Passou há dias na RTP Memória um filme de 1978, “Os Comandos da Morte”, de Franklin J. Schaffner, que por diversas razões me apeteceu rever. Uma delas foi precisamente estas crónicas sobre “Lisboa e o Cinema”.

Foi um filme que vi, na altura da sua estreia, sobre o qual escrevi, julgo que nas páginas do Diário de Notícias, onde então colaborava como crítico diário. Não tenho esse texto disponível e à mão, mas creio que a minha opinião não era muito favorável, apesar de eu nutrir forte simpatia pelo seu autor. Era uma obra que me deixara insatisfeito, apesar de o tema misturar ficção científica e política com alguma pertinência e no elenco surgirem nomes que admiro.

Os menos preparados nestas coisas podem perguntar-se: “Mas que tem este filme a ver com Lisboa?” Pois pouco, por um lado, muito por outro.

Esta é uma produção norte-americana e inglesa, que se passa no Paraguai, Áustria, Inglaterra e EUA. Baseado num bestseller de Ira Levin (autor de vários, e alguns interessantes, como “Rosemary’s Baby”, “The Stepford Wives” ou “A Kiss Before Dying”), publicado com algum sucesso em 1976, e logo adaptado ao cinema.

“The Boys from Brazil” arranca supostamente em Assunção, capital do Paraguai, onde se realiza uma reunião secreta entre nazis ali refugiados depois da sua derrota militar em 1945. Quem dirige a reunião é Josef Mengele, oficial alemão das SS e médico que levou consigo o epíteto de “Anjo da Morte”, pelas suas tremendas experiências “médicas” no campo de extermínio de Auschwitz.

A reunião é para instruir os restantes membros das novas directrizes desse sinistro homem de fato branco e de ideias bem negras: matar 94 homens em todo o mundo, todos com cerca de 65 anos, em certas datas especificas, todos eles funcionários públicos.

Por outro lado, no centro da Europa, em Viena de Áustria, vamos encontrar Yakov Liebermann, um velho judeu, caçador de nazis (tal como Simon Wiesenthal e Serge Klarsfield, sobretudo o primeiro que, de certa forma, o filme procura representar na personagem interpretada por Laurence Olivier), que é alertado para esses acontecimentos inquietantes ocorridos na América Latina, continente que, está historicamente comprovado, repescou grande número de criminosos de guerra que ali se refugiaram. Dai o nome original “The Boys from Brazil”. Temos a trama lançada.

A acção de Os Comandos da Morte passa-se no Paraguai, mas as filmagens decorreram em Lisboa.

Mas o Paraguai não é o Paraguai, é Portugal, e Assunção é Lisboa, ali na zona de Belém, mais ou menos à frente do Palácio da Presidência da República “Portuguesa”.

Ao longo de toda a obra, Lisboa vai intercalando filmagens com Viena, Salzburg, Lancaster, na Pensilvânia, EUA, Londres e os estúdios Shepperton, em Inglaterra.

Em redor de Lisboa, e na capital, foram vários os locais escolhidos para filmagem, Tivoli Hotel, Hotel Flamingo, Palacete Henrique Mendonça, praia do Rosário, Moita, em Setúbal, Mercado de Santa Clara, etc. A rodagem decorreu entre Outubro de 1977 e 14 de Março de 1978.

Fernando Pessa funcionou como “relações-públicas” em Portugal, e aparece, impecavelmente vestido de militar, numa festarola nazi que ele acompanha de longe. Figuração especial e um toque português no Paraguai. “E esta, hein?”

O cinema tem destas coisas, dizem-nos que estamos num determinado locais e afinal estamos noutro. Uma completa fantasia, uma manipulação, um jogo em que gostamos de entrar. E pagamos bilhete. Também para ver um elenco poderoso, com Gregory Peck, Lawrence Olivier e James Mason.

Gregory Peck, que quase sempre foi figura simpática, aqui não pode ser mais antipático. Lawrence Olivier estava muito fraquinho, mas com a energia suficiente para defrontar dobermanns e ser nomeado para o Oscar de Melhor Actor (o filme teve três nomeações, além de Olivier, ainda houve nomeações para Melhor Montagem, Robert Swink, e Melhor Partitura Musical Original, Jerry Goldsmith).

