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Quando a vi pela primeira vez, apeteceu-me amá-la toda. Ela andava pelo restaurante atarefada, metida num avental, cheirando a fritos. Tinha o cabelo despenteado, notava-se o cansaço, falava alto com os outros empregados. Tinha uns vinte quilos só de gordura, rugas na testa e a saia mais feia do mundo. Assim que a vi, quis que fosse minha e soube que, se me tocasse, eu seria manteiga mole entre os seus dedos.

Vejam, eu nem sou de ir a restaurantes de comida portuguesa. E quem sai de casa em busca de salmão não espera voltar com o coração feito em pedaços. O meu amigo de longe, que nunca viu a minha terra, viera a Lisboa como um turista, e como um turista tive de levá-lo a Alfama, e era certo e sabido que entre queijo de ovelha íamos ouvir um fado. O triste fado português, a saudade que não passa. Ainda lhe disse em inglês: “In Portugal, we really like to miss people.”

E quando eu a vi, pela primeira vez, a levar à mesa uma travessa de bacalhau na brasa, enchi-me de saudades. A guitarra soava ao fundo, um triste lamento tocado, a fadista tinha uma cascata de caracóis negros, era para ela que toda a gente olhava, mas eu fixei-me naquela senhora de avental.

Quando veio à minha mesa, os nossos olhares cruzaram-se, mas ela não sentiu nada. Eu, claro, estremeci por vê-la. Eu era uma entre muitos e ela não fazia ideia de que era igualzinha à minha avó.

Durante dois segundos de glória, achei que ia reconhecer-me como eu a reconhecia, que o meu amor vivo por uma mulher morta ia ter ali desforra. Juro, achei que ia dizer “Fofinha?”, mas limitou-se a apresentar o menu, que nem sequer tinha os meus pratos preferidos, nem as batatas fritas como ela as fazia nos meus sonhos, nem os rissóis feitos com massa que amassávamos as duas.

A voz dela era diferente, o sotaque era o oposto. Enquanto me leu o menu, comeu as vogais todas. Nada daquilo era a alegria que costumava vir daquela boca: os sons todos ditos, as vogais todas roubadas, uma certa leveza de fala que um lisboeta nunca tem. A minha avó nunca estrangulou a língua com o nó de uma gravata.

Enquanto lhe pedi salmão e o meu amigo insistia “But what are pataniscas? Is this vegetarian?”, perdeu-se parte do encanto, mas ela parou de falar e eu vi o que havia para ver, e na visão era tão igual que era igualzinha. Podia falar da mesma forma, mas nem era preciso tanto, só vê-la ali na sua vida já me enchia de qualquer coisa a arder. De amor, de ternura, de saudade, “and Portuguese people really like to miss”.

Num repente, o meu amigo pareceu voar para a Escandinávia, a fadista calou-se, a guitarra ficou muda, os outros clientes desapareceram, os transeuntes foram passear para o Intendente e parecia que havia apenas eu e ela. Recuperar uma avó que morreu nunca tem preço.

Era Lisboa em Setembro de 2021, mas eu vi-nos em Vizela em 2006. O Inverno caía-nos na casa e nos ossos, a nossa casa era mais fria do que a rua e eu todos os dias me lembrava da avó do Saramago a aquecer porquinhos na cama. A minha fazia coisa parecida, menos drama, o mesmo amor. A prova de amor dela era meter as minhas mãos de gelo dentro das suas mãos de avó. A minha era não lhe dizer que a posição em que ficávamos me fazia doer as costas.

Já aquela senhora só queria o meu dinheiro, 12 euros inteiros por meia dúzia de espargos com salmão. Mas eu daria muito mais. Tivemos um momento que não foi nosso, foi só meu, e por isso só eu o tive, e ela continuou a andar na sua vida sem saber que existiu noutra. Sem saber que Alfama foi Vizela, sem saber que foi avó da desconhecida que jantava com um rapaz árabe que não sabia o que eram pataniscas.

Quando veio trazer a conta, eu soube que, durante aquele breve instante em que ela era outra, eu faria tudo por ela. Se caísse à minha frente, eu espancaria o chão que a magoara. Se eu lhe visse um rasgo de tristeza, roubaria a graça ao mundo para a ver rir outra vez.

E abri os olhos como sóis para a ver melhor – tudo esperança, tudo vitória. Ela há-de ter julgado que me faltava um parafuso. Ainda pensei justificar-me, “Sabe, minha senhora, é que faz-me mesmo lembrar a minha avó”, mas um Pedrosa nunca cede à mariquice, nunca dá de si em público, é sempre sério e duro e frio e depois vem fazer estas figuras tristes para um jornal.

Pensei em voltar no dia seguinte para a ver outra vez. E depois no outro dia para a ver mais uma vez. Voltar todos os dias até que ela soubesse o meu nome, até que me dissesse “És a neta que não tive”, até que me perguntasse “Queres chá de cidreira, fofinha?”. Mas nunca mais lá voltei. Tenho medo de lá ir e de não ver a minha avó.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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