Mas então aqui vão apenas alguns: Cuca Roseta, Ana Moura, Maria Ana Bobone, José da Câmara, Mafalda Arnauth, Katia Guerreiro, Mariza, António Zambujo, Ana Sofia Varela, Miguel Capucho, Gonçalo Salgueio, Lina Rodrigues, Francisco Salvação Barreto, Matilde Cid…e muitos outros que, ao longo dos anos, foram participando nos seus concertos ou em espetáculos para televisão por ele organizados.

Este contributo foi simplesmente fundamental para o crescimento da nossa música, para a sua visibilidade junto do grande público, que até há bem pouco tempo continuava (genericamente falando, claro) a achar que o Fado era um tipo de música em decadência, quase exclusivamente executada e escutada por gente mais “madura”, vetada ao natural desaparecimento.

Antes, o que o João ajudou a demonstrar foi precisamente o contrário: o Fado estava vivo e bem vivo, representado por artistas de qualidade, cuidadosos e exigentes na escolha do repertório, na imagem, no discurso. Muitos lhe reconhecem esse papel fundamental no percurso artístico, embora me custe dizer que outros foram-no ocultando, infelizmente.

Nada que preocupe muito o próprio do João. Sei que se está positivamente borrifando para isso, não foi esse o motivo que o levou a dar a mão a tanta gente. Aliás, sei que também pouco se importará que eu agora lhe faça este pequeno tributo. Se bem o conheço, é bem capaz de ficar furioso comigo.

Mas eu simplesmente tinha de o fazer.

Ao longo da sua vasta carreira, o João teve ainda a ousadia (seguindo e bem as pisadas da sua maior referência e grande amiga, Amália Rodrigues) de cantar os nossos maiores poetas. Mas mais do que isso, ousou compor para esses maravilhosos poemas (o João sempre teve um refinado gosto para a poesia) novas e belíssimas melodias, que só por manifesto desconhecimento e/ou preconceito não são mais cantados pelos mais novos fadistas…

Quem ficar com curiosidade, basta procurar, por exemplo, pelos temas “Prece” (a de Fernando Pessoa), “Dom Sebastião” (poema de Manuel Alegre) ou a “História do Simão” (com letra de António Tavares Telles) entre muitos outros. Em todos eles, o meu amigo João, usa a sua exímia dicção, divisão e correta acentuação das palavras, características fundamentais para qualquer cantor, mais ainda quando se dá voz à grande poesia nacional. É até uma questão de respeito pelos próprios poetas.

Aprendemos todos muito com o meu amigo João. Com o seu humor acutilante, brilhante. Com a sua vastíssima cultura geral, a sua prodigiosa memória (não conheço, aliás, ninguém como ele neste aspeto). Viajar com o João era sempre uma experiência incrível: instalávamo-nos nos melhores hotéis, comíamos nos melhores restaurantes (porque o João sabia sempre quais eram, fosse em Nova Iorque ou no Luxemburgo), visitámos museus, galerias de arte…enfim, banhos de cultura que em muito contribuíram na formação das nossas personalidades artísticas e não só!

Que bom seria que (pelo menos) a tribo do Fado desse o devido valor ao meu amigo João. Não por ele, que não quer saber disso para nada, mas por mim. E talvez um bocadinho pelos outros 🙂


Rodrigo Costa Félix

É lisboeta, fadista com trinta anos de carreira, letrista, produtor, agente e coproprietário do restaurante Fado ao Carmo. Tem quatro discos editados, vários prémios e distinções – nacionais e internacionais – e uma vida inteira dedicada à promoção e divulgação da “canção de Lisboa”.

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10 Comentários

  1. Justo tributo de quem conhece e tem autoridade para qualificar e sublinhar o que o João Braga, tem feito pelo Fado, para além do excelente intérprete, que ainda hoje nos dá prazer ouvir.
    Boa, Rodrigo
    Abraço

  2. Sempre achei que não se deu ainda o reconhecimento devido a esta grande figura do fado e da música em Portugal. É que para além de ser um grande interprete tem sido incansável na divulgação dos novos valores desta expressão musical, muito nossa, mas que continua a cativar outras pessoas em todo o mundo. João Braga merece todo o nosso apreço!

  3. Caro Rodrigo, não só produziste um excelente texto como deste a correcta ideia do carácter e da dedicação do João ao fado e ás pessoas. É muitas vezes incompreendido porque diz o que pensa e isso incomoda alguns. Pois é…
    A homenagem de que falas é mais do que merecida e a RTP podia juntar-se, pois o João teve inúmeras colaborações e autorias em programas, muitas delas comigo. Os fadistas que referiste e outros com a RTP poderiam ter esse gesto de gratidão e admiração para com quem tanto deu e empolgou a canção tradicional portuguesa : o fado.

  4. Concordo 100% com o teor do artigo.
    João Braga, para além de ser um fadista extraordinário, com um timbre de voz lindíssimo, tem também essa grande qualidade ( incomoda é certo) de dizer o que pensa independentemente do contexto.
    É um privilégio poder ouvi-lo cantar. A última vez foi na Mesa de Frades, ainda com o saudoso Prof. Joel Pina.

  5. Rodrigo, a exclamação AH FADISTA!! Bem se aplica. Mais dizer…já está tudo escrito.

  6. Querido Rodrigo. Muito mais havia a dizer deste Senhor, mas esta é já uma linda homenagem! Quem sabe se o pessoal do fado não terá também muito mais a dizer do João Braga que serviu de inspiração a quase todos. Aproveitem! Não deixem que depois seja tarde.! Beijo grande Rodrigo

  7. Gostei muito. Bem haja por dignificar o justo contributo e clarificar o papel de João Braga na “tribo do fado”.

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