Este continua a não ser um dos melhores títulos da extensa filmografia de Franklin J. Schaffner, um realizador bastante interessante, com obras de referência na cinematografia norte-americana.

Nascido em Tóquio, Japão, a 30 de Maio de 1920, viria a falecer em Santa Mónica, Califórnia, a 2 de Julho de 1989, poucos dias antes de Lawrence Olivier, que faleceu a 11 de Julho do mesmo ano.

Os pais eram missionários no Japão, e quando mãe, viúva, regressou aos EUA, ele acabou por ingressar na indústria cinematográfica, trabalhando desde 1949 no cinema e na televisão, onde se tornou notado pela originalidade das suas concepções.

Um dos primeiros filmes de fundo com a sua assinatura a chamar a atenção foi “Segue o Teu Destino” (The Stripper, 1963), a que se seguiram “Os Candidatos” (1964), “O Senhor da Guerra” (1965), “O Duplo Homem” (1967), entrando depois no seu período de maior relevância, com “O Homem Que Veio do Futuro” (Planet of the Apes, 1968), “Patton” (1970), “Nicolau e Alexandra” (1971), “Papillon” (1973), até chegar a este “Os Comandos da Morte” (1978).

Ainda voltaria a filmar em Portugal, numa zona de praias perto de Lisboa, creio que no Guincho, numa aventura medieval, em 1987, “Jovens Cruzados”. Tive a sorte de assistir a um dia de filmagens, levado pelo meu amigo Manuel Costa e Silva, que colaborou na produção.

Não é muito invulgar Portugal servir de cenário para outras paragens. O dinamarquês Bille August adaptou um romance da chilena Isabel Allende, “A Casa dos Espíritos”, em que o nosso país passava pelo Chile de Salvador Allende. Estávamos, porém, em 1993 e o elenco era outra vez de luxo: Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close ou Maria Conchita Alonso. Alguns portugueses. Voltaremos a este tema, com revelações pessoais.

OS COMANDOS DA MORTE

Título original: The Boys from Brazil

Realização: Franklin J. Schaffner (EUA, Inglaterra, 1978); Argumento: Heywood Gould, segundo romance de Ira Levin; Produção: Robert Fryer, Stanley O’Toole, Martin Richards; Música: Jerry Goldsmith; Fotografia (cor): Henri Decaë; Montagem: Robert Swink; Casting: Alixe Gordin; Design de produção: Gil Parrondo; Direcção de artística: Peter Lamont; Decoração: Vernon Dixon; Guarda-roupa: Anthony Mendleson; Maquilhagem: Ronnie Cogan, Patrick Grant, Bill Lodge, Christopher Tucker; Direcção de Produção: Ron Carr, Dieter Meyer; Assistentes de realização: Terence Churcher, Paul Esposito, Mike Jordan, José López Rodero, João Severino (Portugal), Marijan David Vajda; Departamento de arte: Stephen Hendrickson, Michael Murchan, Thomas Riccabona, Dave Everall, Richard Mccarthy, Tom Raeburn; Som: Derek Ball, Don J. Bassman, William Hartman, Godfrey Marks, Ken Nightingall, Richard Overton, Edward Rossi, Richard Sperber; Efeitos especiais: Roy Whybrow; Companhias de produção: Sir Lew Grade, Producers Circle, ITC Entertainment, Intérpretes: Gregory Peck (Dr. Josef Mengele), Laurence Olivier (Ezra Lieberman), James Mason (Eduard Seibert), Lilli Palmer (Esther Lieberman), Uta Hagen (Frieda Maloney), Steve Guttenberg (Barry Kohler), Denholm Elliott (Sidney Beynon), Rosemary Harris (Mrs. Doring), John Dehner (Henry Wheelock), John Rubinstein (David Bennett), Bruno Ganz (Professor Bruckner), Anne Meara, Jeremy Black, Walter Gotell, David Hurst, Wolfgang Preiss, Michael Gough, Joachim Hansen, Guida De Carlo, Joseph Oliveira, Fernando Pessa, etc. Duração: 125 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 6 de Abril de 1979.


*Lauro António é realizador e crítico de cinema – lendário em Portugal. Lisboeta de gema, foi a cidade que também cunhou o seu gosto pelo cinema, e ele próprio mudou a história do seu cinema.

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